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Escola especial: opção de ensino ou segregação?
A existência das escolas especiais é motivo de muitas discussões acaloradas entre pais de pessoas que nasceram com a síndrome de Down e educadores. Há quem diga que as escolas especiais reforçam a segregação, enquanto os que são a favor de sua existência, alegam que os alunos têm mais atenção do professor que estaria maia alerta às dificuldades dos que têm algum comprometimento intelectual. Uma das principais escolas especiais do Rio de Janeiro, a Associação de Educação Especial Carolina Andrade Patrício, fica no Recreio dos Bandeirantes, zona leste da cidade. O prédio foi projetado pela arquiteta Helena Werneck, mãe da atriz Paula Werneck, de 15 anos e que tem a síndrome de Down. Risco Helena Werneck se envolveu na criação de uma escola especializada depois ter gostado de algumas escolas em São Paulo mas não ficou satisfeita com o que viu no Rio. "Há uns dez anos não havia uma escola que dava prazer em levar teu filho. Busquei apoio de instituições tradicionais e ninguém queria evoluir por que o que se fazia era só tomar conta do aluno. Queria arriscar, propor novas cobranças, novos desafios. E não admitia que a minha filha não tivesse isso", lembra Helena Werneck. "Acabei chegando a Carolina Patrício que dava uma orientação pedagógica Piaget. A família proprietária da escola foi a São Paulo conhecer o que se fazia por lá. A idéia era que ela entrasse com a pedagogia e a gente organizasse o espaço", diz Helena Werneck. A iniciativa mostrou ser um sucesso rapidamente. O que inicialmente tinha sido pensado para receber 24 alunos, logo reunia 40, 60 estudantes e o desafio passou a ser a luta por um terreno doado pela prefeitura para criar uma nova escola. Área valorizada "Depois que a gente conseguiu um pedaço de terra de quatro mil metros quadrados no Recreio, uma área das mais valorizadas no Rio, foi preciso nos organizar como pais. Assim, a Sociedade Síndrome de Down iniciou uma nova parceria, quebrando barreiras burocráticas, tratando diretamente com o governo que, em 10 meses, construiu a escola", diz Helena Werneck, presidente da Sociedade Síndrome de Down. A Escola Carolina Patrício - Educação Especial tem 84 alunos, de crianças a adultos de 47 anos, e que freqüentam desde o maternal até a quarta série, cumprindo o currículo mínimo do Ministério da Educação e Cultura. Teresa Cristina, coordenadora pedagógica da Escola Especial Carolina Patrício, diz que a escola especial deve ser vista como parte de um processo histórico e como conseqüência de 500 anos de segregação.
"As escolas especiais fazem parte de uma evolução e, assim, vamos aprendendo que segregar não é certo. No Brasil, houve várias tentativas de escola especial dentro da escola pública, e vimos que não havia estrutura alguma para isso. As classes especiais eram dadas a professores mais inexperientes, em início de carreira. Ou seja, também havia segregação, era apenas uma forma despistada. A experiência também foi benéfica pois se falou do assunto e certas coisas a gente só pode saber na prática mesmo", diz Teresa Cristina. Convivência natural A jornalista e escritora Claudia Werneck, fundadora da Ong Escola de Gente e defensora ferrenha da sociedade inclusiva, é contra a escola especial, mas reconhece a transparência de sua proposta. "A escola especial é muito honesta, ela admite que segrega, que atende a alguns tipos de condições humanas, e é muito clara nisso. Ela é muito mais honesta, nesta ótica, que as escolas regulares, que dão a entender que aceitam todos, mas escolhem muito que tipo de pessoas vai atender". "Democraticamente o pai vai ter o direito de colocar o filho dele onde desejar, mas pessoalmente acho que a gente só pode se desenvolver num ambiente que represente a diversidade da melhor forma possível", diz Claudia Werneck. Na Europa, a tendência também é de incluir estudantes com alguma deficiência nas escolas regulares mas lá também o processo é recente. Experiência belga Hughette Vandeput, mãe do ator belga Pascal Duquenne, vencedor do Prêmio de Melhor Ator em Cannes, em 1996, por sua atuação em O Oitavo Dia, lembra como foi a batalha de colocar seu filho, em 1977, numa escola de ensino regular.
