|
Partida do campeonato italiano pode virar confronto político | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Muito mais do que uma simples partida da série A do campeonato italiano de futebol, a disputa deste domingo entre Lazio e Livorno, no estádio Olímpico de Roma, será uma grande manifestação política. Uma guerra de insultos, ironias, hinos e canções, em meio a bandeiras com símbolos comunistas e fascistas e imagens de Mussolini, Stalin e Che Guevara. De um lado, o futebol operário, ou comunista, como o Livorno é chamado na Itália. Um time que não chegava à série A há 55 anos e seus integrantes reclamam de discriminação dos árbitros, que não os querem na primeira divisão só porque são todos de esquerda. Do outro, o clube que congrega torcedores ligados à organizações de extrema direita ligadas ao neo-fascismo. Influência política Era a equipe do coração de Benito Mussolini. Seu filho, Bruno, chegou até a ser presidente. Ainda hoje a Lazio é considerada uma das mais racistas do mundo. “A política está em todas as coisas, inclusive na minha camiseta”, diz à BBC Brasil o centroavante Cristiano Lucarelli, um comunista assumido, que já rejeitou convites de clubes maiores por causa de suas convicções políticas. “Claramente (a política) se apresenta no futebol e tudo indica que possa influenciá-lo”. Segundo o deputado livornense Marco Susini, Lucarelli está certo. Brasileiros “Estamos sendo prejudicados porque nossos torcedores foram a Milão provocar o primeiro-ministro”, diz ao referir-se ao jogo do ano passado contra o Milan, quando a maioria dos 10 mil torcedores do Livorno cantaram músicas comunistas e usaram lenços brancos na cabeça, imitando o primeiro-ministro - e proprietário do Milan - Silvio Berlusconi, que usou um destes lenços logo depois de ter feito um implante capilar. ”Lucarelli diz o que pensa 80% da cidade”. O prefeito Alessandro Cosimi evita falar em complô, mas reclama dos gols invalidados e das faltas não dadas a favor do time. A torcida livornense costuma comparecer ao estádio munida de bandeiras vermelhas com foices e martelos e imagens de Che Guevara. As partidas se assemelham mais a uma festa do Partido Comunista do que a um jogo de futebol. No ultimo encontro do Livorno, ocorrido há três semanas, contra o Cagliari, em meio a centenas de bandeiras vermelhas, duas brasileiras se destacavam. Comunista “Agora temos um jogador brasileiro”, disse jovem Ricardo Nocci, empunhando uma bandeira do Brasil, refererindo-se a recente contratação do atacante Paulinho, ex-jogador do Juventude. “É uma homenagem a ele e também ao povo brasileiro”. Na ocasião, Paulinho, que ainda não estreou na equipe, ficou surpreso ao ver que a quantidade de bandeiras comunistas nas arquibancadas era maior que a do time. “Não sei de nada. Só estou ouvindo falar disso agora”, afirmou o jogador de 19 anos. “Nos próximos dias vou procurar entender melhor o que representa tudo isso”. Em Livorno, na região da Toscana, a 86 km de Florença, onde Antonio Gramsci fundou o Partido Comunista Italiano em 1921, a maioria da população de 175 mil habitantes torce pelo time. Entre os jogadores, grande parte é comunista ou progressista. “Não há torcedor do Livorno que não seja de esquerda”, afirma o estudante Christian Biasci, um entusiasmado torcedor, que usava uma camiseta com a inscrição CCCP, da antiga União Soviética. “Aqui somos todos comunistas”. Mussoloni Com a Lazio não é diferente. Assim como uma equipe conta com seus integrantes e torcedorfes de esquerda, a outra também é conhecida pelo entusiasmo de simpatizantes de direita. A figura mais destacada é o atacante Paulo Di Canio, recentemente multado pela Federação Italiana de Futebol, por ter celebrado a vitória contra a Roma, em janeiro, com o braço direito estendido para a frente, gesto idêntico ao dos seguidores do ditador Mussolini. Di Canio, que tem tatuado no braço a palavra “Dux” (em referência ao título de Duce, usado pelo líder fascista Benito Mussolini) e foi um torcedor radical da equipe antes de se tornar jogador, nunca fez segredo de suas posições políticas. Fascinado por Mussolini, diz que o ditador tem sido profundamente incompreendido. Mas, negou que sua celebração tenha tido conotação politico. No entanto, a neta do Duce, a deputada Alessandra Mussolini, elogiou o ato do jogador. “Foi uma linda saudação romana”, disse ela na ocasião. “Me deixou muito emocionada”. Che Guevara Diplomático, o brasileiro César, lateral da Lazio, não quer se envolver com polêmicas. Não condena, nem elogia o gesto de Di Canio. “Sou totalmente leigo no assunto. Mas acho que o que é certo, é certo em qualquer lugar. O que é errado é errado em qualquer pare do mundo”, disse. “Cada um tem seu ponto de vista, suas opiniões, seu modo de agir e de ser”. Na mesma linha de Di Canio, Lucarelli costuma comemorar seus gols também com o braço erguido, mas com o pulso fechado, como fazem os comunistas do mundo inteiro. Por causa disso, ele tem sido prejudicado. Em 1997, num jogo da seleção italiana sub-20, ao celebrar um gol, mostrou que vestia embaixo do uniforme uma camiseta com a figura de Che Guevara. Recebeu um puxão de orelhas do treinador e nunca mais foi convocado. Briga Tanto Lucarelli, quanto Di Canio, vêm de famílias pobres. Apesar do dinheiro ganho com o futebol, renunciaram a muito dinheiro para jogar nos times de seus corações. Di Canio abriu mão dos 900 mil euros, que ganhava com o Charlton Athletic, da Inglaterra, pelos 250 mil pagos pela Lazio. Já Lucarelli deu adeus ao 1,2 milhão de euros do Torino pelos 700 mil oferecidos pelo Livorno e segue recusando propostas mais tentadoras. As duas torcidas são barulhentas e apaixonadas. Mas também violentas. Há pouco mais de um mês, no site de alguns grupos organizados da Lázio foi lançada ameaças contra os adversários. No Livorno, uma de suas torcidas organizadas, a Brigada Autônoma Livornense, conta com metade de seus 500 integrantes proibida de entrar em estádios. Tudo porque no dia em que comemoravam o retorno à série A decidiram destruir a sede de um partido da direita na cidade. Quando os dois times se enfrentaram no ano passado, as torcidas fizeram uma festa. Do lado da Lazio, um festival de bandeiras negras, faixas e cartazes de Mussolini, enquanto cantavam todo o tempo Faccetta Nera, hino do fascismo. Na torcida livornense, os jovens respondiam com palavras de ordem antifascistas e cantavam a clássica Bandiera Rossa, dos comunistas. Mesmo que tudo pareça muito divertido, ao final sempre acaba com brigas e prisões. A partida entre Livorno e Roma, em fevereiro, foi uma prévia: uma guerra de insultos, ironias e mensagens políticas, com saldo de muitos feridos. A torcida do Livorno só saiu do estádio duas horas e meia depois do término do jogo. Mesmo assim, escoltada por centenas de policiais. |
| |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||