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Íntegra: Lula fala de juros e da reforma tributária
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva previu uma queda "sistemática" das taxas de juros brasileiras, em entrevista exclusiva à BBC Brasil, em Londres. A entrevista foi a primeira exclusiva dada por Lula a um veículo de imprensa desde que ele tomou posse, em 1º de janeiro deste ano. Lula viajou a Londres para participar da Cúpula da Governança Progressista, patrocinada pelo primeiro-ministro britânico, Tony Blair. O presidente Lula respondeu a perguntas de internautas do Brasil e de várias partes do mundo, selecionadas pela equipe da BBC. Leia abaixo a transcrição completa da entrevista, conduzida pelo diretor da BBC Brasil, Américo Martins, e o repórter Iain Bruce. BBC Brasil - Presidente, nós recebemos mais de 5 mil perguntas feitas para o senhor através dos sites da BBC em português, inglês e espanhol. Eu queria começar a entrevista com uma pergunta feita por Mendes Júnior, da cidade de Sobral (CE), e também por Frank Shimada, de Okaya, no Japão. Eles querem saber o seguinte: o sr. está gostando de administrar o Brasil? Quais são a melhor e a pior parte da função? Luiz Inácio Lula da Silva - Na verdade, eu estou realizando um sonho que eu e milhões de brasileiros alimentamos durante muitos e muitos anos. Portanto não se trata de gostar ou não gostar. Trata-se de cumprir uma determinação que nós mesmos nos impusemos. Eu ganhei as eleições com um programa de governo. Eu sabia que a situação do Brasil não era boa do ponto de vista econômico e do ponto de vista social Eu tenho até brincado que, se a situação fosse boa, eu não teria ganho as eleições. Só ganhei exatamente porque a situação do Brasil estava muito má. Mas eu tinha consciência de que nós poderíamos resolver os problemas do Brasil. Eu diria para as duas pessoas que me fizeram a pergunta que eu estou fazendo aquilo que eu mais queria fazer na vida que era provar que nós éramos capazes de mudar o Brasil. E vamos mudar. Vamos fazer as políticas sociais que entendemos que podem garantir cidadania ao povo brasileiro. Vamos governar tentando ajudar a parte mais pobre da população a conquistar o seu espaço de dignidade na nossa sociedade. E isso eu tenho pedido ao povo para ter um pouco de paciência exatamente porque o primeiro ano é o ano mais difícil em toda e qualquer administração. Mas nós sabemos o que queremos. Sabemos como alcançar o que queremos e vamos alcançar. É por isso que, no meu discurso de posse, eu disse que nós iríamos primeiro fazer o necessário, depois iríamos fazer o possível e, quando menos esperassem, nós estaríamos fazendo o impossível. Eu estou tranqüilo. Estou consciente dos problemas, mas também estou consciente de como encontrar a solução para esses problemas. BBC Brasil - E o que é o melhor e o pior da função? Lula - Eu acho que o melhor de ser presidente da República é que você tem o direito de fazer as propostas de mudanças que você a vida inteira reivindicou que os outros fizessem. Eu diria que o pior é a gente não ter tempo de fazer tudo o que a gente quer fazer. O dia só tem 24 horas. Ou seja, quando você está fazendo metade das coisas que você pode fazer, já acabou o dia. Eu, sinceramente, gostaria de ter mais tempo para poder fazer mais coisas. Tentar compatibilizar a agenda institucional, com a agenda social e ainda a agenda internacional Na verdade, o dia precisaria ter 36 horas ou mais para dar tempo de fazermos tudo. BBC Brasil - O sr. mencionou as dificuldades que o país vem e vinha enfrentando e que, na sua própria avaliação, o ajudaram a se eleger. A maioria das perguntas que nós recebemos diz respeito justamente à economia do país. Por exemplo, Alcri Everardo Zago, de Bariri, em São Paulo, questiona sobre o crescimento. E José Luiz Tibiriçá quer saber se o sr. não acha que a carga tributária, e não a taxa de juros, é o principal entrave para o crescimento do Brasil neste momento. Lula - Primeiro, a questão do crescimento. O crescimento é uma busca quase que