#SalaSocial: 'Chatos moderados precisam sair do armário no Brasil do Fla-Flu'

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- Author, Leandro Beguoci*
- Role, especial para a BBC Brasil
Tempo é nosso bem mais precioso. Não podemos colocá-lo no mercado ou doá-lo. Apesar disso, muitas pessoas inteligentes, todos os dias, gastam horas preciosas de vida em discussões barulhentas que não levam a nada. São apenas agressões.
Nos últimos anos, o Brasil entrou com tudo nessa modalidade de vale tudo. Há ofensas e socos na Câmara dos Deputados. Amizades desfeitas no Facebook por conta de preferências políticas. As grandes festas familiares, como o Natal, são antecedidas por sofrimento: as pessoas ficam pensando se o pai, a mãe, o tio ou a sobrinha vão reproduzir, à mesa, o que postam nas suas redes sociais.
A agressividade nos debates saiu da área de comentários, foi para a mesa de jantar e voltou ainda mais envenenada para as "timelines".
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O debate público no Brasil de hoje, seja no Parlamento ou no ponto de ônibus, foi tomado por um método simplista e eficiente. Colocamos cada pessoa em uma caixinha e a classificamos como amiga ou inimiga. Não há espaço para quem diz "as coisas são mais complicadas do que isso" ou "acho melhor checar os fatos para ver se é isso mesmo".
Qualquer tentativa de colocar substância no debate é vista como um alinhamento automático com o inimigo. Você conhece os exemplos, e eles são muitos – infelizmente.
Para os extremos do debate, esse é um caminho próspero. Esses polos prosperam com a falta de dados, com os gritos e com os inimigos comuns. Têm soluções para tudo.
Convenhamos, é muito pouco para um país que, até hoje, não conseguiu ligar 40% das suas residências à rede de esgoto e que ainda convive com grandes taxas de evasão escolar. Eles substituem o chato do concreto pela emoção de um ringue. E, tenho de admitir: é atraente. Inútil, mas atraente.
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E é atraente porque, nesses tempos incertos em que vivemos, no Brasil e no mundo, nós queremos respostas rápidas a nossas dúvidas. Por isso, o extremismo cresce. Ele oferece um norte.
Tomados pela ansiedade de encontrar respostas, nós estamos suprimindo as perguntas – e ignorando os perguntadores. Porém, essas pessoas são fundamentais para resolver os problemas.
E precisamos fazer perguntas não apenas sobre as nossas mazelas, mas também sobre as nossas conquistas.
Por exemplo: Como e por que o Brasil venceu, <link type="page"><caption> pela primeira vez, um campeonato mundial de ensino técnico</caption><url href="http://www.valor.com.br/brasil/4183178/pela-1-vez-brasil-vence-competicao-mundial-de-educacao-profissional" platform="highweb"/></link>? <link type="page"><caption> Ou como o trabalho árduo de milhares de brasileiros anônimos, ao longo das décadas, criou a maior rede pública de transplantes de órgãos do planeta</caption><url href="http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2015-09/brasil-e-destaque-no-contexto-mundial-de-doacao-de-orgaos" platform="highweb"/></link>? São feitos impressionantes, fruto do trabalho de muitas pessoas diferentes (e com cabeças diferentes) país afora.
Entender o que funciona é tão fundamental quanto apontar o que não funciona. Afinal, reconhecer as nossas mazelas não é fazer crítica barata ao governo. Apontar nossos sucessos não é se deliciar no quentinho da chapa branca.
Muitas pessoas e organizações têm feito esse trabalho, de buscar correção e profundidade nas discussões. Há grupos de jornalistas que apenas checam dados e desmontam declarações amalucadas e mentirosas. Há uma efervescência nas discussões sobre as cidades, com uniões de especialistas, donas de casa, aposentados, estudantes e mais um monte de gente para melhorar espaços públicos. Essas pessoas estão transformando as discussões delas em resultados bons – e reais.
Claro, não é todo mundo que tem tempo e disposição para fazer isso. Mas mesmo do nosso lado do teclado, nas nossas casas, nós podemos contribuir. Basta que, ao entrar no debate, a gente se disponha a dar substância a ele, com fatos, dados e opiniões bem fundamentadas.
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Também é imprescindível ouvir. Nós precisamos escutar os outros com atenção e levar seus pontos a sério – até para entender os seus (e os nossos) erros e acertos. A desqualificação sistemática do ponto de vista das outras pessoas é uma ferramenta que só interessa a extremistas para organizar e manter seu poder.
Não tenho ilusões de que vamos todos caminhar juntos o tempo inteiro. A discordância faz parte da vida, e isso é bom. Ela nos provoca e nos leva adiante. Mas uma coisa é clareza de propósitos e ideias, outra é o consenso passado na marra e no grito. Podemos até levantar a voz e o tom (quem nunca?), mas precisamos de mais substância para sustentar declarações fortes e passar receitas definitivas.
Por isso, chegou a hora dos moderados, muitas vezes taxados de chatos, das pessoas que fazem perguntas, dos indivíduos que não se contentam como fatos extraídos de fontes pouco confiáveis. É o momento de quem quer fazer alguma coisa. A multidão silenciosa, que não aceita ser manada, espalhada entre os extremos, com medo de ser atacada pelas gangues dos likes, precisa aparecer.
É hora de perguntar "Ok, e qual o seu plano?" "De onde você tirou essa informação?" "Qual a evidência que sustenta uma declaração tão forte?" É mais chato, eu sei. Também é mais útil. É hora de confrontar os extremos com o seu próprio vazio. Às vezes, uma simples pergunta basta. É o momento de qualificar os debates públicos, mesmo aquelas zonas áridas dos comentários de Facebook.
Afinal, o Brasil não pode se dar o luxo de desperdiçar tempo com a estupidez. Há mais o que fazer por aqui do ganhar discussão no Facebook. Se você quer ir além do grito, há milhares de pessoas que querem caminhar contigo. Você não está só.













