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Papado de João Paulo 2º é contraditório, diz teólogo
O papado de João Paulo 2º, que completa 25 anos nesta quinta-feira, é marcado por posturas contraditórias dentro e fora da Igreja, na avaliação do teólogo Fernando Altemeyer Júnior, professor de Teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “Fora da Igreja ele foi uma personalidade de vanguarda, um gigante. Já dentro da Igreja, paradoxalmente, foi um homem conservador, que propôs a volta a uma grande disciplina, um centralismo forte e o cerceamento de muitos que pensavam de maneira mais liberal”, afirma Altemeyer. Como exemplos de vanguardismo, ele cita a atuação política do papa, que visitou dezenas de países e é considerado um dos responsáveis pelo fim da Guerra Fria, que dividiu e ameaçou o mundo pós-Segunda Guerra até o fim dos anos 80, e sua atuação em casos mais recentes, como a condenação à guerra do Iraque. Mas é o seu conservadorismo que é responsável pelas posturas mais polêmicas da Igreja - como a condenação ao uso do preservativos em relações sexuais, mesmo com o crescimento de casos de contaminação da Aids – e a crítica ao envolvimento da Igreja em questões sociais, como o pregado pela Teologia da Libertação. A Teologia da Libertação é uma corrente mais liberal da Igreja católica seguida por muitos padres na América Latina, especialmente do Brasil, a partir dos anos 60. “Esquizofrenia” Um exemplo da intolerância do papa, na opinão de Altemeyer, pôde ser vista no Brasil. O frei Leonardo Boff, por exemplo, foi punido duas vezes por sua atuação social, e acabou deixando a Igreja. Altemeyer, que já foi padre e é partidário da Teologia da Libertação, não acha, no entanto, que o conservadorismo do papa João Paulo 2º é levado ao pé da letra pelos padres ou fiéis brasileiros. E lembra que poucas mulheres seguem a orientação da Igreja em relação a planejamento familiar e ao uso de métodos naturais de contracepção. “Há uma certa esquizofrenia, sim”, afirma Altemeyer. “Os brasileiros aplaudem o discurso do Vaticano, mas dentro de casa o que se segue é outra coisa”, afirma. A mesma postura é adotada por muitos dos padres brasileiros. “Eles seguem a orientação do Vaticano de uma maneira geral, mas, quando se está na frente de um fiel, é preciso adequar a estrutura moral à realidade humana”, afirma Altemeyer. A postura da Igreja brasileira diante da Aids é um bom exemplo, na avaliação do téologo, que considera a orientação do Vaticano sobre o assunto “dúbia e equivocada”. Ao mesmo tempo em que o Vaticano condena o uso de preservativos e ignora a destruição que a epidemia de Aids está causando na África, alguns padres e movimentos de leigos religiosos são responsáveis por muitos trabalhos voluntários de assistência a doentes e trabalhos de conscientização e prevenção no país. “Na teoria, lá nos postos centrais, o discurso é conservador e até fora da realidade. Mas aqui na base, junto do portador, o discurso é de solidariedade e compreensão”, afirma. O teólogo não se arrisca a dizer, no entanto, se foi a postura mais conservadora adotada pelo Vaticano durante o papado de João Paulo 2º a responsável pela perda de seguidores da Igreja católica para outras igrejas. “Tem um pouco a ver com o conservadorismo da igreja em relação a questões sexuais, morais e de liturgia, mas não é só isso”, afirma. “O pentecostalismo é um fenômeno de 40 anos e é o maior fenômeno do cristianismo depois da reforma de Lutero”, diz Altemeyer. Nos seus 25 anos de papado, o papa João Paulo 2º esteve no Brasil três vezes: em 1980, em 1991 e 1997. Entre a primeira e a terceira visita do papa ao país, os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a proporção dos que se dizem católicos caiu de 89% da população para 76%. |
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