Putin 'provavelmente' aprovou assassinato de espião russo em Londres, conclui relatório

Alexandre Litvinenko, em um de seus últimos registros, foi vítima de um dos assassinatos mais audaciosos da era moderna

Crédito, Getty

Legenda da foto, Alexandre Litvinenko, em um de seus últimos registros, foi vítima de um dos assassinatos mais audaciosos da era moderna

O assassinato do ex-espião russo Alexander Litvinenko em 2006 foi "provavelmente" aprovado pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin, apontou uma investigação oficial na Inglaterra.

O relatório da apuração diz ser provável que Putin tenha dado o aval ao envenenamento de Litvinenko, em parte por "antagonismo" pessoal entre os dois.

O governo da Rússia disse que a investigação foi "politizada". "Lamentamos que um caso estritamente criminal tenha sido politizado, ofuscando a atmosfera das relações bilaterais (entre Rússia e Reino Unido)", disse o Ministério das Relações Exteriores russo.

Litvinenko morreu aos 43 anos em Londres em novembro de 2006, três semanas após ter sido envenenado com polônio-210 – material radioativo que, a partir de determinadas doses, danifica os tecidos e órgãos do corpo.

Dois dias antes de morrer, ele deixou uma carta apontando Putin como responsável por sua iminente morte – acusação que o presidente da Rússia sempre negou.

<link type="page"><caption> Leia também: Por que Hiroshima e Nagasaki são habitáveis e Chernobyl não?</caption><url href="http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/08/150808_hiroshima_nagasaki_chernobil_rm" platform="highweb"/></link>

Siga a BBC Brasil no <link type="page"><caption> Facebook</caption><url href="https://www.facebook.com/bbcbrasil" platform="highweb"/></link> e no <link type="page"><caption> Twitter</caption><url href="https://twitter.com/bbcbrasil" platform="highweb"/></link>

O corpo de Litvinenko está enterrado no cemitério Highgate, em Londres, em um caixão de ferro para evitar contaminação

Crédito, PA

Legenda da foto, O corpo de Litvinenko está enterrado no cemitério Highgate, em Londres, em um caixão de ferro para evitar contaminação

Ex-tenente-coronel e ex-membro da FSB (a polícia secreta soviética, sucessora da KGB), ele era um crítico duro do Kremlin. Fugira para a Inglaterra em 2000 após denunciar conexões criminosas na FSB. Acredita-se que Litvinenko tenha, mais tarde, trabalhado para o MI6, o serviço secreto britânico.

Gordon Corera, especialista em segurança da BBC, disse que o relatório recém-divulgado em Londres foi "mais forte do que se esperava".

A investigação inglesa acusou dois russos - Andrei Lugovoi and Dmitry Kovtun - como responsáveis pela morte. Ambos negam o crime e já tiveram a extradição negada por Putin no passado.

Envolvimento de Estado

O juiz Robert Owen concluiu que ambos provavelmente agiram sob direção da FSB.

Citando Putin e o chefe da FSB à época, Nikolai Patrushev, ele escreve no relatório de 300 páginas: "Levando em conta todas as provas e as análises disponíveis, eu avalio que a operação da FSB para matar Litvinenko provavelmente foi aprovada por Patrushev e também pelo presidente Putin".

O magistrado disse que o trabalho de Litvinenko para órgãos britânicos de inteligência, suas críticas a Putin e à FSB e sua ligação com dissidentes russos foram os prováveis motivos de sua morte.

E o uso do polônio-210, para o juiz, foi "no mínimo um forte indicativo de envolvimento de Estado", já que o isótopo precisa ser produzido em reatores nucleares.

<link type="page"><caption> Leia também: Americano congelado na neve é ressucitado com técnica que esquenta sangue</caption><url href="http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160121_homem_gelo_tg.shtml" platform="highweb"/></link>

A viúva de Litvinenko, Marina, pediu sanções à Rússia e o banimento de Putin do Reino Unido

Crédito, Reuters

Legenda da foto, A viúva de Litvinenko, Marina, pediu sanções à Rússia e o banimento de Putin do Reino Unido

O polônio emite partículas alfa, que fora do corpo podem ser barradas por roupas ou até por papel. Pode ser transportado em vidros e não aciona detectores de radiação em aeroportos. Uma vez digerido, a identificação é difícil, porque toda a radiação fica dentro do corpo.

Uma dose de um micrograma, menor que um grão de areia, é fatal – Litvinenko deu três pequenos goles em um chá com a substância e absorveu 26,5 microgramas.

O assassinato de Litvinenko só foi desvendado porque um cientista sugeriu, dois dias antes da morte, testar a urina de Litvinenko para radiação alfa, exame só feito em laboratórios nucleares.

A investigação reuniu provas de que Litvinenko pode ter sido submetido a uma morte dolorosa como forma de "mandar uma mensagem".

A viúva de Litvinenko, Marina, se disse satisfeita com o resultado da apuração britânica e defendeu sanções à Rússia, além de um veto à presença de Putin no Reino Unido.

A secretária do Interior britânica, Theresa May, disse que o assassinato representa um rompimento "óbvio e inaceitável" da lei internacional.