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Mulher pobre é maior vítima do tráfico de pessoas no Brasil, diz relatório | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Mulher, solteira, de 18 a 20 anos, e com baixa escolaridade. Esse é o perfil mais comum das vítimas do tráfico de seres humanos no Brasil, segundo um relatório conjunto do Governo Federal e do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC, sigla em inglês). O relatório é um primeiro passo para mostrar a gravidade do problema. Segundo o UNODC, o tráfico internacional de mulheres e crianças movimenta de US$ 7 bilhões a US$ 9 bilhões (de R$ 21,9 bilhões a R$ 28,2 bilhões) anualmente, perdendo apenas para os tráficos de drogas e de armas. O perfil foi traçado por meio de um detalhado estudo de 22 processos judiciais e 14 inquéritos nos Estados de Goiás, Ceará, Rio de Janeiro e São Paulo. O representante regional do UNODC para o Brasil e Cone Sul, Giovanni Quaglia, reconhece que os dados ainda são pouco abrangentes, mas ressalta que é um importante primeiro passo. Segundo estimativas do governo americano, que elabora dados mundiais sobre o tema, cerca de 800 a 900 pessoas são traficadas do Brasil para o exterior anualmente. Campanha Ceará e Goiás foram escolhidos porque são dois Estados com grande número de aliciamentos de pessoas, enquanto Rio de Janeiro e São Paulo são importantes rotas do tráfico, que se utiliza dos aeroportos internacionais de Galeão e Guarulhos. Dando início a uma campanha nacional para combater o problema, o Ministério da Justiça deu início a um projeto de capacitação de operadores de direito (policiais federais, policiais rodoviários federais, promotores, juízes e defensores públicos) e outros funcionários públicos que lidam com o assunto. De acordo com o ministério, o treinamento já começou em São Paulo, deve ser levado para Ceará, Goiás e Rio de Janeiro ainda neste ano e estendido a outros Estados posteriormente. Além disso, o governo planeja lançar até o fim do ano uma campanha publicitária para conscientizar a população da gravidade do problema. “Muitas pessoas nem imaginam que isso possa acontecer. É um assunto que não é discutido”, diz Cláudia Chagas, secretária nacional de Segurança no Ministério da Justiça. No relatório, o UNODC mostra que a rede internacional de tráfico está presente nos mais diversos países. Geralmente os desenvolvidos participam como “consumidores” dessa mão-de-obra forçada, aliciada em países em desenvolvimento e subdesenvolvidos. “Muitas vezes vemos que traficantes de drogas e de outras áreas também se interessam pelo tráfico de pessoas, mas não é uma regra”, afirma Giovanni Quaglia. Exílio forçado Uma vez no exterior, as mulheres aliciadas para a prostituição se encontram com poucas opções. “Eles conseguem isolar as vítimas e desvincular-nas de suas origens”, diz a secretária de Segurança Nacional. “As vítimas são levadas para um ambiente estranho, onde não conhecem ninguém, muitas vezes não falam a língua local, são ameaçadas e, por isso, sentem medo e acabam não denunciando”, completa Quaglia. Por causa desse tipo de situação, o Ministério da Justiça está trabalhando junto com o Ministério das Relações Exteriores para que os consulados sejam preparados para prestar o atendimento adequado a essas vítimas. Mas, apesar das dificuldades, algumas dessas vítimas conseguem retornar ao Brasil. “Às vezes elas conseguem contatar a família, pedir ajuda, mas muitas delas fogem mesmo”, afirma Cláudia Chagas. “No entanto, infelizmente, algumas delas acabam sendo mortas.” Fuga Acostumada a trabalhar com vítimas do tráfico de pessoas, a advogada Dalila Figueiredo, presidente da Associação Brasileira de Defesa da Mulher, Infância e Juventude, diz que a situação é dramática. “Todas as entrevistas que fazemos, mostram que essa vivência é ‘carcerária’, que tem a ver com a entrega e a retenção do passaporte. Além disso, elas acabam se endividando para adquirir remédios e bens pessoais básicos”, afirma Dalila Figueiredo. Ela diz que já trabalhou em casos de sucesso como o de uma brasileira levada para a Itália por um homem que prometia se casar com ela, mas antes teria que apresenta-la à família.
“Quando chegou lá, ela acabou sendo forçada a se prostituir.Ela tinha muito medo, mas acabou conseguindo pedir ajuda, voltou ao Brasil, mudou de Estado com toda a família e hoje está casada e tem dois filhos”, conta a advogada. No entanto, outros exemplos mostram toda a dificuldade de recuperação das vítimas. “Tivemos o caso de uma vítima que ficou dois anos na Espanha, era ameaçada, vivia praticamente em cárcere privado e os aliciadores diziam que sabiam onde estava a sua família. Em um esforço do governo brasileiro, ela foi trazida de volta e nós a recebemos em São Paulo, inserindo-a em um programa social”, relata Dalila Figueiredo. “A mãe acompanhou todos os passos, mas, Lamentavelmente, essa vítima ficou uma semana nesse programa e, além de ela fugir do local, levou mais uma vítima consigo. Depois disso, ligamos para os parentes, mas não conseguimos encontrar ninguém nos telefones que constavam em nossos registros.” “Não sabemos o que aconteceu, mas deduzimos que ela tenha se tornado uma aliciadora, como acontece com grande parte das vítimas", diz. Na quinta-feira, em uma das iniciativas do Governo Federal, em parceria com o Estado de São Paulo para combater o problema, será inaugurado em São Paulo o primeiro Escritório de Prevenção e Combate ao Tráfico de Pessoas. |
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