obsessiva do meu governo. Nós precisamos e temos consciência de que a economia brasileira precisa crescer. Mas é preciso crescer com distribuição de renda e riqueza, porque historicamente o Brasil cresceu muito. Se você pegar de 1950 a 1980, o Brasil cresceu acima de 7% em média ao ano. Entretanto, não houve distribuição de renda. Por isso é que no Brasil se dizia: os ricos ficaram mais ricos e os pobres ficaram mais pobres. Nós achamos que o crescimento tem que ser acompanhado de uma boa política de distribuição de renda. Acontece que, para você crescer e ter investimentos, você precisa ter arrecadação. E nós tomamos posse numa situação muito delicada do ponto de vista das finanças públicas. Nós colocamos ordem na casa, porque em dezembro a perspectiva inflacionária pelos próximos 12 meses era da 40%. Nesses últimos seis meses, nós tratamos de arrumar a casa, colocar ordem na casa e agora trabalhamos com uma perspectiva de uma inflação de 7% a 7,5% para os próximos 12 meses. Nós começamos uma escalada agora para reduzir a taxa de juros. E vamos agora, no próximo dia 17, quando estivermos voltando para o Brasil, eu à tarde já tenho uma reunião para discutir os grandes projetos de infra-estrutura que nós vamos fazer. Ou enquanto governo ou enquanto parceria com o setor privado. Vamos buscar dinheiro onde tiver dinheiro para ver se conseguimos fazer esses projetos de infra-estrutura. Enquanto isso, nós anunciamos no mês de junho e começo do mês de julho algumas medidas muito interessantes. Ou seja, nós fizemos o maior investimento para agricultura já feito na história do Brasil, nós fizemos o mais importante investimento para a agricultura familiar, de R$ 5,4 bilhões. Em 2002, tinham sido anunciados R$ 4 bilhões, mas apenas R$ 2 bilhões tinham sido liberados Eu não só anunciei, como dei o telefone da conta e do Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) para que quem tivesse dificuldades de conseguir o dinheiro telefonasse diretamente para o ministro. Isso porque habitualmente se anuncia o dinheiro e depois, no final do ano, o dinheiro não sai. Nós queremos que saia todo esse dinheiro anunciado para a agricultura familiar. E temos uma novidade extraordinária: não apenas o agricultor pode pegar o dinheiro, mas a sua mulher também pode ter um projeto e pegar dinheiro, e também o seu filho pode ter um projeto e pegar dinheiro. Acho que é uma novidade extraordinária. Assumimos o compromisso de comprar a safra dos produtores da agricultura familiar do semiárido nordestino. Porque o povo pobre do Nordeste às vezes não planta porque não chove. Quando chove, que todo mundo planta, a produção aumenta e o preço cai, e eles continuam perdendo. Então nós estamos assumindo, enquanto programa Fome Zero, comprar o produto dessa agricultura familiar Nós anunciamos a liberação de cooperativas de crédito no Brasil para cidades de até 100 mil habitantes. Nós criamos um crédito na Caixa Econômica Federal para as pessoas tomarem dinheiro emprestado de R$ 200 a R$ 600 para ajudar a reduzir a política de juros do sistema financeiro. Então tomamos muitas medidas para a economia brasileira voltar a crescer. E a questão da política tributária Nós mandamos uma proposta ao Congresso Nacional, feita de comum acordo pelo governo, pelos governadores e pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Essa proposta vai ser votada no Congresso Nacional e eu espero que, com ela, nós acabemos com a guerra fiscal no Brasil, acabemos com a sonegação, reduzamos o imposto sobre a produção, permitindo que o Brasil tenha maior poder de competitividade, tenha mais vantagens comparativas na sua relação comercial com outros países. BBC Brasil - Mas o sr. acha que a carga tributária é um empecilho maior do que os juros, por exemplo, para o crescimento do Brasil? Lula - Não, eu não acredito. Porque a carga tributária brasileira é alta, obviamente que ela é alta, mas, se comparada a vários países do mundo, ela não é alta. Entretanto, o problema do Brasil é que ela é injusta porque você penaliza hoje quem investe