'Decisão histórica trará boom de biografias', diz Ruy Castro

STF votou pela liberação de biografias não autorizadas

Crédito, Agencia Brasil

Legenda da foto, STF votou pela liberação de biografias não autorizadas
    • Author, Renata Mendonça - @renata_mendonca
    • Role, Da BBC Brasil em São Paulo

Após uma longa queda de braço entre biógrafos e biografados, o Supremo Tribunal Federal (STF) liberou a publicação de biografias sem necessidade de autorização prévia. Foram 9 votos a 0, em unanimidade entre os ministros presentes, que seguiram a opinião da relatora do caso, Carmen Lúcia.

"Essa decisão é histórica e fará justiça a tudo que se vem reivindicando", disse o escritor Ruy Castro à BBC Brasil.

"A luta não é de agora, isso vem desde 2002, ou seja, há 13 anos somos obrigados a pedir autorização para publicar as biografias e, muito antes disso, já existia chantagem aos biógrafos. Os artigos caíram tarde", completou o autor de Estrela Solitária ─ Um Brasileiro chamado Garrincha, livro proibido pela família do jogador e que acabou liberado mediante pagamento de indenização.

Para Castro, a decisão estimulará a publicação de muitas biografias nos próximos meses ─ obras que estavam paradas por conta da polêmica na Justiça.

"Vai haver provavelmente um boom de biografias nesses tempo, depois vai ter uma acomodação natural. O problema é que enquanto havia essa restrição à liberdade das biografias, muitas pararam de ser escritas porque os autores tinham medo e as editoras mais ainda".

<link type="page"><caption> Leia mais: STF julga autorização prévia de biografias; conheça casos polêmicos</caption><url href="http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/06/150609_biografias_polemicas_lgb" platform="highweb"/></link>

A proibição à publicação de biografias não autorizadas se fiava nos artigos 20 e 21 do Código Civil. A lei, vigente desde 2002, impedia a veiculação de informações pessoais de biografados em situações que "lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade".

Em 2012, porém, a Associação Nacional dos Editores de Livros (Anel) moveu uma Ação Direta de Inconstitucionalidade para derrubar os artigos e conseguiu nesta quarta o que chamou de "reconquista da liberade" para obras biográficas.

"Censura é forma de cala-boca. Isso amordaça a liberdade para se viver num faz de conta. Abusos, repito, podem ocorrer e ocorrem. Mas acontece em relação a qualquer direito", afirmou Carmen Lúcia, relatora do caso.

Biografia de Garrincha, escrita por Ruy Castro, foi liberada para circulação após pagamento de indenização

Crédito, Reproducao

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'Bandidos'

Edmundo Leite, jornalista que está escrevendo a biografia do cantor Raul Seixas, também comemorou a decisão.

"Ela (a decisão) reafirma a liberdade de expressão, que é plena e não deixa dúvidas de que um milhão de vezes isso não pode existir", afirmou à BBC Brasil.

O biógrafo conta ter sofrido ameaças de censura à sua obra antes mesmo de finalizá-la, quando uma das ex-esposas de Raul Seixas disse que iria processá-lo, caso ele publicasse o livro.

"O livro não está nem publicado, e a pessoa se sente no direito de ameaçar o autor. É de uma violência absurda. Biógrafos estão sendo tratados como bandidos", reiterou o jornalista. Para ele, a decisão no STF reafirmou o "óbvio" e só há um receio a ser considerado.

"Existe um clima de criminalização da biografia. Eles aprovaram agora, mas já está se falando na 'censura a posteriori'. Agora vão ficar lendo vírgula por vírgula para processar o biógrafo a posteriori? A Constituição já garante direitos a reparação, danos morais, então não precisa reforçar mais isso agora depois da publicação."

Os biografados, porém, defendem que os artigos da lei derrubados pelo STF nesta quarta-feira asseguravam o direito à privacidade.

Responsável pelo caso mais polêmico até hoje, o advogado de Roberto Carlos, Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, participou do julgamento para argumentar a favor do veto às biografias não autorizadas ─ a obra que narra a vida do cantor, Roberto Carlos em Detalhes, escrita por Paulo César de Araújo, foi proibida de circular em 2006, pouco tempo depois de publicada.

"Falaram em censura. Mas a única censura que está aqui é ao cidadão que vê sua intimidade atacada, uma censura para que ele não procure o Judiciário. Não para exercer uma decisão prévia, mas para depois da publicação do livro", afirmou.

Ministra Carmen Lúcia, relatora do caso, votou contra a necessidade de autorização prévia para publicação de biografia

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Legenda da foto, Ministra Carmen Lúcia, relatora do caso, votou contra a necessidade de autorização prévia para publicação de biografia

Terminada a sessão, a ata deverá sair até segunda-feira no Diário de Justiça da União. A decisão vale apenas para novas biografias que surjam a partir desta data ou que estejam com julgamento em andamento e não retoma casos já julgados - como da biografia de Roberto Carlos. O Supremo reiterou que em caso de calúnia, difamação ou injúria, o biógrafo responderá por isso na Justiça.

Autor da biografia de Roberto Carlos, Paulo César Araújo acompanhou a votação no plenário do Supremo e já disse que deverá lançar uma nova versão do livro sobre a vida do cantor.

"Meu livro voltará e voltará atualizado. Roberto Carlos em Detalhes foi publicado em 2006. Roberto Carlos, inclusive, não tinha feito a música 'Esse Cara Sou Eu'. Tem fatos novos", disse.