|
Caio Blinder: Bolton altera seu papel em sabatina 'teatral' | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Uma peça teatral (mais uma) está em curso no Senado americano nos três dias de sabatina para a confirmação de John Bolton como o novo embaixador dos Estados Unidos na Organização das Nações Unidas (ONU). No comitê de Relações Exteriores, senadores democratas seguem à risca o seu papel. Eles pegam pesado contra Bolton, que, por sua vez é conhecido pela linguagem cândida e pouco diplomática, em uma carreira iniciada no governo Reagan e que culminou no seu atual cargo de subsecretário de Estado para o Controle de Armas e Segurança Internacional. Na sabatina, Bolton faz a sua parte, amacia o discurso e atua menos como Bolton. Herói dos neoconservadores e guerreiros unilateralistas, ele diz que está chegando para fortalecer a ONU e não destruí-la. Garante que sua missão é impulsionar as tão necessárias reformas da instituição sob decisiva liderança americana. Este é o raciocínio de setores conservadores. Somente com a atuação de alguém como Bolton haverá um ativo engajamento americano em instituições multilaterais como a ONU. Foi o mesmo raciocínio na controvérsia em torno da escolha de Paul Wolfowitz para presidir o Banco Mundial. Republicanos Mais intrigante é o papel dos senadores republicanos (que têm maioria de 10 contra 8 no influente comitê). Alguns deles não vieram em defesa resoluta de Bolton. São até agressivos na sabatina. O próprio presidente do comitê, o respeitado republicano Richard Lugar, passou um sermão no diplomata indicado por Bush. Disse que ser desbocado não é uma virtude por si. Às vezes é bom na diplomacia. Noutras, pode ser um desastre. Os democratas têm esta visão catastrófica, acusando Bolton de desprezar a ONU e tratados internacionais, além de ter tentado remover dois funcionários de carreira do Departamento de Estado que discordavam de sua agenda. Neste teatro, o papel mais importante é o de um moderado senador republicano, Lincoln Chafeee. Ele é o único capaz de trair a linha partidária. Na sabatina de segunda-feira, Chafee fez questões incisivas a Bolton, mas as indicações são de que irá votar a favor dele. A reprovação de Bolton seria um fiasco político e diplomático para a Casa Branca. Sua nomeação foi feita para apaziguar os neoconservadores, em uma jogada da própria secretária de Estado Condoleezza Rice. Ele queria ser seu lugar-tenente, mas a chefe da diplomacia descartou alguém com pavio curto e escolheu Robert Zoelllick, duro, porém mais pragmático. Bolton na ONU, no entanto, interessa no quadro de uma diplomacia mais muscular e satisfaz o todo-poderoso vice-presidente Richard Cheney. Como se vê é uma trama instigante e passional. Bolton é uma figura que polariza. Nenhuma das indicações de Bush neste segundo mandato gerou tantas controvérsias. Na comunidade diplomática foram redigidos documentos a favor e contra. Sintomaticamente, Colin Powell não endossou Bolton, como os demais ex-secretários de Estado. Curiosamente, o alto comando da ONU, combalida por escândalos e combatendo por sua autopreservação, faz seus próprios cálculos sobre o polêmico Bolton. Mark Malloch Brown, o novo homem forte da burocracia da ONU, lidera os esforços para impulsionar as reformas internas. Malloch Brown sabe que mudancas não serão efetivas sem o assumido engajamento americano. Melhor talvez ter gente truculenta como John Bolton batendo de dentro, do que de fora. |
| |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||