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Brasil só defende seus interesses, diz embaixador
As relações entre o Brasil e os Estados Unidos, que juntos presidem as negociações para a implementação da Alca, tornaram-se tensas após a reunião preparatória na capital de Trinidad e Tobago, no início de outubro. Pela primeira vez, os negociadores americanos disseram que o Brasil estava “isolado” e “tentando bloquear” as negociações sobre a concretização do bloco. Mas o Brasil afirma que não vai ceder em pontos importantes. Em entevista à BBC Brasil, o embaixador do país nos Estados Unidos, Rubens Barbosa, negou que o Brasil estivesse criando problemas e disse que foram os americanos que mudaram as regras do jogo na última hora. Leia abaixo os principais trechos da entrevista. BBC Brasil - Como o Brasil interpreta a posição americana na Alca? Barbosa - Até 2002, a estratégia dos Estados Unidos era negociar uma área de livre comercio com todos os 34 países do hemisfério. Mas os americanos mudaram de posição e propuseram acordos bilaterais. Duas reivindicações nossas importantes, como a agricultura e a legislação antidumping, que afeta a questão do aço, não terão negociação a curto prazo porque nós sabemos das dificuldades na OMC, e possivelmente essas negociações não terminarão em 2005.
BBC Brasil - Negociadores americanos dizem que, mesmo resistindo à proposta dos Estados Unidos, Brasil e Argentina acabarão cedendo de uma maneira ou de outra. Qual é a sua opinião? Barbosa - Nós estamos negociando de boa fé, com atitude construtiva. Nós estamos defendendo o nosso interesse dentro das regras. O novo governo, quando chegou, poderia ter dito: não queremos negociar a Alca, não é do nosso interesse e acabou o jogo. Ao contrário, o presidente Lula disse que interessava ao Brasil continuar a negociar e procurar um resultado equilibrado. Quando ele se encontrou com o presidente Bush aqui em Washington, lá no comunicado final tem uma frase que diz que o Brasil e os Estados Unidos, como co-presidentes no processo, se empenharão em negociar uma Alca que seja bem-sucedida. Bem-sucedida significa que ela seja vantajosa para todos. BBC Brasil - Mas se isso não acontecer...? Barbosa - Todo o mundo, inclusive o governo americano, reconhece que é muito difícil hoje você manter o nível de ambição de dez anos atrás, porque mudaram as condições, as situações políticas, econômicas, e todo mundo acha que para concluir essas negociações em 2005 nós temos que ser pragmáticos, temos que ser realistas. Agora, é normal que os países coloquem posições maximalistas. Mas o Brasil está com uma posição muito segura. Eu acho que talvez ela precise ser melhor compreendida. Você pode divergir talvez na forma como a coisa está sendo apresentada, mas não pode deixar de reconhecer que a defesa do interesse nacional hoje indica uma posição em que a gente procure uma negociação equilibrada porque o Brasil é, dos países do continente, o que mais tem a ganhar e mais tem a perder nessas negociações.
BBC Brasil - E, na sua opinião, por que os Estados Unidos não fazem essas concessões? Barbosa - Porque, assim como no Brasil, aqui eles têm limitações políticas. O ano que vem é ano eleitoral, o Congresso tem um viés muito restritivo, muito protecionista. A maioria dos democratas e a maioria dos republicanos hoje são restritivos no que se refere ao comércio. Então às vezes fica fácil para muitos países dizerem que o Brasil está bloqueando, que o Brasil é isso, é aquilo, quando na realidade, as dificuldades são internas, nos próprios países... Aqui é uma democracia como no Brasil. Aqui a opinião pública está dividida, os empresários estão dividos, o Congresso está dividido. No Brasil também, não há unanimidade. No caso americano, o fato de eles não poderem transigir em nada, como foi o caso que ficou claro agora na reunião de Port of Spain em antidumping e subsídio, mostra que há limitações internas. É o caso da nossa posição. Há limitacoes internas no Congresso em termos de opinião pública que torna nossa posição como ela é. BBC Brasil - Analistas dizem que a Alca não é só agricultura. O que de fato o Brasil teria a perder caso aceitasse a proposta americana como ela está agora? Barbosa - Realmente, a Alca não é só agricultura. A Alca é indústria, é serviço, é um conjunto de regras. E, quando se discute Alca no Brasil, a maioria das pessoas se concentra nas oportunidades de abertura de mercado. Mas há também uma parte que é menos conhecida e não menos importante que é a questão das regras. As regras podem afetar a liberdade do governo de implementar políticas industriais, políticas tecnológicas, daí a cautela nossa para que essas negociações não impeçam essa liberdade do governo. Porque a proposta de alguns países na Alca é aprofundar as regras que existem na OMC, e isso nao é aceito. Certos países puderam aceitar. O Chile aceitou por exemplo regras que limitam muito sua política industrial. Mas o Chile é um país que é mais agrícola do que industrial, então ele abriu mão da autonomia na política industrial. Há regras que só existem para o Chile e não foram nem aceitas na OMC ainda. E isso é parte da estratégia do governo americano: de passar pra todos os países essas regras muito mais profundas que viriam afetar diretamente os interesses empresariais privados brasileiros. Essas regras mais profundas têm que ser negociadas em Genebra. E não através de negociações com países menores que não têm os interesses nossos e a partir daí também estendido a todos. BBC Brasil - Mas existe um impasse também na OMC. Neste caso qual seria a melhor saída? Barbosa - O Brasil não é responsável pelo impasse dentro da OMC. O Brasil é parte dos negociadores. Por isso nós ficamos contra a retirada daqueles dois itens vitais porque como estão difíceis as negociações com a OMC, se por acaso a proposta americana prevalecesse, você iria aprovar tudo. E as coisas que interessam à gente vão ficar para quando terminar a rodada multilateral. BBC Brasil - Então esta seria a estratégia americana na sua opinião para justificar a pressa em firmar a Alca até 2005? Barbosa - A estratégia americana é obter o máximo possível no âmbito hemisférico além das negociações no âmbito da OMC. E ceder o mínimo possível em assuntos que eles consideram que, aqui nos Estados Unidos, eles não têm concessão nem condição de ceder. |
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