"Eu era professora de jardim de infância e levava os meus dois filhos comigo para trabalhar. O Pascal era muito bem integrado e ficou no colégio até os seis anos. O professor já dizia que ele era o palhaço da turma, que fazia brincadeiras e pregava peças em todo o mundo. Mas ao chegar na época de ir para o primário, ele não foi aceito. Fui obrigada a achar uma escola especial. Foi a primeira vez que ele viu outra pessoa com síndrome de Down e ele se escondeu. Foi aí que entendi que a integração é fundamental mas é importante que eles convivam com outras pessoas que têm a síndrome, com alguém semelhante a eles. Não pode ser intregação a qualquer preço", diz Hughette Vandeput. Teresa Cristina, da Escola Especial Carolina Patrício, acha que é uma questão de tempo para que se torne natural a convivência entre alunos com e sem deficiência mental na sala de aula. "Já vimos que a mistura com alunos ditos normais é uma experiência maravilhosa para todos, não só para quem tem Down. É um processo vagaroso, mas acredito que a tendência é cada vez mais a de se misturar. A escola já está aberta para isso, mas o problema é as pessoas se aventurarem, é como se fosse a inclusão ao contrário", explica a coordenadora pedagógica da Escola Especial Carolina Patrício. Repensar "Já aconteceu de misturarmos crianças com Down com as outras ditas normais. Acho que é uma questão de tempo para que isso se torne natural", diz Teresa Cristina. A mistura de diferentes saberes faz parte da escola de sonhos da princesa Dona Stella de Orleans e Bragança, mãe de Maria Christina, que tem a síndrome de Down, e presidente da Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down. "Na escola inclusiva, o profesor é um intermediador, um agente de troca de informações. Os alunos têm os seus saberes, e quanto mais diversos forem os saberes dos alunos, mais enriquecedor será a aula. Você pode trabalhar os assuntos de uma forma coletiva. Mesmo um aluno que não tenha braços ou pernas poderá participar. Se ele não tiver capacidade intelectual, ele pode estar lá cortando, desenhando, mas junto do grupo", diz Dona Stella. Há 12 anos trabalhando com alunos que têm a síndrome de Down, a coordenadora pedagógica da Escola Especial, Teresa Cristina observa diferenças no processo educacional em relação ao que se exige atualmente dessas pessoas. Princípios "Vejo diferença inclusive entre nós, professores, e nos alunos. Estamos tentando repensar não só a escola especial como instituição mas a educação. O que é educar, o que é aprender a escrever a ler, a saber de todas as áreas de conhecimento, português, matemática? Isto nos faz pensar que não é preciso haver tanta separação", afirma Teresa Cristina. Teresa Cristina acredita que o debate é mais profundo do que unir ou separar pessoas com deficiência mental. Discute-se o próprio conceito da educação. "A nossa discussão é especificamente em torno dos princípios que permeiam a educação e que nos faz pensar sobre a questão da essência humana. Mas não é só a escola que tem que mudar, é o próprio cidadão que tem que mudar". "Não são as pessoas que nasceram com a síndrome de Down que têm que ser preparadas para serem recebidas na escola regular e sim a sociedade é que tem que se preparar para entender que a diferença existe e que a gente tem que viver com ela em paz, sem preconceitos", diz Teresa Cristina. Realidade A situação da educação no Brasil, porém, é levada em conta por Teresa Cristina. "No Brasil que temos hoje, com a realidade da educação, será que a escola que mistura todos realmente está atendendo aquele aluno que tem um processo de aprendizagem mais lento, ele está sendo atendido em sua diferença, em sua individualidade?", questiona a coordenadora pedagógica da Escola Carolina Patrício. |
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