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Wim Wenders volta a Cannes com parceria de 'Paris, Texas' | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Don’t Come Knocking repete a bem-sucedida parceria que teve como resultado o filme Paris, Texas em 1984 e a Palma de Ouro para seu diretor, o alemão Wim Wenders. Como no filme da década de 80, Sam Shepard é o roteirista. Desta vez Shepard também é o protagonista, interpretando o ator decadente de westerns, Howard Spence. Wenders já chegou a fazer um teste de elenco com Shepard, há 27 anos, mas o estúdio vetou o nome do ator e dramaturgo, por achá-lo desconhecido. Então, quando Shepard escreveu o roteiro para Paris, Texas, Wenders conta que o queria na frente da câmera também. “Eu fiquei de joelhos, pedindo a ele que interpretasse, mas ele não queria. Não sei, ou Sam (Shepard) não se sentia pronto ou sentiu que o personagem era muito próximo dele. Mas no final, com Harry Dean (Stanton) funcionou de uma forma muito bela”, conta o cineasta. “Desta vez eu não pedi que ele interpretasse. Então, depois de algumas cenas ele mencionou de forma casual: ‘a propósito, acho que posso interpretar isso’. Então eu não tive que dizer que eu o teria matado se ele não tivesse interpretado este personagem”, brinca o diretor. Família Howard Spence, o protagonista do longa, leva uma vida regada a bebidas, drogas e muitas mulheres e, durante as filmagens de seu último longa, ele decide fugir para a casa de sua mãe. Lá ele descobre que teve um filho. A partir daí, o filme segue a jornada de Spence até Montana, onde ele tenta se reencontrar com a garçonete que seria a mãe de seu filho, ou filha. Um assunto que já foi tratado de certa forma no filme Broken Flowers, de Jim Jarmusch, que também concorre à Palma de Ouro e mostra um homem tentando encontrar seu filho. Para Wenders a família e a saudade da família é um tema comum e que preocupa a todos atualmente. “Conheço tantas pessoas que sofrem por não saberem a que lugar pertencem, ou por perceberem que perderam a parte mais importante de suas vidas. O fato de meu filme e o de Jarmusch terem, de certa forma, o mesmo tema, mostra que este é um dos temas que preocupam as pessoas no mundo hoje, a desintegração da família.” Mas Shepard afirma que não chegou a pensar em temas enquanto estava escrevendo o roteiro. “Eu não penso nestes termos, não penso em temas psicológicos, míticos, são temas interessantes mas não são questões que vem à mente quando você tenta fazer o trabalho prático de escrever um roteiro para cinema.” Para Shepard o roteiro tem a ver com personagens. “Tem a ver com personagens, com situações, mantendo a credibilidade de tudo isso. Mito e psicologia são interessantes mas não tem um papel importante na hora do trabalho prático. É um trabalho concreto, não é abstrato”, disse o roteirista. “Eu e Sam escrevemos a história juntos, centrados no personagem. Encontramos o personagem e Sam escreveu a primeira cena. Não trabalhamos por assuntos ou pela história. Sam escrevia a cena, eu lia, nós conversamos e perguntávamos o que acontecia depois com o personagem, qual a próxima cena”, afirmou Wenders. “Foi exatamente assim que escrevemos Paris, Texas”, lembra Shepard. Com um roteiro guiado pelas necessidades dos personagens, os demais atores se sentiram mais seguros, como explica Sarah Polley, que interpreta Sky, uma jovem que segue Howard Spence quando ele chega a Montana. “Não há um momento no roteiro em que uma fala foi posta apenas para cobrir uma falha que vai ser reparada mais à frente. A única dificuldade é que de intimidar, afinal você se sente como a primeira pessoa a dizer uma fala criada por Sam Shepard e se você errar, será uma vergonha para o resto da vida”, afirmou. Gabriel Mann, que interpreta Earl, o filho de Howard Spence, concorda. “O roteiro e as falas te levam exatamente para onde é preciso estar. Mesmo no meu caso, eu via este personagem como o oposto de como sou em minha vida, não foi um processo profundo ou desafiante descobrir quem era Earl. Desde o primeiro rascunho do roteiro que eu li há alguns anos, até o roteiro final, o personagem já estava na página. Isso é um presente para um ator, não recebemos isso todo dia. Obrigado, Sam.” Moral duvidosa Mesmo com todos os defeitos, Wenders não acredita que o Howard Spence, o ator decadente seja um personagem de moral duvidosa. “Ele é apenas um homem que perdeu o eixo da própria vida. Quando li a primeira cena, percebi que era um grande personagem porque, de certa forma, ele está ausente de sua própria vida. Se ele desapareceu do set de filmagem na primeira cena é porque ele percebeu que perdeu sua vida inteira”, afirmou. Quando perguntado porque todas as mulheres de Don’t Come Knocking eram bem resolvidas e os homens eram os perdidos, Shepard preferiu responder com outra pergunta. “E não é assim que são as coisas?” Orgulho Wenders passou anos trabalhando no preparo de Don’t Come Knocking e se diz orgulhoso do resultado. “Mesmo quando estavamos nas filmagens, trabalhando com estas pessoas, senti que estavamos fazendo algo certo. E quando T-Bone (Burnett) adicionou a música, eu sabia que estavamos fazendo algo muito certo. Estou orgulhosos, é, com certeza, um dos melhores filmes que já fiz na vida.” Shepard afirma que trabalhou neste filme junto com Wenders nos últimos três anos. “Trabalhamos muito com o roteiro, e é mais do que isso, é como um pedaço de nossas vidas. Algo que abrange mais do que festivais.” Assim como em Paris, Texas, a nova parceria entre Shepard e Wenders mostra muito da paisagem dos Estados Unidos, os grandes espaços abertos, as cidades de largas avenidas. “Desde o começo eu e Sam sabíamos onde o filme iria se passar, em Butte, no estado de Montana, que eu conheço há 30 anos e gosto muito. Fiquei feliz quando mencionei isso e Sam me disse que tinha ficado no hotel mostrado no filme, pois ele viaja muito”, disse Wenders. “O começo do filme, originalmente, escrevemos como se fosse em Monument Valley (o deserto montanhoso no sudoeste dos Estados Unidos), mas não filmamos lá. Fiquei decepcionado quando cheguei lá. A maioria das pessoas já viu Monument Valley nos filmes de John Ford, mas vocês também já viram nas propagandas do cigarro Marlboro. É como se Monument Valley tivesse perdido sua alma, se transformado em um parque temático”, afirmou. O diretor afirma que eles decidiram filmar em outro lugar, em Utah, o que não muda muito para quem, como ele e o roteirista, tem paixão pelo oeste americano. “Quando descobri o oeste americano em filmes e fotos, em livros e música, para mim era o lugar ideal neste planeta. E quando eu cheguei no oeste americano eu me senti mais em casa do que em qualquer outro lugar”, disse. “O assunto de Don’t Come Knocking é a procura pelo lar, e este é o assunto eterno de cada western a que eu assisti. Senti que podiamos fazer um filme no oeste americano que fosse universal pois se passa em uma paisagem que pertence a todos no planeta, é parte do mito que todos dividimos.” “O senso de pertencer a algum lugar, a volta para a casa, é essencial no genero western. Contar esta história hoje teria que ser no lugar certo, nas paisagens do oeste americano. Gosto muito, me sinto em casa no oeste americano”, disse Wenders. |
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