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Kirchner impõe na Argentina o 'estilo K' de governar
Em menos de um mês no cargo, o presidente argentino, Néstor Kirchner, surpreendeu eleitores e analistas em geral com medidas contra a cúpula militar, a Suprema Corte de Justiça, o sindicalismo e os sonegadores de impostos. Neste mesmo período, Kirchner já reclamou a soberania das Ilhas Malvinas, 21 anos após a derrota na guerra contra a Grã-Bretanha, e demitiu o procurador do Tesouro, Carlos Sánchez Herrera - nomeado pelo próprio Kirchner, há apenas 13 dias. O presidente não gostou de saber que o advogado defendeu um general, Juan Bautista Sasiaiñ, acusado de ser autor do seqüestro de bebês durante o regime militar (1976 a 1983). A denúncia foi publicada pelo jornal Pagina 12, e a decisão de Kirchner gerou polêmica entre constitucionalistas, mas o presidente não mudou de idéia. As ações do novo presidente argentino já foram batizadas de "estilo K". Motivos Na opinião do analista político Jorge Giacobbe, da consultoria Giacobbe e Associados, Kirchner atua em várias frentes para tentar mostrar que tem condições de governar o país. "Néstor Kirchner atua desta maneira para matar quatro fantasmas: a escassez de votos (24%) com que assumiu o poder; a suposta dependência do ex-presidente Eduardo Duhalde; a alegação de que as pessoas não o conhecem; e para acabar com as semelhanças de inoperante com o ex-presidente Fernando de la Rúa", diz Giacobbe. De la Rúa renunciou à Presidencia, sob panelaços, em dezembro de 2001, acusado principalmente de não governar.
Eduardo Duhalde foi presidente interino durante pouco mais de um ano e fez de Kirchner seu sucessor. Até então, o atual presidente era quase um desconhecido governador da província de Santa Cruz, na Patagônia. Hoje, assessores de Kirchner admitem que Duhalde, mesmo em férias no exterior, liga com freqüência para saber como vai o novo governo. "Até agora, Kirchner adotou uma série de gestos de forte conteúdo político, mas sem resultados concretos para a população em geral", destaca o cientista político Rosendo Fraga, do Centro de Estudos União para a Nova Maioria. "Mas a questão que poderá complicar a governabilidade nos próximos meses é a tendência a somar frentes de conflitos", acrescenta Fraga. Resposta Logo após as medidas adotadas nos primeiros dias de sua administração, Kirchner foi acusado por críticos de abrir feridas e gerar mais problemas para a Argentina. "Ao contrário. Estou me metendo nestes assuntos exatamente porque continuam abertos", respondeu o presidente. Sempre com lances espetaculares, devidamente planejados e mostrados pelas emissoras de TV, Kirchner costuma sair de casa, em pleno bairro nobre da Recoleta, sem seguranças. O presidente abraça e beija os que dele se aproximam e gesticula com sinais otimistas para as câmeras de televisão. Evasão fiscal O "estilo K", pelo menos nestes primeiros dias de governo, incluiu a determinação de que fiscais do Fisco, disfarçados de compradores, entrem, sem revelar a identidade, em lojas e empresas. Os fiscais são orientados a checar se os estabelecimentos comerciais cumprem a lei e entregam notas fiscais. Assim que assumiu, Kirchner prometeu cadeia para sonegadores e, três semanas depois, apresentou um pacote de medidas com este objetivo. O "estilo K" também permite que a mulher do presidente, Cristina Fernández Kirchner, não abra mão da cadeira de senadora para cumprir apenas o papel de primeira-dama. Estratégia Dentro da estratégia de mostrar-se "superativo", Kirchner fez um pronunciamento em rede nacional para reprimir o presidente da Suprema Corte de Justiça, Júlio Nazareno. Nazareno, ligado ao ex-presidente Carlos Menem, pode ter os dias contados se o inquérito parlamentar instaurado na Câmara dos Deputados, por influência de Kirchner, for concretizado. O "estilo K" já conta também com uma canetada presidencial que provocou a demissão de 75% da cúpula das Forças Armadas e a revisão de contratos do PAMI (Servico de Previdência Social), controlado por parte do sindicalismo. Kirchner não realiza reuniões ministeriais e, de acordo com seus assessores, participa até das definições de nomes do terceiro escalão do governo. Superministro O "estilo K" também não quer saber de contar com um superministro da Economia. Por isso, nesta semana, o ministro Roberto Lavagna foi obrigado a dividir com outras autoridades o anúncio do pacote contra a evasão de impostos. Segundo assessores do governo, acabou a era de um ministro que fala sozinho sobre medidas oficiais de impacto diante das câmeras de televisão. A intenção é demonstrar que Kirchner não permitirá a reedição de um novo Domingo Cavallo, ministro que acumulou "superpoderes" nos quase dez anos do governo de Carlos Menem. Imagem positiva Hoje, de acordo com diferentes institutos de opinião, o presidente argentino tem entre 70% e 75% de imagem positiva. "Nestes primeiros dias de gestão, Kirchner tem vivido o mesmo apoio inicial dado pela população a todo o governo eleito na Argentina", diz Rosendo Fraga. Para o analista, o desafio do presidente será manter este apoio nos próximos tempos. Já Jorge Giacobbe destaca que, até agora, Kirchner não tocou nos assuntos que são considerados imediatos e que afligem o cotidiano dos argentinos. A Argentina, diz o analista, tem quase 60% da sua população na pobreza, ou abaixo da linha de pobreza, e mais de 20% de desempregados. "Kirchner ainda não entrou nas questões para reativar o mercado e a produtividade interna. Acho que, em algumas semanas, apesar da sua alta imagem positiva, a sociedade vai cobrar isso", prevê. Inspiração O "estilo K" tem ainda o item de proteção à imagem presidencial - uma estratégia para evitar os vexames vividos por De la Rúa, que foi vaiado nas ruas. Até aqui, Kirchner tem evitado entrevistas coletivas ou exclusivas e, neste sentido, como chegou a comparar durante a semana o jornal La Nación, se parece com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os assessores de Kirchner, como reconhece o porta-voz Miguel Nuñez, estão em sintonia direta com os auxiliares de Lula no Palácio do Planalto. Observadores afirmam que a "inspiração", que acabou contribuindo para o "estilo K", permite assim que o presidente se comunique com a sociedade em discursos ou pronunciamentos em rede nacional - sem a interferência de perguntas sobre suas medidas. |
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