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Bush e Kerry disputam 7 milhões de votos latinos | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O governo americano identificou no ano passado 40 milhões de latinos - termo usado pelos americanos para designar genericamente os latinos-americanos - nos Estados Unidos, fazendo com que este grupo superasse pela primeira vez os negros (ou afro-americanos, como se diz hoje em dia) como maior minoria do país. O número pode ser na verdade bem maior porque há muitos ilegais nas sombras. Pelo menos 4 mil pessoas por dia cruzam irregularmente a fronteira com o México, mesmo com a cerca de metal de 5 metros de altura que se estende pelos quase 3 mil km de fronteira e o grande reforço na vigilância iniciado depois dos ataques de 11 de setembro de 2001. Mas o que está em destaque agora é um número bem conhecido e que enche os olhos de democratas e republicanos: há cerca de 7 milhões de latinos habilitados a votar nestas eleições. Em quatro dos Estados onde o resultado das eleições ainda é incerto - Arizona, Flórida, Nevada e Novo México - há 1,4 milhão de eleitores latinos, número mais do que suficiente para fazer a diferença em uma eleição disputada como a de 2004. Tradicionalmente estes eleitores são mais simpáticos às políticas sociais do Partido Democrata - com a notável exceção dos cubanos de Miami, ardorosos defensores das posições mais fortemente anti-Fidel Castro dos republicanos - mas analistas advertem que, à medida que os interesses destes imigrantes ganham peso e complexidade, a fidelidade partidária diminui. Trabalho No Estado do Arizona o Partido Democrata espera contar com a ajuda dos latinos para reverter a apertada vitória - por menos de 4% dos votos - do presidente Bush sobre Al Gore, em 2000. Embora diferentes pesquisas eleitorais feitas no Arizona mostrem resultados variados para a população em geral - de um empate a uma leve dianteira republicana - todas apontam para um grande vantagem de Kerry entre os eleitores latinos. Carmen Reies é uma mexicana de 28 anos que emigrou para os Estados Unidos com a família quando tinha 16 anos de idade. Hoje é cidadã americana, tem registro eleitoral e vai votar em John Kerry nas eleições de 2 de novembro. "Kerry está mais preocupado em dar trabalho para as pessoas. Ele vai cuidar melhor dos imigrantes", disse ela. A economia é uma das grande preocupações destes imigrantes, que costumam mudar de país exatamente fugindo de condições econômicas mais desfavoráveis - ou mesmo da pobreza, em muitos casos - e em busca de trabalho. Quando encontrei Carmen Reies ela havia montado uma mesa na cidade de Tempe, no Arizona - onde acontecia naquela noite o último debate da campanha eleitoral americana - para vender cartazes de propaganda dos candidatos presidenciais. Por US$ 3 (R$ 8,50), o cliente podia escolher se saia com um cartaz azul e o nome "Kerry" ou com um cartaz vermelho escrito "Bush". "Gostar eu não gosto (de vender cartazes do presidente Bush, sendo eleitora de Kerry), mas é o meu trabalho. Tem que vender", justificou, com uma risada. Registro Durante estes últimos meses, tanto os democratas quanto os republicanos iniciaram um esforço concentrado para registrar novos eleitores. Os imigrantes estavam entre os eleitores colocados no centro deste esforço. Muitos deles, no entanto, mesmo já tendo alcançado o direito à cidadania (depois de cinco anos de moradia legal), não se interessaram em obtê-la e, por isso, não podem votar. A brasileira Graciete dos Santos mora nos Estados Unidos há mais de 30 anos e há dez já poderia ter requisitado a cidania americana. "Nunca fiz porque nunca precisei. Votar não me interessa muito e eu prefiro ficar neutra. Nem no Brasil eu gosto de política", disse ela. Mas, apesar de se dizer desinteressada, Graciete mostra uma opinião firme quando questionada a respeito de quem votaria este ano, se tivesse o registro de eleitora aqui. "Em Kerry, naturalmente. Kerry é que está mais preocupado com os imigrantes e com os coitados dos ilegais, que carregam este país nas costas." "Bush, além de ter afundado a gente nesta guerra (do Iraque) quer mais é mandar todos os estrangeiros embora." Bush O marido de Graciete, Pierre dos Santos, também é brasileiro, já tem cidadania americana e este ano vai votar em Bush. "Eu ainda estou tentando convencê-lo, mas não tem jeito: ele gosta do Bush. Ele acha que, depois de 11 de setembro, Bush tinha mesmo que ir para a guerra e correr atrás do prejuízo", disse ela. Um mexicano que está há dez anos nos Estados Unidos e recentemente conseguiu seu passaporte americano disse que vai votar no presidente Bush para que "ele possa terminar o que começou no Iraque". "Tem que ser o Bush. Ele já está lá e agora tem de ir até o fim", comentou Norival Jalisco, que mora na cidade de Nogales, bem na fronteira entre o México e os Estados Unidos. Analistas dizem que os republicanos têm mais chances de ganhar votos entre estes imigrantes mais recentes - de primeira-geração - do que entre as famílias de latino americanos já estabelecidas no país há mais tempo. Isso não significa, no entanto, que os conservadores tenham abandonado os imigrantes mais antigos. Os republicanos calculam que a moral dos latino-americanos - percebidos pelos estrategistas do partido como uma população religiosa e admiradora do trabalho duro – vai atrair simpatias para as posições sociais conservadoras do presidente Bush. Plano E no início deste ano, o governo Bush também lançou propostas de um plano para os imigrantes que foi visto pelos analistas como tendo dois objetivos: atender às necessidades da economia americana, que cada vez mais depende destes trabalhadores, e ao mesmo tempo agradar às comunidades estrangeiras neste ano eleitoral. Os impactos do projeto ainda são incertos, mas organizações de imigrantes acusam o governo de estar propondo um sistema de vistos temporários de trabalho que vão atender às necessidades dos empregadores, sem incluírem a possibilidade de uma legalização permanente para o trabalhador. Os conservadores costumam classificar qualquer proposta de legalização permanente de uma anistia, uma idéia explosiva entre muitos eleitores e da qual Bush costuma demarcar distância clara. "Estou propondo diversas medidas que vão melhorar a vida dos imigrantes, mas não aceito falar em anisia, como meu adversário (John Kerry). Há muitos estrangeiros que estão neste país aguardando pacientemente a legalização e seria errado recompensar com uma anistia aqueles que estão fora da lei", disse o presidente no debate realizado na semana passada. O senador John Kerry não usou a palavra "anistia" mas, ao comentar a resposta de Bush no debate, confirmou que acredita ser necessário "algum tipo de sistema em que o imigrante possa vislumbrar uma legalização definitiva". |
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