|
Análise: Transição antecipada é um golpe de propaganda | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A inesperada antecipação da transferência de soberania no Iraque foi, para o novo governo interino do Iraque e a coalizão que deixa o país, um raro golpe de propaganda - mas a vantagem provavelmente vai durar pouco pois os problemas no país continuam. O governo interino vinha pedindo ao administrador americano Paul Bremer há algum tempo que antecipasse a data o máximo possível. O ministro do Exterior do Iraque, Hoshyar Zebari, disse nesta segunda-feira: "Nós estamos prontos." Alguma mente brilhante deve ter percebido que a conjugação da reunião da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na Turquia com a entrega de poder daria aos Estados Unidos e à Grã-Bretanha uma oportunidade para controlar as manchetes do dia. A passagem de soberania agora domina a reunião, desviando a atenção das divisões que marcaram a reunião do G8 há três semanas e que ameaçavam este encontro, mesmo com demonstrações públicas de união por parte dos líderes mundiais. Ela também permitiu ao presidente americano, George W. Bush, e ao primeiro-ministro britânico, Tony Blair, apresentarem o argumento a seus aliados mais próximos de que um dia os iraquianos se autogovernariam. Os Estados Unidos sempre se apoiaram nesses aliados quando outras justificativas para a guerra falharam. Há ainda outro benefício na iniciativa. A antecipação repentina da data poderia atrapalhar possíveis planos de insurgentes para marcarem eles mesmos o dia 30 de junho (data programada originalmente para a passagem de soberania) com mais violência. Como a segurança do Estado e das ruas é um dos problemas mais urgentes a serem enfrentados pelo novo governo, a antecipação pelo menos representa um estímulo ao seu moral já no início de sua gestão. Mas os golpes de propaganda tendem a não durar a menos que tenham bases concretas. E as bases concretas no Iraque são, no mínimo, frágeis. Para começar, este é apenas um governo interino, nomeado, e com poderes limitados. As eleições só devem se realizar em janeiro, e mesmo então haverá apenas um governo "de transição" que terá que formular uma Constituição antes da realização de eleições plenas no final do ano que vem. Então a legitimidade democrática ainda está um tanto distante, e isso torna mais difícil para este governo arrebanhar apoio entre o povo iraquiano. Segurança Ainda mais, com mais de cem civis mortos por semana, o poder do governo de impor sua vontade nas ruas é muito limitado. O número de integrantes de suas próprias forças de segurança - cerca de 200 mil -impressiona. Seu desempenho causa menor impacto. O governo tem, então, que se apoiar em soldados estrangeiros - principalmente americanos - e isso, por sua vez, alimenta a insurreição. Além disso, uma conseqüência da violência é que a reconstrução do país tem sido lenta. Embora muito tenha sido feito, ainda há muito mais por fazer. Isso pode ser visto, por exemplo, no fracasso em se melhorar o fornecimento de energia. Dados da coalizão indicam que a capacidade média gerada em maio era de 4.144 megawatts, bem abaixo dos 6.000 megawatts planejados para a data da passagem de soberania. Sabotagem e ameaças a trabalhadores estrangeiros são fatores óbvios. Até que essas questões possam ser resolvidas, a reconstrução do Iraque não vai gerar uma quantidade suficiente de boas notícias para contrapor as más notícias. Nem vai levar à criação de empregos suficientes. A reconstrução foi apresentada como uma das principais conseqüências da ocupação americana, com a destinação de US$ 18 bilhões para a infraestrutura do país em verba aprovada pelo Congresso dos Estados Unidos. Esperança No lado positivo para o governo interino está a esperança de que uma vez que os iraquianos sintam que estão dirigindo seu próprio país, vão rejeitar a violência que acarreta seu próprio sofrimento. É nisso que americanos e britânicos se apóiam agora. Não têm muito mais do que isso para se apoiar. Jeremy Greenstock, ex-alto representante britânico na Autoridade da Coalizão, disse à BBC: "Eventualmente a sociedade iraquiana vai rejeitar violência gratuita tão categoricamente que ela não poderá continuar. O fim do período de ocupação é um passo importante, porque a violência será, então, direcionada contra os iraquianos." "E o novo governo interino, claro, não é um fantoche dos americanos. Eu vejo o povo iraquiano dando a seus novos líderes o benefício da dúvida desde que eles possam proporcionar uma administração competente. No final, o resultado depende da capacidade dos iraquianos de atravessar esta etapa ruim e sobreviver a ela." |
| |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||