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Caio Blinder: A ambivalência dos EUA na Libéria
São os ossos do ofício imperial. Em geral, há indignação e súplicas quando os Estados Unidos realizam intervenções em assuntos internos de outros países. Em outras ocasiões, menos freqüentes nos últimos tempos, há indignação e súplicas diante da inação do império americano. A posição do governo Bush na crise da Libéria pode ser definida como de "em compasso de espera". A rigor, há um mínimo de mobilização. Na segunda-feira, o Pentágono despachou 41 fuzileiros navais para proteger a embaixada americana em Monróvia, enquanto, fora do complexo diplomático, falta proteção em meio a um cenário de apocalipse agora. Apesar do drama e das pilhas de cadáveres, não há indicações de que o governo Bush esteja próximo de uma decisão sobre o envio de soldados para se juntarem a uma missão de pacificação de um país que se desintegra após 14 anos de guerra civil. Pressões Com forças rebeldes intensificando suas ações contra o governo de Charles Taylor, também se intensificam pressões dentro dos Estados Unidos para uma atuação mais vigorosa da Casa Branca. A advertência é de que, com a demora, não haverá simplesmente nenhuma paz para manter, mesmo quando o governo Bush decidir se envolver em um país fundado por ex-escravos americanos e que mantém laços históricos com os Estados Unidos. Princeton Lyman, ex-embaixador dos Estados Unidos na África do Sul, resume o sentimento de urgência pró-intervenção: Eu lamento a demora para se tomar uma decisão. É um erro que agrava a situação. Salih Brooker, diretor do lobby Africa Action, é menos diplomático na crítica. Diz que o compasso de espera prova que o governo Bush nunca pensou seriamente em intervir na Libéria. A Casa Branca começou a mencionar a possibilidade de participação americana em uma missão de paz, ao lado de tropas de países da África ocidental, antes da viagem do presidente Bush ao continente, ocorrida no início do mês. Mas nunca especificou os termos desta intervenção, embora os sinais sempre tenham sido de duração e tamanho limitados. De qualquer forma, uma intervenção é condicionada ao afastamento do presidente Charles Taylor. Este, por sua vez, condiciona sua partida à chegada de tropas americanas. Dois lados As divisões internas no governo Bush sobre a crise na Libéria são as tradicionais. O Departamento de Estado está mais ansioso para que haja uma intervenção humanitária. O Pentágono resiste. A advertência de "falcões" da administração Bush é de que não se pode repetir o fiasco do governo Clinton na Somália dez anos atrás, quando não havia um claro objetivo estratégico em jogo. Geopolítica é um jogo impedioso e especialistas como James Philips, da conservadora Heritage Foundation, resumem as razões para os americanos ficarem de braços cruzados, ou ao menos ambivalentes, na Libéria: os EUA não têm interesses vitais no país, o Pentágono está sobrecarregado em operações no Iraque e no Afeganistão e intervenções humanitárias não devem guiar a política externa americana. Ironicamente, de todas as justificativas que levaram os Estados Unidos à guerra no Iraque, a necessidade de salvar a população de um regime de terror é a única que até agora se mostrou com credibilidade. Mas Libéria não rima com Iraque, pelo menos na linguagem política da Casa Branca. |
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