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Análise: Democracia à la Putin
Nas declarações protocolares sobre as eleições parlamentares russas do domingo, o porta-voz da Casa Branca Scott McClellan repetiu a linha de apoio aos “contínuos esforços” na construção de instituições democráticas no país. A linha mais sintomática da declaração, porém, foi a expressão de preocupação com a falta de isenção no processo eleitoral. A Casa Branca assim se juntou ao coro liderado pelos observadores da Organização para Segurança e Cooperação na Europa sobre as manchas em uma eleição que deu a vitória aos partidários do presidente Vladirmir Putin, fortaleceu grupos ultranacionalistas e enfraqueceu comunistas e liberais. O processo eleitoral em si e mais esta vitória de Putin são passos na consolidação daquilo que é definido como uma “democracia administrada”. Corrupção e controle A Rússia pós-comunismo tem 23 partidos, campanhas furiosas, muita corrupção e um controle do Kremlin sobre grande parte da imprensa. Tem também oligarcas que enriquecerem barbaramente e ex-agentes da KGB (como Putin) competindo entre si pela respeitabilidade. Como enfatizou o New York Times em editorial sobre as eleições parlamentares, os russos ainda não chegaram à democracia nos moldes ocidentais, mas pelo menos a urna funciona como um árbitro. É um sistema que, apesar das preocupações da Casa Branca, foi endossado pelos americanos. Putin é criatura e forjador deste sistema, mas parte de sua consolidação no poder se deve às afinidades com Washington. Não custa lembrar que Putin é um dos amigos do peito de George W. Bush, que faz vista grossa ao excesso de zelo russo em crises como a Chechênia em nome de parceria na chamada guerra contra o terror. É uma parceria que tem sobrevivido a obstáculos de monta como divergências no Iraque e os planos americanos de uma defesa antimísseis. Os americanos vislumbram os russos como futuros fornecedores de muito petróleo e gás e assumindo um papel crucial em buracos quentes da diplomacia mundial como Coréia do Norte, Irã e Asia Central. Outra prioridade é manter o arsenal nuclear e bioquímico de Moscou em mãos seguras. Amizade Não é à toa que Putin é tão bem tratado por Bush. O presidente russo foi até hoje o único dirigente estrangeiro convidado para estar nos três centros de poder do presidente americano: a Casa Branca, Camp David e o rancho do Texas. Nem Tony Blair. Curiosamente, o bloco Rússia Unida (pró-Putin) e os grupos nacionalistas capitalizaram na eleição de domingo os temas patrióticos de fortalecimento de uma orgulhosa Rússia pré-derrocada do muro de Berlim. Partidos afinados com o ideário liberal e as reformas econômicas dos anos 90 sofreram um golpe devastador. Como disse Vladimir Lukin, líder do bloco liberal Yabloko, “o vento na Rússia não está soprando na direção das forças democráticas”. Uma consequência das eleições de domingo será menos oposição ao empenho de Putin para enrijecer o controle estatal sobre a sociedade e a economia, além de uma postura mais agressiva em relação às ex-repúblicas soviéticas. E aqui está o paradoxo: Putin está à frente de um bloco majoritário sem uma clara agenda reformista, ao mesmo tempo em que tenta convencer americanos e europeus que é o homem de uma Rússia madura, em condições de deixar para trás a tumultuada transição pós-comunista que ficou conhecida como um capitalismo mafioso. É um cenário complicado, mas George W. Bush já deu mostras que tem desenvoltura para trabalhar com o seu amigo do peito Vladimir Putin. Resta saber por quanto tempo será possível para ambos trabalharem juntos. A reeleição de Bush em novembro próximo é incerta. A de Putin está praticamente assegurada em março graças ao imperfeito sistema democrático russo |
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