Subsidiar chuveiros eficientes pode ser alternativa para SP, diz especialista

Mulher com galão de água em Nova Déli, Índia (AP)

Crédito, AP

Legenda da foto, Para especialista de Columbia, ineficiências e vazamentos prejudicam abastecimento de água
    • Author, Paula Adamo Idoeta
    • Role, Da BBC Brasil em São Paulo

O mundo tem água o bastante no longo prazo, mas precisa aprender a usar o recurso de forma mais eficaz na época da bonança para que ele não falte tanto na época da seca - como a grave crise hídrica vivida atualmente por São Paulo, opina Upmanu Lall, diretor do Columbia Water Center, centro de estudos da universidade de mesmo nome em Nova York voltado exclusivamente para questões ligadas ao gerenciamento de recursos hídricios.

O consumo da água cresce junto com o aumento populacional, mas também é elevado por conta de ineficiências: por exemplo, excesso de uso da água na agricultura, vazamentos e uso de aparelhos que prejudicam esforços de economia, explica Lall.

O especialista conversou por telefone com a BBC Brasil para falar sobre crises hídricas e alternativas para combatê-las:

BBC Brasil - Estamos vivendo uma grave falta de água em partes do Sudeste do Brasil. Existe água suficiente no mundo?

Upmanu Lall - A longo prazo, temos água o suficiente no mundo e não estamos usando ela corretamente. Mas a situação em São Paulo é de uma seca. Sempre há, em quase todos os lugares do mundo, um período de seca e de falta de água. Então são coisas separadas: em média, temos sim água suficiente (para toda a população global); em segundo lugar, a questão é como gerenciá-la nos períodos de seca.

Sou mais familiarizado com o Nordeste do Brasil, mas sei que a região de São Paulo tem bastante água, e isso pode ser um fator pelo qual, quando há seca, as pessoas não estejam muito preparadas para enfrentá-la, para fazer racionamento ou adotar medidas que permitam maior conservação.

No mundo, a maior usuária de água é a agricultura. Estima-se que use de 70% a 90% de toda a água, sendo que a eficiência desse uso é de apenas 10% a 15%. Muita água é evaporada do solo, então não pode ser reaproveitada.

Muitos campos agrícolas não controlam quanta água usam. Há duas formas principais de mudar isso: aplicar a água apenas quando a planta realmente precisa ser regada, por meio de sensores – que estão cada vez mais baratos, cerca de US$ 30 por hectare – ou usar vaporizadores tecnológicos.

<bold><link type="page"><caption> Leia mais: Banho de caneca, filas na madrugada e até roubo de água: como é viver na seca</caption><url href="http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/11/141106_seca_itu_personagens_rm.shtml" platform="highweb"/></link></bold>

Ambos ajudam a reduzir a quantidade de água usada em 30% ou mais, e por um custo não muito alto.

Em alguns lugares, se você aumentar a eficiência da água na agricultura para 20%, você já está dobrando a quantidade de água economizada para outras atividades.

BBC Brasil - E nas grandes cidades, existe uma cultura de desperdício de água?

Upmanu Lall - Sim, mas talvez ineficiência seja uma palavra mais adequada do que desperdício. Basicamente, para melhorar o uso da água é preciso, primeiro, reduzir a quantidade de vazamentos do sistema. E isso pode ser muito significativo. Nova York, por exemplo, costumava perder 40% de sua água por causa de vazamentos e reduziu para menos de 25%.

Em segundo lugar, nossos aparelhos podem ser melhorados. Também em Nova York, uma das formas usadas para reduzir drasticamente o consumo foi via privadas e chuveiros de baixo fluxo. Muitos desses chuveiros são bem eficazes porque reduzem a quantidade de água durante o banho sem que o usuário perceba essa redução.

Mas é bom ter em mente outro exemplo: na baía de Tampa, na Flórida, (as autoridades) não quiseram adotar medidas de conservação por motivos políticos, então construíram uma enorme planta de dessalinização de água. Mas, ao começarem a operá-la, viram que seu funcionamento seria muito caro e tiveram de cobrar a conta dos usuários.

<bold><link type="page"><caption> Leia mais: Conheça seis alternativas para a crise da água em seis cidades do mundo</caption><url href="http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/11/141105_crise_agua_6cidades_pai.shtml" platform="highweb"/></link></bold>

Os usuários descobriram que teria sido mais barato economizar água e pensar no processo desde o começo. Se eles tivessem pensado, não teriam construído a planta de dessalinização, que agora é usada apenas parcialmente. Virou um custo enorme. E as medidas de conservação tiveram, no fim, que ser adotadas.

BBC Brasil - Em geral, precisamos mudar nosso relacionamento com a água?

Upmanu Lall - Com certeza. O que vi no Nordeste do Brasil, por exemplo, é que (apesar da pouca quantidade de água), hotéis gastavam muito com fontes ornamentais de água, um uso que obviamente poderia ser dispensado.

Claro que se você aumentar os custos do suprimento da água, as pessoas vão responder (gastando menos). Mas acho que é necessária uma mensagem educativa positiva: de que se você for um usuário responsável, não sofrerá tanto em tempos de seca.

Em um lugar como São Paulo e Rio, em geral há recursos hídricos suficientes se houver um gerenciamento correto. (Autoridades) devem pensar em que investimentos podem fazer para desenvolver novas infraestruturas (de captação) e manter a atual cultura de consumo ou, em vez disso, para reduzir o consumo per capita mantendo o mesmo nível do serviço.

Suspeito que a segunda opção seria mais barata. Nova York, por exemplo, aumentou o preço cobrado sobre o consumo de água, mas subsidiou a compra de chuveiros e privadas eficientes. Assim, o gasto total do consumidor não subiu, mas seu consumo de água caiu.

Um indivíduo comum é capaz de reduzir em 30% ou 40% da água que consome.