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Atualizado às: 02 de setembro, 2003 - 15h54 GMT (12h54 Brasília)
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Brasileiros invadem prédio e criam 'Cidade de Deus' em Londres

Jardim da casa que Flávio Carvalho divide com outros squatters
Flávio divide apartamento de três quartos com jardim, de graça

No nordeste de Londres, há um prédio com paredes descascadas e ar de abandonado que, invadido por algumas dezenas de pessoas, se tornou mais um squat – um prédio ocupado - da capital britânica.

Mas esse squat tem algo de especial: o apelido de Cidade de Deus e cerca de 50 brasileiros morando em mais da metade dos 40 apartamentos ocupados.

Dentro de cerca de um mês, os últimos moradores oficiais do Cidade de Deus devem ir embora, e o destino dos invasores é o despejo, para que o prédio seja demolido.

"Acho que o apelido vem da aparência meio largadona e do número de brasileiros morando aqui", opina Flávio Carvalho, o único dos diversos squatters – ou moradores de squats – que autorizou o uso de seu nome e sobrenome.

Violência

Outros moradores contam que cenas de violências – sem armas de fogo, no entanto – e a presença de drogas são outros aspectos do prédio que levam à comparação com a famosa favela carioca.

Tatuagem de gueixa e Nossa Senhora
Sinais do Brasil e de vida alternativa em Londres

Os moradores do Cidade de Deus admitem que moram em um prédio invadido.

"Mas invasão entre aspas, porque a lei permite isso", conta uma brasileira de Florianópolis que mora em um dos 40 apartamentos ocupados no edifício.

Aliás, ocupação é o termo que os squatters preferem usar para se referirem ao que fazem quando conversam com pessoas de fora, enquanto a palavra invasão é utilizada à vontade nas conversas mais íntimas.

Bem arrumado

"Nós estamos simplesmente usando o que ninguém está precisando agora. Nós até arrumamos as casas para morarmos e elas ficam muito melhor do que estavam antes", conta o paulista Fabão.

É verdade que a aparência dos apartamentos que estão dentro do Cidade de Deus não tem nada a ver com o jeito acabado do prédio no exterior.

As casas têm cortinas, sofás, televisões, aparelhos de som e muitas deixam pouco a dever aos imóveis alugados por muito dinheiro em Londres, uma das cidades mais caras do mundo, em especial no que diz respeito aos gastos com moradia.

Um apartamento de três quartos onde está o Cidade de Deus não sairia por menos de 1,2 mil libras (cerca de R$ 6 mil) por mês.

Economizar

"Vou morar dois meses aqui neste squat porque logo estou voltando para o Brasil e quero economizar o dinheiro do aluguel antes de ir embora", contou o músico Fernando.

Squat no nordeste de Londres
Squat apelidado de Cidade de Deus deve ser demolido em um mês

O músico faz o que se chama de busking no metrô de Londres: toca nos corredores à espera das moedas que os passageiros vão jogando no chapéu ou na capa aberta do violão.

"É muito variável o que eu ganho com isso: pode ir de nada a 50 libras (cerca de R$ 240) em um dia."

Flávio Carvalho conta que artistas de diversas áreas são uma parte importante da população do Cidade de Deus.

'Favela Chic'

"É por isso que chamamos também aqui de Favela Chic. Tem muita gente criativa e de boa cabeça neste lugar", conta.

Mas também há violência, como admitem alguns moradores, embora nem de longe esteja no nível das armas, mortes e tiroteios da Cidade de Deus original.

"O pessoal briga demais aqui. É polonês brigando com brasileiro, brasileiro brigando com espanhol, espanhol com italiano e assim vai", diz outro morador.

As drogas também circulam de maneira bastante livre pelos quatro andares do prédio – senão com o objetivo de tráfico, pelo menos para abastecer os moradores e os convidados das festas comuns no prédio.

"Se vejo alguma semelhaça com o filme Cidade de Deus? Além das drogas, não", diz rindo Phill, um filho de nigerianos que não conhecia o apelido de sua casa, mas descobriu bem rápido, só com a dica "cinema brasileiro".

Demolição

Mas o Cidade de Deus de Londres está prestes a acabar.

Dos cerca de 50 apartamentos do bloco, apenas dez ainda são ocupados pelos moradores oficiais – designados pela prefeitura e pagando aluguel subsidiado – enquanto outros 40 são invadidos.

Quando os ocupantes regulares terminarem de deixar o edifício – coisa que deve demorar mais um mês –, o prédio vai ser demolido.

E os brasileiros devem procurar outro lugar parecido para recriar esse enclave em plena capital britânica.

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