Evo assume com desafio de manter crescimento apesar de baixa do gás

Boliviana assiste a entrevista de Evo Morales, em 19 de janeiro (AP)

Crédito, AP

Legenda da foto, Queda nos preços internacionais do gás e do petróleo têm impacto na economia boliviana
    • Author, Marcia Carmo
    • Role, De Buenos Aires, para a BBC Brasil

Em entrevista exclusiva à BBC Brasil, o ministro da Economia e das Finanças da Bolívia, Luis Arce, disse que o país tem sua própria "receita" econômica e que a expansão "não será afetada" apesar das quedas nos preços internacionais do petróleo e do gás.

O gás é um dos principais componentes da economia boliviana, representando 35% das exportações.

No ano passado, a Bolívia cresceu 5%, de acordo com a Cepal (Comissão Econômica para América Latina e Caribe), o maior índice da América do Sul, e 5,5%, segundo o governo boliviano.

Esse crescimento é bem acima da média regional de 1,1% em 2014 e do 0,2% registrado pela economia do Brasil segundo as projeções da Cepal.

O desempenho econômico foi "fator decisivo" para os mais de 60% dos votos que o presidente Evo Morales recebeu em outubro passado, com vitória em oito dos nove Departamentos (Estados) bolivianos, incluindo o reduto opositor Santa Cruz de la Sierra, dizem analistas ouvidos pela reportagem.

Morales toma posse para o seu terceiro mandato nesta quinta-feira, com a presença de vários líderes políticos internacionais, entre eles a presidente Dilma Rousseff, que visita o país pela primeira vez desde que assumiu o Palácio do Planalto em 2011.

Primeiro indígena a chegar ao Palácio presidencial Quemado, em La Paz, Evo tem mandato até 2020, completando 14 anos na Presidência.

Ele governa em meio à queda nos preços internacionais do petróleo e do gás e com o desafio de, apesar disso, manter a economia boliviana em seu ritmo de expansão acima de 4% anual – índice que foi registrado em quase dez anos, segundo dados oficiais do país.

Colchão e desafios

Por telefone, o ministro da Economia, Luis Arce, lembrou que o país já enfrentou outro período de queda no preço do petróleo em 2009.

"Foi nosso primeiro teste, quando o preço do barril passou de cerca de US$ 145 para US$ 30. Ou seja, uma redução de US$ 115. Temos conseguido crescer apesar da volatilidade do petróleo", disse Arce.

Ele afirmou que aquela queda afetou todos os países da América Latina mas que em 2009, "pela primeira vez", a Bolívia contou com o maior crescimento da região, sem ter sido influenciada pelo desempenho de outras economias como Brasil e Argentina.

Ele afirmou que como a Bolívia exporta gás (ao Brasil e à Argentina, e os preços tendem a cair, segundo o ministro e especialistas) e importa gasolina e diesel - vendidos a preços subsidiados pelo governo no mercado interno -, acaba ocorrendo um menor impacto quando ocorre a queda no preço do petróleo no mercado mundial. "Temos um efeito negativo, mas também um efeito positivo", disse.

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Segundo ele, a Bolívia soube aproveitar a alta dos últimos anos nos preços das commodities (o país também exporta minério, grãos e outros produtos), "com disciplina nos gastos, cuidando da inflação, do emprego, com aumento salarial acima da inflação e com distribuição de renda".

Arce diz que Bolívia soube aproveitar alta das commodities 'com disciplina nos gastos'

Crédito, ABI

Legenda da foto, Arce diz que Bolívia soube aproveitar alta das commodities 'com disciplina nos gastos'

"Estamos aumentando a demanda interna e os investimentos no país, e distribuir a riqueza e reduzir a pobreza são nossos focos", disse.

Nos últimos anos, o país aumentou suas reservas internacionais, e segundo organismos internacionais, conta com "colchão" suficiente para períodos adversos, como afirmou a Cepal.

Mas o economista boliviano Javier Gomez, do Centro de Estudos para o Desenvolvimento trabalhista e Agrário (CEDLA), disse que os desdobramentos da queda do petróleo ainda podem bater à porta da economia boliviana.

"O efeito desta queda no preço do petróleo não seria sentido agora, mas a partir do ano que vem, se os preços não voltarem a subir", disse Gomez.

Segundo ele, a economia boliviana melhorou, mas ainda tem muitos desafios, como os "empregos precários". Por isso, "muitos trabalhadores bolivianos optam por trabalhar no Brasil e em outros países onde, apesar da vida dura, ganham mais".

O ministro Arce admitiu que a Bolívia tem muito a fazer, mas que avançou nos últimos anos, principalmente na área social.

Segundo ele, a "receita boliviana" consiste também em "evitar os ajustes, os modelos neoliberais e, principalmente, reduzir a desigualdade social e estimular o consumo interno".

Assim, disse, nos últimos anos, a Bolívia "tirou 2 milhões de pessoas da pobreza extrema" e melhorou seu índice Gini, que mede a desigualdade. "Em 2008, a diferença (de renda per capita) entre os 10% mais ricos do país e os 10% mais pobres era de 128 vezes. E agora esta brecha é de 42 vezes".

Brasil

"Questionado sobre as medidas aplicadas pelo ministro da Fazenda brasileiro, Joaquim Levy, para reduzir gastos, tentar frear a inflação e fazer a economia brasileira voltar a crescer, ele respondeu: "É preciso esperar para ver as próximas medidas dele. Eu não o conheço, mas também não conhecia o (ex-ministro Guido) Mantega, de quem acabei amigo".

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Mas insistiu que, na sua visão, o melhor é "evitar" medidas "neoliberais". E destacou: "A nova equipe econômica brasileira tem vários desafios para fazer o Brasil crescer. Do meu ponto de vista, combater a inflação é importante, mas também é importante o desenvolvimento humano. Mas acho que nesse momento de conjuntura internacional complicada, para nós, aqui na Bolívia, o principal é a distribuição de renda. E nesse sentido o Brasil poderia olhar o humilde exemplo da Bolívia".

Ele afirmou que a economia boliviana tem diversificado sua produção e que espera que também seja diversificada a relação com o Brasil – além de gás, o Brasil importa feijão, quinoa e outros produtos do país.

País com cerca de 10 milhões de habitantes, a Bolívia tem vivido, para seu histórico de interrupções políticas e democráticas, um "longo período de estabilidade", observam diferentes historiadores.

Os resultados da economia da Bolívia "têm aumentado a autoestima dos bolivianos", de acordo com o analista político José Luiz Galvez, da Equipos Mori.