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Atualizado às: 16 de dezembro, 2003 - 22h39 GMT (20h39 Brasília)
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Julgamento de Saddam pode colocar ocidente em situação constrangedora

Vítimas do ataque com gas a Halabja
Vítimas do ataque com gas a Halabja

Um julgamento de Saddam Hussein pode, primeiramente, mostrar as provas de seus crimes. Mas, o líder deposto pode também usar este canal para lembrar ao mundo que ele já teve apoio fora do Iraque – na ex-União Soviética, nos países do Golfo e nos países ocidentais.

O senso egocêntrico de história de Saddam Hussein, centrado em torno da imagem de si mesmo liderando o mundo árabe como Saladino liderou os muçulmanos durante as Cruzadas, poderia levá-lo a representar um papel para o mundo árabe.

O julgamento pode se transformar em algo que vai além do relato de genocídios, invasões, assassinatos e massacres cometidos por Saddam Hussein, apesar desses assuntos provavelmente dominem a pauta.

No processo ele poderia levantar a questão que países ocidentais que se opuseram a ele já forneceram apoio técnico, militar e até diplomático ao Iraque.

Dois nomes poderiam ser citados – o presidente francês Jacques Chirac e o secretário de Defesa americano Donald Rumsfeld.

Mas, é importante lembrar também que um dos principais fornecedores de Saddam Hussein era a União Soviética, de quem ele recebeu o melhor equipamento – caças Mig 29s, tanques, artilharia e mísseis Scud.

O papel da França

Quando era primeiro-ministro, em 1974, Jacques Chirac, foi a Bagdá para se reunir com Saddam Hussein, que já estava no poder, mas ainda não ocupava a Presidência.

No ano seguinte, Hussein foi à França e Chirac o levou para visitar uma usina nuclear e eles negociaram a venda de dois reatores nucleares franceses para o Iraque. Um deles foi destruído por um ataque aéreo israelense em 1981.

A França também concordou em fornecer caças 133 caças Mirage e, durante os anos 80, 40% das armas que a França exportava iam para o Iraque.

Jacques Chirac já afirmou que, na época, muitos países ocidentais apoiavam o Iraque em sua guerra contra o Irã, pois o país era visto como ''progressista''.

Estados Unidos, Grã-Bretanha, Alemanha Ocidental, Itália, entre outros, também forneceram equipamento, conhecimento e financiamento. Os países do Golfo e até mesmo Kuwait, temendo o Irã, também forneceram dinheiro.

Diplomacia americana

O papel americano seria mais importante em termos diplomáticos.

No início da década de 80 o ''bicho-papão'' dos Estados Unidos era o Ayatollah Khomeini, que assumiu o poder depois da revolução islâmica no Irã em 1979.

Com isso, os americanos se viraram para o Iraque.

O Iraque havia invadido em Irã em 1980. Em 1983 sabia-se, inclusive nos Estados Unidos, que o Iraque tinha usado armas químicas para parar estes ataques.

Mesmo assim, o então presidente Ronald Reagan determinou o apoio ao Iraque e enviou a Bagdá Donald Rumsfeld, que na época presidia uma companhia farmacêutica, levando uma carta pessoal para Saddam Hussein.

Minutas da reunião entre eles em dezembro de 1983 foram anotadas por um diplomata e divulgadas.

Segundo essas minutas Rumsfeld e Saddam Hussein falaram sobre a necessidade de parar a ''expansão iraniana e síria'', além de parar as exportações de petróleo do Irã.

Não há menção de Rumsfeld ter tocado no assunto de armas químicas, mas ele mesmo o admitiu em uma entrevista à rede de televisão CNN em 2002.

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