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Dicotomias do governo Karzai serão postas à prova | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, conseguiu o que queria: um mandato eleito pelo povo. Mas ele sabe que a legitimidade da sua Presidência depende igualmente, se não mais ainda, do que vai acontecer daqui para a frente. Os afegãos também votaram por uma mudança. Em uma entrevista dada em Cabul, antes das eleições, Karzai reconheceu essas expectativas. A vitória, disse, daria a ele o poder de criar um governo "muito diferente" do que ele mesmo realizou como presidente interino, nos últimos três anos. O homem escolhido para o cargo em 2001, através do Acordo de Bonn, parece agora mais confiante e menos vulnerável. 'Participação nacional' Karzai precisava da eleição para fortalecer seu poder político, mas sua margem de vitória – com 55,4% dos votos – foi menor do que seus simpatizantes esperavam. Ele, que é da etnia patã, dominou a eleição no sul do Afeganistão, onde fica a sua tribo de origem, além de obter algum apoio em outras regiões e nas principais cidades do país. Mas seus rivais receberam muitos votos da população de outras etnias. A eleição apenas reforçou essa enorme e delicada divisão. Agora, o mais novo bordão de Karzai é "participação nacional". Mas o presidente e seus assessores insistem em que não estão obrigados a dar cargos para os candidatos derrotados, como o influente militar Abdul Rashid Dostum, que venceu nas regiões de etnias uzbeque e turcomena, ou Mohammed Mohaqiq, que conseguiu mais votos entre os hazarás. "Vamos pedir para que eles indiquem os melhores representantes de suas comunidades", disse um ministro do gabinete de Karzai antes das eleições. Os assessores do presidente admitem que há uma necessidade de se trazer essas pessoas para a esfera do poder, mas lembram que também precisam trazer afegãos capazes de administrar ministérios. Karzai sabe que muitos afegãos esperam menos militares no comando. Mas deixou claro que não vai eliminá-los completamente. "Há partes podres e partes boas", disse ele, em uma entrevista. Essa dicotomia logo será colocada à prova. Também vai haver discussões polêmicas sobre quais dos representantes "moderados" da milícia Talebã poderão ter permissão para voltar a Cabul. Narcotráfico Outra mensagem clara surgiu das conversas na capital que especulam sobre o novo gabinete. Ele terá que dar sinais precisos de que o Afeganistão está combatendo o problema do narcotráfico no país. Livrar-se dos caciques da produção de drogas tanto no gabinete nacional como nos governos provinciais será uma tarefa difícil, para não dizer perigosa. Serviços de inteligência internacionais dizem haver provas de que todas as camadas da sociedade afegã estão envolvidas nesse negócio altamente lucrativo, que fez do Afeganistão o maior produtor de papoulas de ópio do mundo. Karzai prometeu "lutar até o fim" nessa frente de batalha. O próximo passo seria levar para trás das grades pelo menos um dos grandes caciques do narcotráfico. Ou algum acusado de corrupção, que também é um dos crescentes problemas do país. Comunidade internacional O presidente também terá de tomar decisões difíceis em relação às pessoas recentemente acusadas de crimes de guerra e que ainda ocupam posições influentes no poder. Karzai conseguiu enquadrar figuras importantes, como o ministro da Defesa, o general Mohammed Fahim, e o ex-governador de Herat, Ismail Khan, o que aumentou sua confiança. Para um presidente cujo Exército ainda está sendo treinado, movimentos tão arriscados só foram possíveis com o apoio da comunidade internacional. Quando Karzai foi pressionado a não ter o general Fahim em sua chapa, o Pentágono deu um claro sinal de desaprovação, enquanto o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, interveio com um telefonema. Observadores afegãos e diplomatas acreditam que, no passado, Karzai sempre fez concessões – um resultado de um temperamento que prefere conciliação do que confronto. Ele advertiu que a grande mudança vai levar tempo, mas prometeu uma equipe "que vai deixar os afegãos felizes". |
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