'Formação no Brasil é incompleta', diz casal de médicos radicado na França

Crédito, Arquivo Pessoal
- Author, Daniela Fernandes
- Role, De Paris para a BBC Brasil
Radicado na França desde 2007, o casal de médicos brasileiros Fabiano e Simone Perdigão Cotta afirma que as maiores diferenças entre os sistemas de saúde dos dois países estão na formação "mais completa" dos médicos franceses e nos salários superiores pagos pelos hospitais públicos do país europeu, o que permite que os profissionais de saúde dediquem mais tempo aos pacientes e não precisem se desdobrar entre diversos empregos.
O cirurgião especializado em transplantes de fígado e a ginecologista deixaram Belo Horizonte em 2004 para fazer especialização na França. Após o fim do curso e depois de um breve retorno ao Brasil, no entanto, Fabiano Cotta recebeu uma proposta para trabalhar no sistema de saúde público francês, o que fez com que ele e Simone se estabelecessem definitivamente em Paris há cerca de sete anos.
Embora já tivesse experiência em hospitais públicos de Minas Gerais, para poder exercer a profissão na França Simone teve que voltar a ser estudante, cursando cinco anos de residência médica (obrigatório a todos os profissionais do país) e submentendo-se a um teste para validar seu diploma em Medicina.
Atualmente trabalhando no Institut Mutualiste Montsouris, um hospital privado sem fins lucrativos que aplica as mesmas regras e tarifas da rede pública, ela afirma que a exigência de um número maior de anos de especialização ilustra as diferenças entre as formações médicas no Brasil e na França.
Formação
Na opinião do casal, a formação dos profissionais de saúde no Brasil é "incompleta" em comparação com a da França.
Segundo eles, embora a duração do curso de Medicina seja a mesma nos dois países, na França, para obter o diploma de especialização são necessários cinco anos de residência, com a possibilidade de mais quatro anos de extensão.
"No Brasil, a residência é muito curta e incompleta", diz Simone, explicando que um médico brasileiro normalmente tem 2 ou 3 anos de treinamento após a faculdade.

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Para eles, as diferenças na formação entre os médicos dos dois países acabam por se refletir no atendimento aos pacientes, já que os profissionais franceses começam suas carreiras com muito mais experiência.
"Os pacientes na França são mais bem atendidos em urgências", diz Simone, especialista em técnicas de fertilidade.
"Os residentes, que geramente realizam os plantões, têm formação mais longa e são assessorados por um responsável com pelo menos oito anos de experiência, enquanto no Brasil os residentes têm menos anos de estudos e o chefe é um médico que acabou de se formar", diz a médica.
Médicos e professores entrevistados pela BBC Brasil consideram que o currículo das faculdades de medicina brasileira é avançado, mas que falta preparo aos alunos para lidar com pacientes, especialmente em locais onde há menos acesso à tecnologia para diagnóstico. Muitos deles defendem que a residência seja obrigatória para os profissionais ao sair da universidade.
Atualmente, médicos podem atuar como clínicos gerais quando saem das universidades brasileiras e podem se tornar especialistas fazendo uma residência ou prestanto uma prova de título.
"A faculdade dura seis anos, mas nós sabemos que esses seis anos não são suficientes para formar a contento um generalista que tenha condição de ser um clínico resolutivo nas unidades básicas de saúde", disse à BBC Brasil Rodrigo Lima, diretor da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC).
"O que faculdade de medicina forma é um profissional com conhecimentos gerais nas áreas básicas, que não é suficiente para a atuação em nenhuma especialidade. É necessário que ele passe por uma residência que o permita aprofundar os conhecimentos sobre a área que escolher."
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Salários
Outra diferença importante entre os dois países apontada pelo casal está na remuneração dos profissionais de saúde.
Enquanto no Brasil é comum que médicos tenham que se desdobrar entre vários trabalhos para fechar as contas, na França, um médico pode ter um padrão de vida "correto" com apenas um emprego na rede pública, afirma o casal.
"No Brasil, eu era obrigado a ter vários empregos porque não dava para viver com um só. Ficava cansado e estressado e isso refletia na qualidade do trabalho", diz Fabiano Perdigão Cotta, que trabalha no hospital público Saint-Antoine, em Paris.
Dizendo-se "um defensor do sistema público de saúde", antes de chegar à França, Cotta trabalhou por dez anos no hospital municipal Odilon Behrens, em Belo Horizonte, e também em um hospital particular.
"Na França, encontrei a possibilidade de trabalhar em um lugar só e dedicar todo o meu tempo aos pacientes. Não perco tempo com trânsito para ir a outros empregos. Se acontecer uma emergência, eu não estarei em outro lugar atendendo outras pessoas", afirma o cirurgião.
Médico concursado na França, ele conta que no Brasil trabalhava o dobro do tempo. "Quando faço um transplante na França, descanso no dia seguinte", diz o especialista.
"No Brasil, faltam muitos investimentos na área de saúde e também remuneração adequada e programas de carreira para os médicos do setor público", afirma.
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Mais Médicos

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O casal de especialistas critica o programa Mais Médicos adotado no Brasil.
Para Simone, "o governo deveria investir mais na formação dos médicos brasileiros em vez de recrutar profissionais de outros países".
"O governo brasileiro diz que médicos não querem trabalhar em determinadas regiões. Isso não é verdade. Se forem criadas boas condições de trabalho, com infraestrutura, equipamentos, e programa de carreira, certamente haverá candidatos para essas áreas", acrescenta Cotta.
"O governo ainda não viu isso e adotou medidas paliativas, de curto prazo, achando que basta colocar médicos e uma ambulância no local e o problema já está resolvido", diz o cirurgião.
























