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Depoimento de ex-assessor complica campanha de Bush | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Não tem sido uma boa semana para o presidente George W. Bush. Nenhuma propaganda de sua campanha de reeleição destacando seu papel de guardião da segurança nacional é capaz de neutralizar o espetáculo dos depoimentos públicos diante na comissão bipartidária que examina os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 e o que foi feito (e não feito) para impedi-los. Funcionários-chave do governo republicano de Bush e do seu predecessor democrata Bill Clinton se sucederam diante dos comissários republicanos e democratas para justificar que fizeram tudo o que era possível para conter a ameaça terrorista. Mas nada se comparou ao impacto do testemunho na quarta-feira de Richard Clarke, que até dias atrás era um desconhecido para a opinião pública. No livro que acaba de lançar (Against All Enemies), em sucessivas entrevistas aos principais programas de televisão e na sua aparição diante da comissão criada pelo Congresso, Clarke bateu em uma tecla: o governo Bush minimizou as advertências sobre o perigo da rede Al-Qaeda antes do 11 de Setembro e depois, obcecado com a invasão do Iraque, perdeu o foco da luta contra o principal inimigo, o terror. Mais do que isto, ele denuncia que a guerra inflamou grupos terroristas islâmicos em várias partes do mundo. Basta ver o exemplo recente de Madri em 11 de março. Mudança de contexto Há pontos razoáveis nas justificativas do alto escalão do atual governo, algumas compartilhadas pela equipe de Clinton. Um raciocínio comum nos testemunhos é que havia escasso apoio interno e internacional para uma ação militar em larga escala contra o Talebã ou Al-Qaeda antes do 11 de setembro. De fato, o contexto mudou muito desde então. Já Clarke não se exime de responsabilidade. E nem poderia. Ele era o coordenador antiterrorismo nos governos Bush e Clinton. Traballhou também nas administrações de Reagan e de George Bush, o pai do atual presidente. Antes de começar seu depoimento na quarta-feira, Clarke disse que ele falhou. Pediu desculpas e o perdão dos familiares das vítimas do 11 de setembro. Insistiu, porém, que a culpa maior foi dos seus superiores nesta Casa Branca, que não o escutaram com a devida atenção. Para ele, o presidente Bush carecia de um senso de urgência sobre a ameaça terrorista antes dos atentados de 2001, em contraste ao senso de prioridade conferido pelo governo Clinton. Campanha "furiosa" Por décadas Clarke esteve combatendo gente como Muammar Kadafi e Osama Bin Laden. Agora ele combate um poderoso inimigo doméstico. A Casa Branca lançou uma campanha furiosa para desacreditá-lo, alegando que ele não passa de um ex-funcionário público ressentido, é autopromocional e agora serve aos interesses eleitorais de John Kerry, o candidato democrata à presidência. E, num contra-ataque perturbador, o vice-presidente Richard Cheney disse que Clarke estava "fora do circuito" das informações e decisões sobre questões de terrorismo. Que circuito? A inquietação e a fúria da Casa Branca são justificáveis. Segurança nacional é o grande cabo eleitoral de Bush e, no entanto, ultimamente não parece ter a força política que o presidente necessita. Uma percepção da opinião pública de que este governo foi negligente ou incompetente na tarefa de contra-terror trará grande dano político. O calendário da comissão bipartidária não ajuda muito. Suas conclusões finais serão divulgadas no final de julho, durante a convenção democrata que irá consagrar o candidato John Kerry e quando a campanha eleitoral estiver prestes a engatar. As conclusões preliminares não poupam os governos Clinton e Bush, apontando as oportunidades perdidas para pegar ou matar Osama Bin Laden ou debilitar a rede Al-Qaeda. É pouco consolo para Bush. É ele, e não Clinton, que está concorrendo à reeleição. |
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