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Oposicionistas egípcios discutem se terão candidatos | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Quando o presidente do Egito, Hosni Mubarak, anunciou em 26 de fevereiro uma emenda à Constituição que permitiria a participação de outros candidatos nas eleições - que em geral não passam de um referendo - a surpresa foi grande, mas todos tiveram a certeza de que a lei passaria fácil por um Congresso dominado pelo governo. Nos cercas de dois meses e meio do anúncio de Mubarak até a aprovação da emenda no Parlamento, na última terça-feira, os partidos discutiram muito mas decidiram pouco: até agora apenas há apenas um candidato declarado, o presidente do partido liberal Al-Ghad ("O Amanhã") e deputado Ayman Nour. Nem o presidente Hosni Mubarak confirmou ainda se pretende concorrer a um quinto mandato de seis anos. A maior parte da oposição preferiu se concentrar em criticar a emenda - por supostamente favorecer o governo e dificultar a vida de partidos oposicionistas e grupos independentes - e continuar a discussão sobre a conveniência de se apresentar um candidato agora. "Estamos apostando na insatisfação do povo egípcio e na vontade de mudança. Se déssemos meia chance para a democracia no Egito, Hosni Mubarak não estaria mais onde está", disse à BBC Brasil o deputado Ayman Nour, quando questionado sobre suas chances de ser o próximo presidente do Egito. Mas Ayman Nour diz que o partido do governo tem uma estrutura de apoio muito forte, incluindo a mídia estatal, que deixa o jogo em condições muito desiguais. Derrota O presidente do partido esquerdista de oposição Tajamoa, Rafat Al-Sayed, diz claramente que a derrota de qualquer candidato oposicionista é invevitável. Al-Sayed diz que o partido tem um nome escolhido para candidato a presidente mas ainda está decidindo se vai lançá-lo ou não. "Com as regras atuais, a chance de vitória de qualquer candidato que não seja do PND (Partido Nacional Democrático, do governo) é zero. Estamos observando em nosso partido como isso pode evoluir se vamos lançar o general Mohi El-Din para a Presidência da República", disse. O general Mohie El-Din é um veterano da vida política egípcia. Ele fez parte do movimento de jovens oficiais - ao lado dos ex-presidentes Gamal Nasser e Anwar Saddat - que começou a luta pela fundação da República egípcia, em 1952. Seu partido defende o "socialismo árabe" nasserista. "O Egito deveria dar atenção a esta oportunidade. Vamos continuar nossa luta por igualdade e se acreditarmos que podemos participar de eleições verdadeiramente competitivas, entramos", disse Al-Sayed. O político diz que um dos principais problemas da emenda constitucional aprovada esta semana é a grande limitação à participação de independentes. "Nosso partido pode indicar um candidato mas há muitas forças independentes no Egito que estão sendo impedidas disso. Todos os cidadãos têm que ser iguais", diz. Estados Unidos Ayman Nour também diz que a emenda consitucional do governo é inócua e foi feita para "acalmar os Estados Unidos e a Europa". Críticas aos americanos fazem parte do discurso de todos os oposicionistas no Egito, mas são mais sutis nas palavras de Nour. Ele é presidente de um partido liberal com um programa econômico e político mais próximo do proposto pelas democracias ocidentais. "Nós somos um partido liberal democrata que quer reformas em todos os aspectos da vida no Egito. Precisamos de reformas econômicas e políticas profundas neste país", disse Nour, que além de político é um advogado muito bem sucedido.
Como todos os outros oposicionistas, o deputado critica a interferência americana em assuntos egípcios. Mas é o único entre eles a admitir que a pressão dos Estados Unidos pode ter tido alguma influência sobre as decisões do presidente Mubarak. Nour ganhou notoriedade nos últimos meses - na mídia internacional e nos jornais de oposição egípcia - ao ter sua imunidade parlamentar cassada e ficar preso por do início de fevereiros a meados de março, acusado de fraude para fundar seu novo partido. Irmandade Islâmica Mas a maior força de oposição no Egito é religiosa. A Irmandadae Islâmica existe no Egito e em outros países árabes há quase 80 anos mas desde 1998 está impedida de organizar-se como partido político no Egito. Como as regras para a indicação de um candidato independente permitem que o lesgislativo (dominado pelo partido do governo) vete nomes, a Irmandade deve ficar sem candidato nestas eleições. "Ter um candidato não é importante mesmo porque somos contra esta lei eleitoral, que garante a vitória do governo", disse o deputado Muhamed Mursi, um dos membros da Irmandade eleitos como parlamentares independentes. "Somos muçulmanos e queremos viver um sistema que respeite isso. Acreditamos que as regras do Estado devem emanar da sharia, a lei islâmica, com total respeito às liberdades de fiéis de outras religiões que vivem no Egito." O deputado diz que a organização vai continuar "agindo na sociedade através de todos os meios pacíficos". A Irmandade Muçulmana tem organizado grandes manifestações no Egito nos últimos meses, que levaram à prisão de diversos de seus líderes. Defesa Com tantas críticas saindo da oposição, o secretário-geral do PND e filho do presidente Mubarak, Gamal Mubarak, convocou uma entrevista coletiva para defender a emenda aprovada por seu partido, que tem firme maioria absoluta na casa. "Esta emenda foi aprovada depois de muita discussão com diferentes parcelas da sociedade no Egito. São simplesmente inverídicas as afirmações de alguns oposicionistas de que a situação está pior para eles agora", disse Mubarak. Ele argumenta que antes a nomeação de um candidato dependia de aprovação de 33% do Parlamento e dois terços dos senado e que agora a assinatura de apenas 14% dos parlamentares é suficiente. A oposição diz que continua sendo impossível conseguir a quantidade necessária de assinaturas para um independente. Mubarak também acusa a mídia de distorcer os fatos ao divulgá-los para o mundo. "Vocês mostram manifestações no Egito nas telas de TV mas dizem que não há liberdade de opinão aqui. As próprias imagens contradizem o que vocês mostram", disse. O filho do presidente é cotado para ser o candidato do governo na hipótese - considerada possível mas pouco provável - de seu pai decidir não concorrer este ano. |
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