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Atualizado às: 07 de maio, 2004 - 10h50 GMT (07h50 Brasília)
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Aquele gosto de saudade
Ivan Lessa
Proust estava por fora.

Eu sempre quis começar uma crônica com essa frase. Vou repeti-la, já que tanto prazer me causa: Proust estava por fora.

Você pode molhar mil biscoitinhos no chá, você pode molhar o pão com manteiga na média que o passado não vem – à boca, à mente.

Nada trará o passado ou sua sombra de volta. Pode-se tentar, numa tentativa de driblar nosso querido Proust, apelar para todos os sentidos – paladar, olfato, tato, audição e visão -, valendo, inclusive, o sexto, que o passado passou e estamos conversados.

Ele lá e nós cá, tentando nos acostumar a essa história, que é a única maneira de se suportar o tempo que anda fazendo (maio, 13 graus, chuva todo dia). Presente é isso.

O passado, no entanto, é um prato feito para se encher linguiça no papo com os amigos na mesa do bar – e, nesse ponto sem vírgula, acabei de me preterizar, levando vocês comigo, em sutil acumulada: o jogo de palavras do “prato feito” acrescido de “linguiça”, tendo, ao fundo, na vitrola, Elizeth Cardozo cantando Tudo é Magnífico, de Haroldo Barbosa e Luiz Reis.

O passado pode ser magnífico, pode ser tudo que se quiser, embora seja mão única e nada, absolutamente nada, o trará de volta, nem mesmo a máquina do tempo do professor Papanatas, para quem se lembra das histórias em quadrinhos do Brucutu.

Brucutu, Ula, professor Bomba. Continuo tentando seduzir quem me ouve ou lê com o passado, que para isso ele serve. Danado de sedutor, o passado. Toda sua graça, no entanto, é ter acabado, deixado de existir, ficado para lá e para trás.

O passado tem a mais longa e a mais breve das vidas. Um exemplo de vida breve: eu mal me lembro de como comecei este papo todo. Um exemplo de vida longa: eu me lembro como se fosse hoje do Rio de 1804. O passado é tremenda enganação. E problema e solução para se sair da cama e enfrentar a rua.

Todas essas considerações pretensiosas vêm a propósito do mês brasileiro que uma vasta loja de departamentos, a Selfridges, está promovendo. Tem Elza Soares, exposição de Portinari, discussão de livro brasileiro, concerto com música de Carlos Gomes e, principalmente, 18 baianas cozinhando vatapá, acarajé e outras graças do Dorival Caymmi.

Comprei um saco de biscoito de polvilho, que chamávamos de “mentira carioca” na minha época, outro de amendoim japonês e um quindim. Provei, achei razoável e não aconteceu mais nada. Ficou nisso. Um quarto de século fora do Brasil e isso é isso.

Digo e repito: Proust estava por fora.

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