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Supremacia do vinho argentino causa protestos no Brasil | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Os vinhos argentinos se tornaram os importados mais vendidos no Brasil pela primeira vez, tendo superado os chilenos, tradicionais líderes do mercado, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. As vendas de vinhos argentinos para o Brasil somaram US$ 2,386 milhões em junho, pouco mais que os US$ 2,358 milhões em importações vindas do outro lado dos Andes. Os produtores argentinos comemoram e ressaltam que o Brasil já é o terceiro maior destino de vinhos produzidos no país, atrás apenas dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha. "A Argentina trabalhou firmemente o posicionamento do seu vinho no mercado brasileiro nos últimos cinco anos e melhorou sua distribuição", afirma José Alberto Zuccardi, presidente da Unión Vitivinícola Argentina (UVA), entidade que representa os produtores de uva e vinho no país. Qualidade 'duvidosa' "Isso foi acompanhado por um processo de melhora da qualidade, que, acredito, está sendo apreciada pelos brasileiros", diz Zuccardi, destacando as semelhanças culturais entre os povos dos dois maiores países do Mercosul. Mas, no Brasil, a indústria do vinho reclama que não consegue competir em igualdade de condições e que a "invasão" dos vinhos argentinos se dá em cima de produtos extremamente baratos e de qualidade "duvidosa". "Os vinhos brasileiros têm tido um preço médio maior do que o preço médio dos argentinos. Agora, não sei como os argentinos conseguem colocar uma garrafa em supermercados de São Paulo a R$ 3,50. Não sei qual é o 'milagre' por trás disso", reclama Danilo Cavagni, presidente da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra). "Isso também não colabora (para a imagem dos bons vinhos argentinos). Daqui a pouco, o consumidor brasileiro vai chegar à conclusão de que possivelmente está sendo enganado", avalia Cavagni. Entre as desvantagens competitivas que teria o produtor brasileiro, o presidente da Uvibra destaca os juros superiores a 20% ao ano, contra 7% a 8% no Uruguai e na Argentina, incidência de imposto de importação e IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para equipamentos, a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira), que é cobrada nas várias etapas do processo produtivo, além de custos trabalhistas maiores. "Aqui o trabalhador tem 30 dias de férias mais um terço do salário, na Argentina são 20 dias de férias por ano", exemplifica o representante dos vitivinicultores. Restrições Cavagni pede que os países do Mercosul entrem em acordo para nivelar as condições de produção, para que os vinicultores brasileiros possam competir em pé de igualdade com os argentinos. Apesar de não pedir a imposição de tarifas para os vinhos argentinos, decisão vista como um retrocesso por Cavagni, ele sugere a criação de mecanismos para proteger a indústria nacional, como a imposição de um piso mínimo de preço para a entrada de vinho no Brasil, ou até mesmo o estabelecimento de cotas de importação para produtos de baixo preço. A tese de que o crescimento do vinho argentino no mercado nacional se deve à entrada de vinhos de baixa qualidade é apenas "parte da verdade", segundo Otávio Lilla, diretor de Marketing da Mistral, uma das maiores importadoras do produto no Brasil e especializada em vinhos sul-americanos. "A Argentina sempre teve um grande consumo interno de vinhos, mas eram vinhos mais rústicos. De algumas décadas para cá, alguns produtores começaram a fazer vinhos de qualidade excelente. Hoje os vinhos argentinos ganham espaço internacional e são uma verdadeira febre na Inglaterra, por exemplo", diz Lilla. "O consumo de vinho argentino de qualidade cresceu muito no mundo todo, mas, no caso específico do Brasil, existe também uma inundação de vinhos argentinos de baixo preço e baixa qualidade. Mesmo assim, o crescimento aqui também acontece na faixa mais alta", afirma. Segundo Lilla, há alguns anos, o vinho chileno Montes Alpha Cabernet Sauvignon era o líder absoluto de vendas da importadora. Hoje, ele divide o posto com o similar argentino Catena Cabernet Sauvignon, que é vendido a aproximadamente R$ 70, contra R$ 78 do concorrente chileno. Apesar do resultado positivo para os argentinos em junho, o Brasil importou mais vinho chileno (US$ 7,75 milhões) no total do primeiro semestre, crescimento de 50% em relação ao mesmo período de 2003. Os vinhos argentinos vêm numa tendência de crescimento ainda mais acelerada. No primeiro semestre de 2003, os argentinos ocupavam a terceira posição entre os importados, atrás também dos portugueses, com US$ 2,5 milhões. Em relação ao mesmo período do ano anterior, os vinhos argentinos cresceram 160%, somando US$ 6,5 milhões em exportações para o Brasil. Segundo estimativas da Uvibra, em 2003, os produtos estrangeiros dominaram 54% do mercado brasileiro. Em 2002, brasileiros e importados dividiam o mercado com 50% cada. O consumo per capita, no entanto, se manteve em aproximadamente 1,7 litro por ano, contra 36 litros na Argentina e 16 litros na Grã-Bretanha. |
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