Rio-2016 descarta plano B e fala em 'condições ideais' para vela

- Author, Renata Mendonça
- Role, Da BBC Brasil no Rio de Janeiro
Ainda faltam dois anos para o início da Olimpíada do Rio de Janeiro, mas pode-se dizer que o pontapé inicial para os Jogos foi dado neste domingo, com o primeiro evento-teste sendo realizado na cidade.
Com ele também vieram os primeiros questionamentos à organização olímpica. A Regata Internacional Aquece Rio teve início na Marina da Glória, mas o assunto que tomou conta da coletiva de imprensa de abertura do evento não foi a disputa entre os velejadores.
A poluição da Baía de Guanabara – que receberá as competições de vela na Olimpíada – foi o principal tema das perguntas dos jornalistas locais e internacionais, que cobravam dos organizadores um parecer sobre a situação da água.
A situação da baía tem sido um dos pontos de atrito entre os organizadores e o Comitê Olímpico Internacional. O Comitê Rio-2016 divulgou o resultado de uma análise feita nas águas da baía e comprovando que elas estão "no padrão brasileiro de qualidade" – que, segundo os organizadores, é muito próximo ao internacional.
Questionados sobre a possibilidade de terem um ‘plano B’ em caso de a baía não se mostrar um local "seguro" para a vela por conta da poluição da água, a organização dos Jogos foi ainda mais taxativo: "A gente não tem uma segunda alternativa, a alternativa é fazer aqui (na baía). Nós do Comitê Organizador e as autoridades do Rio trabalharemos pra funcionar aqui", garantiu Agberto Guimarães, diretor executivo de esportes do Rio-2016.
"Nós temos duas chances pra testar essa instalação e fazer com que isso funcione e nossa função é fazer funcionar. Vamos fazer com que os atletas estejam satisfeitos e que a competição seja realizada no maior nível técnico possível."
Condições ideais
Medalha de ouro na Olimpíada de Londres, o velejador australiano Mathew Belcher chegou a ‘cruzar’ com o corpo de um cachorro boiando nas águas da baía nesta semana durante seu treinamento para a Aquece Rio. Ele admitiu que as condições do local não são as ‘ideais’, mas mostrou otimismo para 2016.
"Muita coisa já foi dita sobre a poluição, a situação é a ideal? Não, não é. Mas espero que isso não interfira na regata. A organização está trabalhando para tirar as sacolas e outras coisas da água, nos últimos dias já estava um pouco melhor. Temos confiança que os organizadores vão resolver isso e nós, atletas, vamos poder nos preocupar apenas com a competição", afirmou.
No processo de candidatura para a Olimpíada de 2016, o comitê organizador, juntamente com o governo estadual (responsável pela despoluição da Baía de Guanabara), se comprometeu a tratar 80% do esgoto despejado na baía até 2016. Segundo eles, atualmente 49,5% já é tratado e a meta estipulada na candidatura será atingida nos próximos dois anos.
"Em 2009, quando nos candidatamos, apenas 12% do esgoto despejado na baía era tratado. Hoje temos 49,5% do esgoto tratado. Ainda temos bastante tempo para cumprir o prometido", disse Rodrigo Garcia, diretor de esportes do Rio-2016.
Lixo
Dono de cinco medalhas olímpicas, o ex-velejador brasileiro Torben Grael reconheceu que a dificuldade de realizar as provas de vela na Baía de Guanabara existe principalmente por causa do lixo flutuante.
"A água esses dias tem estado boa, o problema é que ela não está sempre igual. Quando tem mais chuva, vem mais lixo, que é o principal problema pra nós", disse à BBC Brasil.
"Lógico que a gente quer que a água esteja limpa, clara, mas pra nós o mais importante é a quantidade de detrito, esse detrito é que atrapalha a performance do barco. O risco das pessoas ficarem doentes por causa da qualidade da água acho que é bem pequeno, mas quando um saco plástico ou alguma outra coisa fica presa no barco, fica muito mais difícil, a resistência da água fica maior", esclareceu.
A reportagem da BBC Brasil fez um ‘tour’ pelas águas da Baía de Guanabara neste domingo para acompanhar o primeiro dia de regatas da Aquece Rio e pode constatar que o lixo flutuante é uma realidade no local. Garrafas de plástico, pacotes de salgadinho e até casca de banana ‘cruzaram’ o caminho do bote que levava a imprensa. Chama a atenção também a cor turva da água – "água de Coca-Cola", como o motorista do nosso barco caracterizou.
Torben não comentou a possibilidade de se realizar as regatas olímpicas em algum outro lugar – Búzios foi uma possibilidade levantada pelo irmão dele, o também velejador Lars Grael, dois meses atrás -, mas reiterou a importância da continuação do projeto de despoluição da baía para que ela apresente boas condições para a disputa.
"Acho que muita coisa pode ser feita pra atenuar os problemas, a começar por essa boca de esgoto gigante que tem dentro da Marina da Glória. Se a gente fizer o que está ao nosso alcance daqui até lá, vai ter sido muito menos do que a gente prometeu fazer em 2009, mas vai ser melhor do que nada", opinou.
O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, esteve na Marina da Glória para prestigiar o evento-teste e comentou o problema de poluição da Baía. Para ele, as condições da água já são adequadas para a Olimpíada – os locais de competição ficam mais próximos ao mar aberto, o que permite uma maior renovação da água, aumentando sua qualidade.
"Você tem um conjunto de investimentos que vêm sendo feitos há bastante tempo na baía, e essa área da competicao tem muita troca de água com o oceano, entao sao condições adequadas", disse.
"O problema da baía é um problema que tem que ser resolvido pra gente, nao pra Olimpíada. Pra Olimpíada eu tenho certeza que ja está resolvido, mas a gente tem que cuidar das outras áreas que têm demanda, aqui (área da competição) não tem mais demanda."
A Aquece Rio é o primeiro de uma série de 45 eventos-teste que o Rio de Janeiro se comprometeu a organizar até a Olimpíada de 2016. São mais de 300 atletas competindo em todas as 10 classes olímpicas. Segundo o Rio-2016, essa será uma grande oportunidade para colocar em prática o que o comitê tem planejado desde 2009.












