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Atualizado às: 17 de novembro, 2004 - 01h57 GMT (22h57 Brasília)
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Potencial do comércio Brasil/Ásia divide analistas

O presidente da China, Hu Jintao, com o presidente Lula
A China prometeu investir US$ 10 bilhões em infra-estrutura no Brasil
Entusiastas da atual tendência de maior interação comercial dos brasileiros com os países da Ásia – evidenciada pelas recentes visitas dos presidentes da China, Coréia do Sul e do Vietnã ao Brasil – acreditam que, em dez anos, a Ásia pode se tornar o segundo maior parceiro comercial do país.

O Itamaraty defende o "comércio sul-sul", entre os países em desenvolvimento, como uma alternativa complementar ao comércio com as grandes potências como Estados Unidos e União Européia, que em 2003 responderam respectivamente por 23,12% (US$ 16,9 bilhões) e 25,26% (US$ 18,4 bilhões) das exportações brasileiras.

Além disso, a aproximação com a Ásia, em especial com a China, tem sido apresentada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como uma das prioridades de seu governo.

No entanto, há quem ache que o potencial de comércio entre Brasil e Ásia está sendo superestimado e que o Brasil pode até sair prejudicado.

Matéria-prima

O vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China, Carlos Augusto Meinberg, faz parte do grupo de otimistas em relação ao potencial do comércio brasileiro com o continente.

"Deveremos evoluir lentamente (para produtos de valor agregado). Mas, neste primeiro momento, temos uma fronteira agrícola a expandir e tecnologia e capacidade instalada. Podemos produzir com facilidade e eles são compradores naturais", diz Meinberg.

Por outro lado, o professor de relações internacionais Lytton Guimarães, coordenador do núcleo de estudos asiáticos da Universidade de Brasília, é um dos que vê a estratégia brasileira com reservas.

 Mesmo se forem cumpridas as metas divulgadas, os valores do comércio Brasil-Ásia dificilmente ultrapassariam Estados Unidos e Europa.
Lytton Guimarães, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília

“A tendência, se houver a aprovação da Alca (Área de Livre Comércio das Américas) e o acordo (de livre comércio) com a União Européia, é aumentar o comércio" com essas regiões, avalia Guimarães.

"O Brasil não tem muito a oferecer à China, e também à Coréia, além de commodities. Há perigo de o Brasil se tornar fornecedor de matéria-prima e importador de produtos de maior valor agregado, relação que pode trazer prejuízos para o país", alerta.

A percepção do país como fornecedor de produtos básicos é reforçada nas palavras de empresários chineses.

"Para manter o ritmo de crescimento econômico, que durante anos chegou a 9%, a China cria uma enorme demanda por ferro e aço, e vê no Brasil um grande fornecedor de matéria-prima", afirma o empresário He Jianzeng, presidente da China Minmetals Corporation, líder no mercado de mineração e siderurgia da China.

"Com o passar dos anos, o comércio de matéria-prima pode abrir espaço para produtos brasileiros de maior valor agregado."

Preocupação

Apesar desse crescimento sem precedentes, a expansão econômica da China não se traduziu em aumento relativo das exportações brasileiras para a Ásia.

Em 1993, o Brasil exportou US$ 7,9 bilhões aos Estados Unidos (20,72% do total das exportações naquele ano), US$ 10,4 bilhões para a União Européia (27,15%) e US$ 6,1 bilhões para a Ásia (15,85%).

Dez anos depois, a divisão das exportações brasileiras por regiões se manteve praticamente estável: 15,98% (US$ 11,6 bilhões) para a Ásia, 23,12% (US$ 16,9 bilhões) para os Estados Unidos e 25,26% para a União Européia.

"O Brasil tem esse otimismo exagerado quando se trata das relações com a China, mas os chineses jogam duro e têm cacife para isso", adverte o professor Lytton Guimarães.

 Não vamos cochilar, vamos estar bem atentos e antenados à essa relação com a China.
Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp)

A aproximação com a China também tira o sono dos empresários, principalmente após o Brasil ter anunciado que reconhece oficialmente a China como uma economia de mercado, reduzindo as margens de manobra para que o Brasil restrinja a entrada de produtos chineses com preços abaixo dos praticados pelo mercado.

"Não somos contra um estreitamento de relações com a China, mas os setores mais ameaçados são os de mão-de-obra intensiva, como calçadista, eletroeletrônicos, confecção, brinquedos. Os chineses têm interesse em comprar matéria-prima e vender manufaturados, que são os setores que empregam intensivamente", avalia o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf.

Em troca do reconhecimento da China como economia de mercado, o Brasil recebeu a promessa de investimentos em infra-estrutura - US$ 10 bilhões nos próximos dois anos, segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan - e de abertura da China para as carnes bovina e de aves do Brasil.

Os dois países também assinaram acordos de extradição, cooperação no combate ao crime internacional, cooperação em tecnologias espaciais com fins pacíficos e exploração conjunta de serviços de satélite.

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