|
Portugal dificulta estabelecimento de recém-chegados | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
É sexta-feira à noite na Casa do Brasil de Lisboa, a única associação de brasileiros em Portugal. Três músicos vão tocando um pouco de forró, samba, pagode. Cerca de 60 pessoas acompanham a música, na sala apertada. Rola cerveja, caipirinha, pão de queijo, enquanto alguns casais dançam. Ao mesmo tempo, à beira do rio Tejo, no Armazém F, uma moderna casa noturna que se especializou em música brasileira, há mais de 200 brasileiros ouvindo música romântica típica do interior. Sexta e sábado são as noites de folga dos brasileiros da mais recente onda de imigrantes, a maior parte deles trabalhando no comércio. Os número oficiais apontam para um total de 75.000 brasileiros legalizados ou em processo de legalização no país. Segundo as autoridades consulares brasileiras, todos os dias chegam mais brasileiros, sem condições de obter os papéis para poder permanecer no país sem medo de uma blitz do temido Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. “Quem chegou depois de 11 de julho, não consegue nada. A porta está fechada”, afirma José Carlos Câmara, vice-presidente da Casa do Brasil. Ele se refere à data do acordo entre os dois países, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo primeiro-ministro português, José Manuel Durão Barroso, que permite a legalização de todos os brasileiros que estavam no país até aquela data e contribuíram para a seguridade social. Trabalho Para quem chegou depois, o único documento fácil de conseguir é o número de contribuinte – equivalente ao CPF brasileiro – que é passado na hora. Com ele, consegue-se abrir uma conta bancária e enviar dinheiro para o Brasil, o objetivo da maior parte das pessoas da onda mais recente de imigração. Mas para ficar legalmente no país como imigrante, é necessário que o brasileiro peça visto no Brasil tendo já o contrato de trabalho em Portugal acertado. Segundo Câmara, o fato de não estarem legalizados não prejudica a obtenção de trabalho. “Estamos recebendo aqui na Casa do Brasil telefonemas de patrões portugueses que pedem brasileiros sem a legalização. Aí, além de poderem dar um salário menor do que para os legalizados, não precisam dar contrato nem pagar a Seguridade Social.” A bolsa de empregos da associação chega a receber telefonemas com anúncio de lugares até no Algarve – cerca de 250 quilômetros ao sul de Lisboa – e dos Açores, no meio do Atlântico, onde existe uma situação de pleno emprego. Com a crise econômica que o país enfrenta e o fim das grandes obras para a Eurocopa, em junho, a principal atividade dos brasileiros em Portugal é no comércio e em restaurantes. Em todos os shoppings da cidade, quase todas as lojas têm brasileiros atrás do balcão. José Carlos Câmara conta que já está gerando animosidade o fato de os proprietários das lojas preferirem os brasileiros: “Há uma razão para a preferência, que é a formação. Pela pesquisa que nós fizemos, o imigrante brasileiro em Portugal tem 11 anos de escolaridade, enquanto o português que trabalha em loja tem em média sete anos de escolaridade”. Ele se refere a uma pesquisa feita com o apoio do Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas que fez um retrato do brasileiro que chegou nos últimos três anos a Portugal. Choque cultural Em Portugal procuram recriar o ambiente em que viviam no Brasil. “A maior parte deles nem tem consciência de onde estão. A grande massa é de pobres das regiões ricas do país, como o interior de Minas Gerais, São Paulo, Goiás e Espírito Santo, que tem dinheiro para comprar a passagem. Vem juntar dinheiro para comprar uma casa ou começar um negócio, com o objetivo de voltar em dois ou três anos”, conta o jornalista pernambucano Duda Guennes, há 29 anos em Portugal. No meio do Bairro Alto, um dos centros da vida noturna portuguesa, o bar Oka parece um autêntico boteco brasileiro, com música brasileira, paredes esverdeadas e camisas dos clubes brasileiros de futebol na parede, além de fotos antigas do Flamengo e do Vasco perto da porta. A grande diferença é que para entrar no bar, que não tem mais do que 20 metros quadrados, é necessário tocar a campainha, como nos bares portugueses. É o único local em Portugal que vende pastéis "de feira". “Durante a semana, só aparecem portugueses, mas no sábado a casa é 90% de brasileiros”, conta o brasileiro Carlos Cardinal, um dos sócios do Oka. “A diferença é que enquanto o português bebe caipirinha ou uísque e pede um pastel, o brasileiro bebe cerveja e cachaça e pede cinco pastéis”. Diferenças Para José Carlos Câmara, existem diferenças entre os brasileiros da atual onda de imigração e os que vieram há cerca de 16 anos, com a crise gerada após a eleição de Fernando Collor de Melo. Enquanto os da atual onda são do interior, os que chegaram em 1988 eram das grandes cidades, com formação superior, com origem na classe média alta. “Normalmente, os da primeira onda vivem entre portugueses, mais de 80% das pessoas com quem convivem não são brasileiros. Estão completamente de costas voltadas para a comunidade. Eles são os que mais rejeitam os atuais imigrantes, falam mal dos brasileiros e dizem que os outros não deviam ter saído do país”, diz José Carlos, que é engenheiro e está há 22 anos em Portugal. |
| |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||