na produção. E nós precisamos desonerar a produção para facilitar o Brasil. E isso está contido na nossa proposta de política tributária. A unificação do ICMS, que é hoje o imposto que mais arrecada nos Estados, que tem hoje 40 alíquotas, nós estamos reduzindo isso para cinco, ou seja, eu acredito que, depois de outubro, e eu espero que sejam aprovadas até lá as reformas, a gente esteja num patamar de competitividade com o chamado mundo desenvolvido. BBC Brasil - Nós também recebemos muitas perguntas de internautas sobre juros. Alencar Donizete Rosa, de São José dos Campos (SP), por exemplo, quer saber como reduzir as taxas de juros cobradas pelos bancos e pelas empresas de crédito. Lula - Nós estamos oferecendo alternativas. No Brasil, na verdade, nós temos a taxa Selic, que é a taxa referencial de juros, que o governo paga para os compradores dos seus títulos, que está a 26%, e nós temos os juros do sistema financeiro que são uma coisa totalmente à parte. Ou seja, hoje uma pessoa que tem um cartão de crédito está pagando 212% de juros. Uma pessoa que compra à prestação uma geladeira, uma televisão, paga 160% ao ano. BBC Brasil - Isso é aceitável, presidente? Lula - Isso não é aceitável do ponto de vista lógico. Agora, o que é que o sistema financeiro faz? Ele diz que o número de inadimplentes é muito grande e que, portanto, eles têm que vender com juros altos para poder garantir o recebimento daquilo. Ou seja, na verdade, o que acontece é que as pessoas que podem pagar pagam por aqueles que não podem pagar. Pagam pelo inadimplente. Nós achamos que é preciso não só criar mecanismos para reduzir as taxas de juros como incentivar, por exemplo, o sistema financeiro a investir em alguma coisa que signifique aumentar a capacidade produtiva do país, como por exemplo, em habitação. Nós estamos trabalhando com isso e por isso nós criamos um sem-número de mecanismos para baratear os juros para o pequeno crédito, para o pequeno consumidor, e eu acho que isso vai levar os bancos a reduzir suas taxas de juros. Porque o que nós queremos, na verdade, é fazer com que o banco também tenha uma função social de emprestar dinheiro para coisas que gerem crescimento da economia, que gerem empregos e que gerem renda. BBC Brasil - E a taxa Selic o senhor também acha que vai cair? Lula - Vai cair. Vai cair porque a taxa Selic é utilizada normalmente como uma taxa de controlador da inflação e, como nós pegamos o Brasil numa situação um pouco delicada, a taxa de juros ficou em 26,5%, no seu teto maior. Agora começou uma escalada de redução. Nós estamos convencidos de que a inflação já foi debelada. Ou seja, nós não corremos mais o risco de a inflação chegar a dois dígitos. Por isso eu acho que a agora a taxa de juros vai cair sistematicamente. BBC Brasil - E pode ser rápido isso? Lula - Pode ser rápido até chegar a um padrão Nós temos que ter um certo controle da economia para não deixar a inflação voltar. Ao mesmo tempo, nós temos que ter um cuidado enorme para não deixar que o Estado gaste mais do que ele tem capacidade de arrecadar. E, ao mesmo tempo, nós temos que investir os poucos recursos que o Estado tem de forma a gerar crescimento econômico neste país. Escolher com muito carinho quais são os projetos prioritários, e nós estamos fazendo isso tentando envolver a sociedade. É por isso que, pela primeira vez, nós estamos discutindo o plano plurianual, que são os projetos de infra-estrutura que nós pretendemos para os próximos quatro anos. Discutindo com a sociedade, discutindo com os Estados, discutindo com entidades de caráter nacional, discutindo com o movimento sindical, discutindo com o Congresso Nacional, e vamos levar em conta a necessidade de o Brasil ser pensado nacionalmente, regionalmente e setorialmente para que a gente possa fazer justiça nos investimentos que o governo pode fazer e não desenvolver apenas uma parte do Brasil, mas desenvolver aquela parte que historicamente tem recebido menos investimentos do governo federal. |
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