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Atualizado às: 19 de outubro, 2005 - 15h43 GMT (12h43 Brasília)
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Com Saddam Hussein no tribunal, é o julgamento sobre julgamento

No anos 80 Saddam Hussein era visto como aliado do ocidente
No anos 80 Saddam Hussein era visto como aliado do ocidente
Como a invasão em si do Iraque em março de 2003, o governo americano esperava que a captura e o julgamento de Saddam Hussein se transformassem rapidamente no triunfo de uma nova ordem.

O veredicto é fulminante: os obstáculos foram imensamente subestimados. Nada acontece a toque de caixa no Iraque e os caminhos são tortuosos.

Como se previa, após os procedimentos iniciais nesta quarta-feira, o juiz acatou a solicitação da defesa de Saddam Hussein e suspendeu os trabalhos, que serão retomados em 28 de novembro para que haja mais tempo para a avaliação do material da acusação de que o ex-presidente teria ordenado o massacre de 143 pessoas na cidade xiita de Dujail, em represália a uma tentativa de assassinato dele, em 1982.

É apenas a primeira peça de uma pilha de acusações, entre elas de crimes de genocídio.

Nenhuma dúvida que se tratou de uma cena histórica. Lá estava um homem que se considerava um semi-Deus dentro de um "cercadinho" no tribunal. Há pouco mais de dois anos e meio, Saddam Hussein era a lei no Iraque.

Para o governo Bush esta cena em si, no "cercadinho", é educacional e reconfortante. Seria a prova que os sacrifícios compensam.

Acertando as contas

O Iraque está acertando as contas com seu negro passado e ditadores são julgados e pagam por seus crimes.

Percepção sempre foi vital neste processo educacional. Para o governo Bush, o julgamento deve ser visto no Iraque, no Oriente Médio e no mundo como justo e não como uma farsa imposta pelos vitoriosos.

Mas é evidente que o ato judicial é um espetáculo político, encenado por diversos atores.

O julgamento de Saddam ocorre em um Iraque que já recuperou sua soberania, mas Saddam e seus advogados, como era de esperar, fazem o que podem para denunciá-lo como um show ilegítimo orquestrado pelos americanos.

A idéia é transferir o foco do julgamento para a ocupação e mesmo apontar a cumplicidade de Washington nos supostos crimes de Saddam, que nos anos 80 era tratado como um aliado de conveniência de países ocidentais.

É até possível que o secretário de Defesa Donald Rumsfeld seja convocado para testemunhar. Há uma foto dele, sorridente, apertando a mão de Saddam em 1983, quando esteve em Bagdá como enviado especial da Casa Branca de Ronald Reagan.

Mas hoje o poder no Iraque é controlado pelos xiitas, secundados pelos curdos. Foram justamente os setores que mais sofreram sob o jugo de Saddam e da minoria sunita, o que levou o jornal New York Times, no seu editorial da quarta-feira, a considerar o julgamento basicamente como uma "vendeta política" das vítimas contra os opressores.

Há, obviamente, interpretações diferentes. No seu editorial, o Wall Street Journal conclui que um dos "maiores assassinos da história está finalmente enfrentando justiça, em outro sinal de progresso no Iraque livre".

Como se vê, está em curso o julgamento sobre o julgamento.

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