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Caio Blinder: Frente Africana
Políticos, como todos sabem, nem sempre cumprem a palavra. Na campanha eleitoral, George W. Bush disse que "enquanto a África pode ser importante, ela não se ajusta aos nossos interesses estratégicos". O presidente americano agora se ajusta à realidade estratégica e nesta segunda-feira parte para sua primeira visita à África negra, num giro por cinco países. Bush é o primeiro presidente republicano a pisar na região, 140 anos após o republicano Abraham Lincoln ter proclamado a emancipação dos escravos. Exímio executivo de marketing, Bush fará sua primeira escala no Senegal e na terça-feira falará ao mundo da ilha Goree, de onde partiam inumeráveis navios negreiros com sua carga humana. Sempre otimista, Bush escolheu cinco países marcados por um relativo sucesso na desolada e devastada paisagem africana. O Senegal tem a distinção de ser um dos poucos países da África pós-colonial que nunca amargou um golpe e, com uma população 90% muçulmana, é um dos grandes aliados americanos no continente. Sem Mandela Na África do Sul, o lendário Nelson Mandela não estará disponível para receber Bush, mas o país é o maior parceiro comercial dos Estados Unidos na África. Botsuana é um sucesso econômico e democrático. Uganda não tem estas credenciais, mas impressiona pelo êxito no combate à Aids, enquanto a Nigéria (rica em petróleo e corrupção) ao menos agora tem um ex-ditador eleito democraticamente. Nem tudo está perdido na África negra, mas quase tudo está. Há 40 milhões de pessoas que realmente precisam de um programa Fome Zero, 30 milhões com o vírus HIV e Aids e 42 milhões de crianças que nunca estiveram na escola. Alguns países assolados por guerra civil com nomes esquisitos como a República Democrática do Congo (3 milhões de mortos) e Libéria (200 mil mortos) hoje se inserem na categoria de Estados fracassados. Por este rosário de problemas e desafios, a África é estratégica para os interesses americanos. Um continente que hoje se tornou foco de efervescentes atividades do terror internacional (inclusive a rede Al-Qaeda, do dissidente saudita Osama Bin Laden) e que em dez anos poderá estar suprindo 30% das necessidades petrolíferas americanas, precisa urgentemente de estabilidade. Antes de tudo, Bush tem um recado político: a superpotência americana não vai negligenciar a África enquanto devota energia, dinheiro, planos militares e diplomacia para outros buracos quentes do planeta como Oriente Médio e península coreana. Aids O pacote africano dos Estados Unidos inclui uma verba de US$ 15 bilhões para o combate a Aids, pressões para a instalação de bases militares no continente, cobrança por mais empenho na luta antiterrorista e promessas de assistência a quem melhorar o comportamento para diminuir a corrupção e dar passos democráticos. A postura americana claro que é imperial e paternalista, mas ironicamente de várias partes o desejo é que a única superpotência se comporte desta maneira. Isto está mais do que patente na crise da Libéria. ONU, países africano e europeus conclamam o governo Bush a enviar tropas para botar um pouco de ordem em um país em que há anos não é possível diferenciar quem é polícia e quem é ladrão. Na divisão de trabalho, a Grã-Bretanha cuida de Serra Leoa e os franceses, da Costa do Marfim. A expectativa é que os Estados Unidos assumam o ônus da Libéria por seus laços históricos com o país. George W. Bush, o homem do conservadorismo compadecido, tem interesses estratégicos e obrigações morais na África. |
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