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Infiltração é chave para conter Al-Qaeda, diz diretor do King's College | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O diretor do Instituto de Política Internacional, do King´s College, em Londres, Michael Clarke, diz que falar em guerra ao terror é um equívoco, porque não se pode pensar em chegar a uma vitória. O objetivo é controlar danos extremos, mas entender que não haverá interrupção completa nos atentados, diz ele em entrevista à BBC Brasil. Uma rede terrorista como a Al-Qaeda, segundo Clarke, funciona num esquema que lembra a franquia usada no mundo comercial, com representantes locais agindo com autonomia, respeitando apenas os princípios recomendados pela matriz, no caso, Osama Bin Laden. Por isso mesmo, diz, eliminar os cabeças não acaba com os movimentos nas bases. Clarke propõe que governos adotem medidas de prevenção e que concentrem esforços em se infiltrar nos movimentos terroristas, para desarmá-los por dentro. BBC Brasil - Depois dos ataques terroristas em Madri, há uma ansiedade na Europa, temendo-se ações semelhantes em outras capitais européias. O que os governos podem fazer para combater ameaças desse tipo? Michael Clarke - Do ponto de vista estratégico, a melhor maneira para os governos combaterem os terroristas é criminalizá-los. Tornar claro que os terroristas não são melhores que criminosos comuns. E divorciá-los de suas bases potenciais de apoio. BBC Brasil - Sim, mas o que fazer para evitar ataques de terroristas já instalados em cada país? Clarke - Para lidar com grupos terroristas muito perigosos, há duas estratégias importantes. Uma é proteger o público. Cidades modernas são essencialmente lugares abertos e economias modernas permitem que as pessoas se desloquem livremente. Há muita mobilidade física e social. A não ser que fechemos as cidades, e nesse caso seria uma vitória dos terroristas, não há muito o que fazer sobre isso. Mas podemos tomar medidas sensatas para proteger aeroportos e estações de trem ou metrô. Mais importante do que isso, é que só é possível se livrar de grupos terroristas infiltrando-se neles com bons serviços de espionagem. BBC Brasil - Isso é mais fácil falar do que fazer, não? Clarke - De fato, infiltrar grupos terroristas, em primeiro lugar, leva muito tempo. Você precisa ter gente dentro do grupo, seu próprio pessoal, e pode levar anos até que consigam entrar no grupo. Também precisa juntar o máximo de informação que for possível sobre organizações criminosas, porque esses grupos em geral interagem com gangues de criminosos, não permanentemente, mas a intervalos freqüentes. É possível conseguir muita informação entendendo os padrões do crime de um determinado país. Então, a melhor maneira é conseguir entrar nos grupos. BBC Brasil - Como o governo britânico fez com o IRA (o Exército Republicano Irlandês)? Clarke - É um bom exemplo. O governo britânico entrou mesmo no IRA nos anos 70 e criou muitos problemas para eles, que tiveram que diminuir o nível das operações no final dos anos 70. O governo espanhol também se infiltrou no ETA (movimento guerrilheiro basco) nos últimos cinco ou seis anos, com relativo sucesso. Muitas agências européias se infiltraram nas Brigadas Vermelhas (da Itália), no Baader- Meinhof (alemão). Conseguiram se infiltrar, mas não foi depressa. Levou vários anos. E os resultados só apareceram depois de cinco anos. Primeiro, é preciso proteger a sociedade. Depois, esperar que seu trabalho de espionagem comece a gerar frutos. E esses são de fato os únicos métodos confiáveis de combater terroristas. BBC Brasil - O senhor se refere a grupos que atuam nacionalmente, mas como se infiltrar em organizações que operam mundialmente, como a Al-Qaeda? Clarke - Um dos problemas que enfrentamos é que a maior parte do que sabemos sobre combate ao terrorismo deriva de casos nacionais. A questão interessante agora é verificar se é possível fazer a mesma coisa em nível internacional. É possível se proteger em nível internacional? É possível penetrar nesses grupos internacionais? É possível afastar esses grupos das fontes de seus seguidores potenciais, sendo capaz de falar sobre os temas importantes para os que estão em desvantagem no mundo? Ninguém tem certeza se é possível fazer isso. A idéia de uma coordenação internacional do terrorismo representa de fato uma ameaça maior e mais ampla à sociedade internacional do que qualquer terrorismo de base nacional jamais fez. Porque os terroristas nacionais sempre demandaram coisas que não estavam fora de possibilidade. Grupos separatistas querem independência. Isso pode ser alcançado. Querem mais autonomia, querem que seus seguidores sejam libertados, podem não ter certeza de que vão conseguir isso, mas não está fora da possibilidade. No caso da Al Qaeda, o que querem é nada menos do que a revolução mundial, algo com que o mundo nunca vai concordar. BBC Brasil - A expressão guerra ao terrorismo virou quase que um mantra. O senhor acha que ela descreve o que deve ser feito? Clarke - Acho um erro básico chamar esta campanha atual contra o terror de guerra, porque guerras têm começo, meio e fim. E terminam com a vitória de um dos lados. Ou algum tipo de acordo. Esta guerra ao terrorismo é como uma guerra contra a pobreza, ou contra as drogas, ou contra o crime. Só o que é possível fazer com o terrorismo é reprimí-lo a níveis toleráveis, da mesma forma como se faz com o crime, as drogas, a pobreza, ou doenças que podem ser prevenidas. Não é possível se livrar do fenômeno completamente. Esta é uma campanha contra o terrorismo internacional, não uma guerra, porque uma guerra evoca certas atitudes psicológicas, que, honestamente, não são muito saudáveis. BBC Brasil - Vimos recentemente o assassinato do xeque Yassin, chefe do grupo palestino Hamas, pelo governo de Israel. Ao mesmo tempo, forças americanas tentam eliminar Osama Bin Laden. O senhor acredita que matar os líderes pode afetar substancialmente os grupos? Ou pode na verdade provocar exatamente o contrário? Ou seja, um aumento das atrocidades terroristas? Clarke - Acho que matar líderes terroristas pode produzir resultados a longo prazo. Mas a curto e médio prazos, o movimento tende a se tornar mais feroz por causa da morte dos líderes, além do quê, mortos de forma ilegítima. Um dos problemas com a política de assassinatos é que não só é ilegal, e não há precendentes na legislação internacional, até os EUA há alguns anos afirmaram que nunca fariam isso, mas começaram a fazer. Mas também é uma bobagem, porque cria mais ressentimentos do que acaba com eles. Além de ser um tiro no próprio pé, é ilegal, uma péssima combinação. BBC Brasil - É ilegal matar esses líderes? BBC Brasil - Numa guerra declarada pode haver alguma justificativa em tentar assassinar um líder estrangeiro. Mas quando Estados fazem guerra contra quem realiza campanhas contra eles, como na intifada no caso do conflito árabe-israelense ou no caso de guerra contra o terror, do ponto de vista dos Estados Unidos, embarcar num processo de assassinatos é como quando a polícia assassina as pessoas em vez de levá-las a julgamento. E em todos os Estados onde isso aconteceu, como na Argentina nos anos 70, os resultados foram desastrosos. O Estado tem que se comportar de forma legítima. É disso que se trata a guerra contra o terror, da luta do legítimo contra o ilegítimo. E se o legítimo, o Estado, começa a se comportar como o terrorista, basicamente já perdeu a guerra. |
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