As baleias que se comunicam em código

Filhotes levam dois anos para aprender a fazer os tipos de coda (clique) de forma apurada

Crédito, Amanda Cotton

Legenda da foto, Filhotes levam dois anos para aprender a fazer os tipos de coda (clique) de forma apurada

Na região da ilha de Dominica, no Caribe, há um grupo de baleias cachalote que intriga pesquisadores há mais de uma década.

Como outros mamíferos marítimos dessa espécie, elas possuem uma vida social complexa. Mas o que torna esse grupo especial é que seus integrantes vivem em pequenas unidades familiares, algo que permite a identificação rápida de baleias específicas.

Essa característica traz revelações únicas sobre o mundo dessas baleias. Sabe-se, por exemplo, que cachalotes se lembram dos amigos e de suas unidades familiares por muitos anos.

Pesquisadores agora buscam descobrir exatamente como as baleias conseguem rastrear umas às outras.

Nas profundezas turvas e escuras do oceano, reconhecer um colega apenas pela visão seria difícil.

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Grupos de filhotes costumam ficar na superfície enquanto as fêmeas caçam lulas no fundo do oceano

Crédito, Amanda Cotton

Legenda da foto, Grupos de filhotes costumam ficar na superfície enquanto as fêmeas caçam lulas no fundo do oceano

Agora, indícios mostram que cada baleia emite sons específicos. Seria algo semelhante aos recursos que os humanos usam para se identificar: nossos nomes e nossas vozes.

Cada baleia emite um conjunto de cliques rápidos chamados "codas". Eles são tão distintos entre si que os pesquisadores podem identificar as baleias apenas pelo som.

"Tradicionalmente identificamos cachalotes por fotos de suas caudas, mas quando estão se comunicando é difícil dizer quem está fazendo o quê (usando apenas as caudas como referência)", diz o pesquisador chefe do projeto, Shane Gero, da Universidade Aarhus, da Dinamarca.

"E esse som varia tanto entre indivíduos numa família que podemos distingui-los."

  • <italic>Ouça um <link type="page"><caption> trecho</caption><url href="https://soundcloud.com/bbc_com/sperm-whale-call-5r-exchange-at-the-onset-of-a-dive" platform="highweb"/></link> de um chamado individual de um cachalote</italic>

A habilidade das baleias na linguagem não fica por aí. Assim como grupos familiares unidos que vivem juntos por toda a vida, elas também integram “clãs” maiores – e com dialetos específicos para corresponder.

Cachalotes machos podem ser até três vezes maiores do que fêmeas adultas

Crédito, Marina Milligan

Legenda da foto, Cachalotes machos podem ser até três vezes maiores do que fêmeas adultas

Os integrantes do clã do Caribe não se encontram com frequência, mas usam codas específicos quando o fazem. Todos os membros do clã produzem esses sons de um jeito único, que os investigadores não conseguem distinguir.

Os clãs podem ser formados por centenas de indivíduos. Todos "falam" no mesmo padrão de cliques, mesmo se viverem a milhares de quilômetros de distância entre si.

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Os resultados do estudo foram publicados na revista científica <link type="page"><caption> Open Science</caption><url href="http://rsos.royalsocietypublishing.org/content/3/1/150372" platform="highweb"/></link>. Trata-se da a primeira comprovação da "hipótese da complexidade social" em uma espécie marinha.

A premissa da hipótese é a seguinte: se um animal tem um mundo social complexo, ele possui maior necessidade de se comunicar de maneiras diferentes.

"Mostramos que as baleias produzem todas as chamadas necessárias para identificar indivíduos, sua unidade social (ou família, na analogia com humanos) e seus clãs culturais (ou grupo étnico na mesma analogia)", afirma Gero.

Cachalotes com diferentes repertórios de codas não passam tempo juntas.

Cachalotes normalmente são identificados pela extremidade da cauda

Crédito, Dominica Sperm Whale Project

Legenda da foto, Cachalotes normalmente são identificados pela extremidade da cauda

A investigação identificou esses padrões específicos em nove famílias do clã de cachalotes da Dominica. Eles escutaram os cliques das baleias em 324 dias de observação, ao longo de seis anos.

Os pesquisadores fizeram gravações acústicas dos momentos em que as baleias mergulhavam e interagiam socialmente.

Para Gero, o fato de as baleias cachalote se comunicarem dessa maneira faz sentido. Elas precisam diferenciar suas famílias e membros do clã mesmo quando submergem, e agora se sabe que elas possuem preferências arraigadas pelos indivíduos com quem convivem mais.

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"Mostramos aqui que elas possuem chamados que poderiam funcionar como mediação em todos esses diferentes tipos de relações sociais que já sabíamos que existem", diz Gero.

Mães, como essa da foto, amamentam os filhotes por vários anos

Crédito, Marina Milligan

Legenda da foto, Mães, como essa da foto, amamentam os filhotes por vários anos

"Como você poderia saber de outra maneira qual integrante da família está se aproximando, a não ser pelo reconhecimento acústico?"

Enquanto o clã do Caribe é pequeno, formado por algumas centenas de baleias em uma área de 1.000 km, o clã do oceano Pacífico é muito maior e vive bem mais espalhado. Pode haver até mil indivíduos, e os dialetos de cada clã podem abranger milhares de quilômetros.

Isso pode ter uma consequência impressionante. Se todas as cachalotes do mundo usarem esses marcadores vocais para definir grupos culturais, então elas são, diz Gero, "o maior grupo cultural e cooperativo além dos humanos".

Com a identificação de codas individuais e de clãs, os pesquisadores querem verificar a reação das baleias a esses sons. Isso deverá revelar mais sobre habilidades linguísticas compartilhadas por baleias e como e quando certos cliques são usados.

  • <italic>Neste <link type="page"><caption> trecho</caption><url href="https://soundcloud.com/bbc_com/sperm-whales-interact" platform="highweb"/></link>, por exemplo, há várias baleias "falando" juntas, mas chamados individuais podem ser claramente identificados</italic>

O trabalho confirma a ideia de que cada cachalote representa um papel integral em sua família. Como em humanos, relações complexas são baseadas em experiências e na cultura comum.

"Esses achados levam nosso conhecimento sobre a complexidade cultural das baleias a outro nível", afirma Lori Marino, neurocientista e ativista no Centro Kimmela de Defesa Animal.

O cachalote produz vocalizações usando o nariz

Crédito, Whitehead labDominica Sperm Whale Project

Legenda da foto, O cachalote produz vocalizações usando o nariz

Para Marino, que não participou do estudo, as baleias, como os humanos, possuem traços culturais que existem em diferentes níveis: o individual, a unidade social e o clã.

"Enquanto no passado a questão sobre a existência de tradições culturais em baleias e outros animais era considerada fantasiosa, hoje sabemos que muitos outros animais, incluindo os cachalotes, possuem tradições bem complexas."

"Padrões culturais em baleias cachalote podem realmente ser definidos como tradições no sentido real da palavra."

  • <italic><bold>Leia a <link type="page"><caption> versão original desta reportagem</caption><url href="http://www.bbc.com/earth/story/20160120-the-whales-that-speak-in-code" platform="highweb"/></link> em inglês no site da <link type="page"><caption> BBC Earth</caption><url href="http://www.bbc.com/earth/uk" platform="highweb"/></link>.</bold></italic>