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Brasil precisa mudar de atitude, diz Amorim
O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, afirmou que parte dos brasileiros está acostumada com uma postura conformista do país no cenário internacional. Talvez por isso, diz ele, exista tanta preocupação sobre as mudanças implementadas pelo atual governo na área internacional e um temor sobre como os americanos podem reagir à visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Oriente Médio. "Tem gente que não está acostumada com uma atitude independente, tem medo de uma atitude independente", diz o ministro. A visita gerou algumas críticas no Brasil e em alguns órgãos de imprensa internacional. Segundo os críticos, o giro árabe poderia afetar negativamente as relações brasileiras com os Estados Unidos. Em entrevista à BBC Brasil em Beirute, no Líbano, onde está junto com o presidente visitando cinco nações árabes, Amorim afirmou que "infelizmente, há uma espécie de complexo de inferioridade no Brasil", pelo menos quando o assunto é política externa, que precisa ser superado. A seguir, os principais pontos da entrevista: BBC Brasil - Como o senhor define a política externa brasileira, é uma política de resultados? Celso Amorim - Eu não gosto de rótulos. É uma política que busca a diversificação de parcerias, como o presidente tem dito sempre, sem desprezar, ao contrário, procurando aprimorar nosso relacionamento com países desenvolvidos, mas também fazendo com que as nossas relações sejam mais diversificadas. Eu acho que isso é bom para o Brasil, que é bom para os outros países e, indiretamente, é bom até para o mundo, porque gera uma relação mais equilibrada, tanto na área econômica e comercial, principal foco desta viagem, quanto na área política. Estamos buscando uma relação equilibrada, com o envolvimento de todos os países, e eu acho que isso é uma coisa boa porque ajuda a encontrar soluções justas e que permitam um encaminhamento positivo, sobretudo no que diz respeito às questões ligadas ao desenvolvimento econômico e social. BBC Brasil - Existe uma grande discussão sobre a eficácia ou mesmo a adequação dessa estratégia para o Brasil… Celso Amorim - Mas é bom que haja um debate democrático. Acho que política externa no Brasil era pouco discutida. Hoje é mais discutida. Isso não é mau, é sinal de que o Lula está mexendo com algumas coisas. Claro que há coisas que são permanentes, como a nossa defesa da autodeterminação dos povos, do multilateralismo, de soluções pacíficas para os conflitos. Agora, esse esforço de fazer novas parcerias e ter contato com outros países em desenvolvimento, o presidente tem perseguido com empenho, e é natural que isso gere uma discussão onde antes havia uma espécie de… como eu diria… BBC Brasil – Marasmo? Celso Amorim - Maramo talvez seja demais, mas havia um certo conformismo. BBC Brasil - Por que o senhor acha que há a preocupação sobre como a política brasileira vai ser recebida pelos EUA? Celso Amorim - Eu acho que às vezes, infelizmente, há uma espécie de complexo de inferioridade no Brasil. Em negociações comerciais, quando os outros vêm com dificuldades, as pessoas dizem que isso é realismo. Quando nós apontamos dificuldades, as pessoas dizem que isso é obstrucionista. Essa é uma visão, a meu ver, que certas pessoas têm, que reflete uma visão de um país dependente. BBC Brasil - É uma visão equivocada? Celso Amorim - Eu acho que há muitas nuances nessas visões. Há os que criticam uns aspectos, outros criticam outros, outros elogiam também. Eu acho que a população como um todo compreende perfeitamente. Em todas as pesquisas que tenho visto – embora não goste muito de me guiar por pesquisas –a política internacional do governo Lula tem sido bem recebida. Então, acho que ela está refletindo o sentimento nacional. O novo sempre gera discussão, mas isso é bom. BBC Brasil - Faz sentido o Brasil buscar, do ponto de vista político, a posição que o governo está buscando hoje, afinal é um país sem recursos para distribuir, como os Estados Unidos, nem com poder militar muito grande. Celso Amorim - Essa é uma visão amesquinhada do Brasil. É claro que o Brasil tem que ter noção do que é possível e do que não é possível. Agora, obviamente também se você se colocar sempre numa postura de que você é inferior, de que você não pode, não consegue, você não fará nada. Agora, é verdade que você não consegue as coisas sozinho. Você tem que se unir com outros. É por isso que o governo tem feito uma política de articulação. A aliança estratégica com a Argentina, por exemplo, nunca esteve tão profunda, na minha opinião. Agora, ao mesmo tempo, com os países desenvolvidos, nós continuamos em conversações, em negociacões. Quando o presidente Lula esteve com o presidente Bush, a primeira colocação do presidente Bush – isso foi pouco depois da Guerra do Iraque – foi que nós temos nossas diferenças, mas temos que trabalhar em cima das nossas afinidades. E é isso que estamos fazendo. Nós estamos procurando soluções. Seria muito fácil buscar obstruções, mas estamos buscando soluções para as questões que são reais. Essa é uma atitude de independência. Agora, tem gente que não está acostumada com uma atitude independente, tem medo de uma atitude independente. |
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