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Caio Blinder: O general e o tenente
Na distante pré-história das prévias eleitorais democratas, ou seja, uma semana atrás, o cenário que se delineava era o de uma corrida fulminante em que na reta final estariam Howard Dean e apenas mais um oponente. Os registros pré-históricos mostram que o general da reserva Wesley Clark seria o provável rival do ex-governador de Vermont na disputa para escolher o desafiante do presidente republicano George W. Bush em novembro. O cenário em formação foi simplesmente desmontado pelos resultados no Estado de Iowa e agora, antes das primárias de terça-feira em New Hampshire, surgem os contornos de um quadro mais complexo. Nele se inserem os grandes vencedores de Iowa (os senadores John Kerry e John Edwards) para uma corrida que promete ser mais longa, imprevisível e ainda com a participação do debilitado Dean e do não testado Wesley Clark. Cálculos Um outro concorrente, o senador Joe Lieberman, diz que a corrida está escancaradamente aberta. O prognóstico, no entanto, não vale para ele. Na pré-história das prévias, o cálculo estratégico do general Clark era ele como uma alternativa segura e serena a Bush e não o tempestuoso e temperamental Dean. Clark apostava em uma boa colocação em New Hampshire para impulsioná-lo em uma rodada frenética de sete primárias em 2 de fevereiro, em Estados do Sul, de perfil mais conservador e de tradições militares que favoreceriam o ex-general do sulista Arkansas. Clark, num movimento tático, ignorou Iowa. Durante duas semanas, ele ocupou sozinho o campo de batalha de New Hampshire, enquanto o resto da tropa de pré-candidatos brigava em Iowa. Agora, os sobreviventes de Iowa também estão ocupando suas posições em New Hampshire e existe uma competição intensa entre Clark e Kerry. Uma semana é uma eternidade. Dias atrás, quando reinava em New Hamsphire, Clark estava até cortejando a ala mais pacifista do Partido Democrata, mais até do que Dean. Ele entrou em um comício em uma escola ao som de In the Name of Love, da banda de rock irlandesa U2. Mas Clark está agora travando uma guerra intensa contra Kerry. O drama é que os dois são militares veteranos, feridos em combate no Vietnã e, ao longo da campanha, têm alardeado legitimidade para lidar com crises de segurança nacional. Em contraste, Bush se ajeitou comodamente na Guarda Nacional no Texas na época da guerra. É irônico como as prioridades democratas mudaram. Nas eleições presidenciais de 1972, o consultor político Mark Shields aconselhou a campanha do democrata George McGovern - adversário de Richard Nixon - a destacar seu heroísmo como piloto de bombardeio na Segunda Guerra Mundial. A sugestão foi rejeitada com medo de ofender a base do partido mobilizada contra a guerra do Vietnã, como era o caso do próprio candidato. Ele foi derrotado fragorosamente por Nixon. Agora em 2004, o veterano McGovern está endossando o nome de Clark. Portanto, Clark e Kerry têm histórias de heroísmo para contar, e isto é muito bom para os democratas de hoje. Diante do avanço do outro herói, Clark foi até meio covarde e lembrou que ele ganhou as estrelas de general, enquanto Kerry foi um mero tenente. Para Clark, é vital que Kerry não seja o grande vencedor em New Hampshire. E o tenente está a galope. A contenção de Kerry talvez seja mais importante para Clark do que outro passo ascendente do sulista Edwards - que com sua mensagem otimista pode fazer bonito no sul em fevereiro - ou a recuperação do recruta Dean. Neste incerto e perigoso campo de batalha de New Hampshire, Clark tem todos os motivos para estar nervoso. Afinal é o seu batismo de fogo eleitoral. |
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