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Obesidade Zero | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O governo de Tony Blair parece cercado como uma cidade iraquiana acusada de insurgência. Os correios vêm trabalhando mal, o povão desconfia das portas abertas aos exilados, há a celeuma do procedimento dúbio de soldados britânicos no Iraque, a nomeação de gente do peito para postos importantes e por aí afora. São coisas de mandato longo, e a sabedoria popular diz que um bom governo não deve ficar mais que uns cinco anos no poder. Diz também a sabedoria popular, que, por sinal, tem a mania de falar demais, que o governo não deve se meter muito com ela, a sabedoria popular. A sabedoria popular é meio burra, como tudo que é popular. Até alguns anos, quando cheguei aqui, os britânicos, vulgarmente conhecidos como “os ingleses” por nós, eram magros. Depois, com a informática, a televisão a cabo e a influência cada vez maior de tudo quanto é americano na vida do país, deram todos para engordar. Engordar furiosamente. Conforme berram os jornais de todos os tipos e feitios, os em “ão”, como em “jornalão”, e os em “óide”, como em “tablóide”. Lá estão as manchetes: “Estamos todos obesos”, “Muita obesidade e pouca ação”, “Salvemos nossos filhos”. Cada jornal tem sua linha e seu batalhão de médicos peritos em saúde e nutrição. Todos são unânimes em sugerir – mais: ordenar – que o governo aja imediatamente no sentido de encontrar jeitos e maneiras de convencer o Zé Povão, o Joe Big Public, a comer menos e mais racionalmente e fazer mais exercício. Os insuportáveis grupos de pressão vivem falando em motivar os empregadores no sentido de que estes motivem seus empregados a comer melhor e a se exercitar mais. Motivar como? Ameaçando com cadeia? Multando ou descontando do ordenado? Incentivos fiscais? Já ouvi falar até em imposto sobre gordura. Juro. Cada grupo uma pressão. Como aqui, com ou sem problema, o negócio é formar uma associação, a dos consumidores já entrou na polêmica. Uma porta-voz denunciou o governo e beirou o jogo de palavras (outra mania local) quando o acusou de “magro em sugestões e iniciativas”. Tudo isso para se chegar à óbvia conclusão: empanturrar-se e engordar é uma maneira super-desenvolvida de se lidar com o insidioso excesso de comida – ou seja, o antônimo, o contrário perfeito do Fome Zero. |
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