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Após guerra civil, tâmeis agora sofrem com tsunami | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Quando o tsunami atingiu o a área norte de Sri Lanka, território controlado pelos rebeldes, o pescador Rajasingham, na cidade de Mullaitivu, pensou que a guerra civil tinha começado de novo. "A maioria das pessoas achou que o Exército tinha vindo fazer alguma operação militar, e então houve uma explosão, como se fosse uma bomba, mas quando nós vimos as enormes ondas, só aí é que percebemos o perigo", disse ele. Rajasingham que, como muitos tâmeis, só têm um nome, viu as águas levarem sua mulher e sua filha de cinco anos. Ele não encontrou os corpos das duas e provavelmente jamais encontrará. Sua irmã e os dois filhos dela também foram levadas pelo mar. Em dez minutos, a vida de Rajasingham mudou. "Eu sou pescador há muito tempo, mas nunca tinha ouvido falar de ondas gigantescas que aparecem e atacam a gente", disse ele. Faz quase dois anos que a família do pescador voltou para Mullaitivu, depois de 14 anos como refugiados em seu próprio país por causa da guerra civil entre o governo e o grupo rebelde Tigres do Tamil. Como centenas de milhares de pessoas desabrigadas, ele começou a reconstruir sua vida. Isso torna esta catástrofe natural ainda mais cruel. Afinal, trata-se de uma área onde não é raro ver pessoas terem que se mudar 10 ou 15 vezes por causa de ataques nas duas últimas décadas de conflito étnico. Eu encontrei Rajasingham andando ao longo do que foi uma das principais ruas de Mullaitivu. Agora há um estranho silêncio. Só o ruído das escavadeiras removendo escombros e das gaivotas perturba a cidade-fantasma. Lagoas Espalhados por toda a parte estão peças de roupa, fragmentos de barcos pesqueiros, alguns jogados contra árvores pela força da corrente, e até um pedaço de uma arma devolvido pelo mar. E a destruição é vista pelo menos um quilômetro terra adentro ao longo da costa. Os rebeldes do grupo Tigres do Tamil foram colocados na função de retirar corpos em decomposição. Munidos de luvas de borracha cor-de-rosa e máscaras, eles buscam em lagoas e áreas inundadas corpos de vítimas e os retiram de prédios destruídos e espaços abertos. Às vezes eles buscam corpos sob a água usando apenas os pés descaços. O problema é retirá-los das águas, pois eles se desfazem, explica Johnny, um dos integrantes da equipe que faz este trabalho. "É doloroso", diz Johnny, acrescentando que é difícil expressar seus sentimentos sobre o enorme número de cadáveres que ele recolheu na última semana. À beira das áreas inundadas há várias piras funerárias - os corpos são cremados rapidamente. Só pelos primeiros dois dias foi possível alguma identificação. Estes combatentes transformados em coveiros recebem diariamente injeções de antibióticos para protegê-los de infecções. Os Tigres isolaram todas as áreas afetadas - recusando-se a deixar o público entrar antes que eles tenham removido os cadáveres em decomposição das águas. Eles esperam que isto impeça uma temida epidemia de cólera e diarréia. "Durante a guerra nós lidamos com tantas operações militares", disse Johnson, um paramédico do grupo Tigres do Tamil. "Mas esta catástrofe é muito diferente." O que aborreceu estes guerrilheiros endurecidos pela batalha foi a visão de tantas mulheres e crianças mortas. Johnson disse que os sobreviventes estão profundamente traumatizados porque eles testemunharam a morte de seus entes queridos com seus próprios olhos. "Muitas mães que seguravam os filhos não puderam salvá-los, e os filhos pediam ajuda", disse ele, acrescentando que isto é muito pior do que qualquer coisa que eles viveram durante os combates com as forças do governo. |
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