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Análise: As bravas mulheres iraquianas

Mulheres iraquianas
Sair às ruas sem véu é arriscado

No concerto do pós-guerra, do Iraque pós-Saddam, o primeiro ato é o da banda formada só por mulheres, vinte e duas delas, de todas as idades, origens e religiões.

Vestidas com camisas brancas e saias pretas, algumas estão cobertas com véu, e outras não.

Elas formam a banda Ishtar, e é hora do primeiro concerto em público da vida delas.

A reação da audiência as pega de surpresa; elas nunca pensaram que seriam aplaudidas com tanto entusiasmo; e assim o foram, não apenas pela música, mas pela coragem.

Flauta

Nada Jassem é a flautista do grupo.

"Nós queríamos que o Iraque e o mundo soubessem que as mulheres iraquianas são educadas, talentosas, inteligentes e têm orgulho de si mesmas. Nós não somos um zero à esquerda, somos metade da sociedade iraquiana", disse ela.

"Arriscamos nossas vidas ensaiando para este concerto. Parentes homens nos levavam e traziam do salão de música. Se os islâmicos me virem andando nas ruas com minha flauta, podem me matar", afirmou Nada.

"Foi difícil, mas nós não vamos desistir. Ainda não sabemos o que o futuro guarda para nós, mas colocamos nossas vidas na mão de Deus", completa.

Apesar das dificuldades e da falta de segurança, as mulheres iraquianas certamente não estão desistindo.

Tem havido conferências organizadas por mulheres e novas organizações não-governamentais apareceram.

Na sede do Partido Comunista, membros da liga das mulheres do partido estão discutindo a próxima edição do jornal recém-criado Igualdade.

Em cada página do jornal, há o atual slogan da liga: "Não ao véu compulsório".

Sahera Zouhar, uma sunita de 31 anos, disse que esse é o slogan de cada mulher iraquiana hoje em dia.

"As coisas estão muito piores agora, não há segurança, as mulheres não podem sair, não podem se expressar, o véu se tornou compulsório para muçulmanos e cristãos", afirma.

"Se você anda pelas ruas sem o véu, agora, você pode ser morta", afirmou. "Eu fui insultada apenas por aparecer na minha sacada mostrando o meu cabelo."

As pessoas aqui dizem que não esperam que as autoridades da coalizão façam dos direitos das mulheres uma prioridade, mas se as coisas devem mudar para as mulheres no Iraque, elas terão que trabalhar juntamente com os homens para conseguir algo efetivo.

É por causa disso que, numa conferência organizada pelo recentemente lançado Movimento para o Renascimento das Mulheres do Iraque, chefes tribais foram convidados a participar.

Mas ninguém parecia convencido pelas promessas dos homens de apoiar os direitos das mulheres, mesmo sabendo que, nos anos 50, elas eram pioneiras, educadas e cosmopolitas.

Preocupações básicas

Lina Abboud é membro do movimento. Ela tem 28 anos e trabalha como ginecologista em sua própria clínica num bairro pobre de Bagdá.

Abboud diz que as mulheres que chegam até ela estão muito ocupadas pensando na qualidade da água que os filhos estão bebendo e em uma melhor maneira de evitar que a comida estrague por causa do calor.

Assim, não sobraria tempo para pensar em conquistar mais poderes para as mulheres.

"Todos nós temos muito trabalho a fazer, especialmente mudando a mentalidade das mulheres mais simples", disse a médica.

"Nós, mulheres educadas, temos que desempenhar esse papel para fazê-las perceberem sua importância. Vai levar um longo tempo, mas pelo menos nós temos a esperança de que isso vai mudar porque Saddam se foi, e tudo vai se normalizar a partir de agora."

Medo

É por isso que Myriam, uma cristã de 23 anos, se recusa a deixar seu país, mesmo agora que ela enfrenta insultos nas ruas por vestir calça jeans apertada e camiseta.

Antes da guerra, ela nunca tinha permissão para sair durante a noite.

Agora, ela ainda não pode sair, mas por diferentes razões.

"Esses homens do mukhabarat (a polícia secreta de Saddam) ou de famílias influentes, poderiam me ver nas ruas e decidir que me querem. Eles iriam dizer: 'quero essa garota' e seria isso", afirmou.

"Para te dizer a verdade, antes não havia segurança e agora não mudou. Você não pode sair."

A cristã acredita que o pós-guerra é também um momento para conquistar direitos e posição na sociedade.

"Temos que lutar por nossos direitos porque ninguém virá dizer: 'ei, aqui estão os seus direitos, isso é para você'. Nada vem facilmente", completa.

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