#SalaSocial: Ex-sem teto, 'brasileiro' vira mentor de moradores de rua na Espanha

Crédito, LIANA AGUIAR
- Author, Liana Aguiar
- Role, De Barcelona para a BBC Brasil
Os cartazes feitos por moradores de rua são muitas vezes ignorados, mas uma ONG de Barcelona decidiu inovar, tirando as mensagens manuscritas das ruas e levando-as para o mundo digital.
Homelessfonts é uma iniciativa da Arrels Fundació, que digitalizou as letras de pessoas que vivem ou viveram nas ruas para torná-las fontes tipográficas, que são então vendidas pela internet.
O dinheiro arrecadado é revertido em favor de moradores de rua de Barcelona, como o hispano-brasileiro Francisco Javier Cáceres Serrano, de 63 anos.
Ele é um dos 10 autores das fontes do projeto #Homelessfonts, que pretende chamar a atenção mundial para o problema dos sem-teto.
Em uma campanha nas redes sociais, a fundação vem utilizando a hashtag #ningúdormintalcarrer (#ninguémdormindonarua).
Letra certa
"A letra é muito pessoal, muito particular, tanto que ela é usada até em investigações criminais", observa Francisco. "Se a minha letra pode ajudar a divulgar a situação de pessoas que vivem na rua, acho que é muito positivo participar."
A história de Francisco, que se apresenta como "um catalão brasileiro", hoje serve de exemplo para os internautas que compram sua letra e conhecem sua história, assim como para jovens que frequentam as escolas onde ele ministra palestras sobre a vida e os riscos de "cair na rua".

Crédito, LIANA AGUIAR
Nascido em Barcelona, Francisco chegou ao Brasil com apenas dois anos de idade. Viveu 56 anos em São Paulo, onde teve três filhos.
Artista plástico e gráfico, ele conta que ali teve uma carreira artística e exemplifica que foi um dos fundadores da Associação dos Artistas Plásticos de Colagem de São Paulo, na década de 70.
Divorciado e "com os filhos criados", diz que decidiu vir a Barcelona motivado pela "vontade natural" de conhecer o lugar onde nasceu.
Mas o sonho de montar um ateliê na cidade natal foi frustrado logo na chegada, há cinco anos. Era a primeira vez que vinha ao país. Ele explica que a companhia aérea perdeu sua mala e em seguida foi roubado.
Sem documentos, sem dinheiro e sem a família por perto, enfrentou dificuldades e viveu nas ruas de Barcelona durante um ano e meio.
Solidariedade alheia
Francisco teve de recorrer à solidariedade de desconhecidos. "Dormia em uma loja, e o dono deixava. Até hoje ele é meu amigo", recorda.
"Ninguém sabia que eu vivia na rua. Aqui na Arrels, só souberam quando eu abri o jogo. Nunca andei carregado de coisas", conta.
"Também não permiti que meus filhos soubessem da minha situação, só falei quando saí da rua. Eles ficaram com muita raiva porque não contei. Mas se eu contasse, eles teriam vindo me buscar, e eu não queria voltar para o Brasil naquele momento", explica.
Com "espírito de artista", Francisco revela que se sentia atraído pela arte, a história, a arquitetura e a antiguidade da cidade: "Eu me sento em um parque aqui que é mais velho que o Brasil", diz, maravilhado.
"A Europa é uma velhinha que está agonizando. A nossa América é um bebê engatinhando. O futuro está lá. Mas aqui está a história, para a gente aprender e não repetir os mesmos erros", analisa.
"É claro que tenho saudade do Brasil", enfatiza Francisco, ao ser indagado pela BBC Brasil. "Lógico! Todo dia penso no Brasil. A vida lá é melhor que aqui, não no âmbito econômico, mas social. O brasileiro é mais solidário, mais amigo. É claro que tenho saudade do Brasil", enfatiza.
Aprendizado
Hoje Francisco vive em uma pensão e colabora com o departamento de comunicação da ONG. Daquela época difícil, ele afirma que aprendeu a ser mais humilde."Comecei a me preocupar mais com os outros. Eu venho de uma família de classe média alta, nunca imaginava viver uma situação dessas. Antes passava pela rua, se havia um mendigo eu nem olhava. Hoje eu olho e tento tirá-lo da rua", afirma.
"Foi uma experiência ruim e ao mesmo tempo positiva, porque me transformou em uma pessoa melhor. Hoje me preocupo com coisas e pessoas que nunca antes na minha vida prestei atenção", comenta.
Agora, ele aposta que iniciativas como a do #Homelessfonts podem ajudar a dar visibilidade à situação de pessoas sem lar.
"No grupo, havia quatro artistas. As pessoas pensam que os caras que estão na rua são ignorantes, burros. Eu conheci médico, advogado e economista que viveram na rua. Eu mesmo sou formado e vivi na rua. Pode acontecer com qualquer um. É muito mais fácil cair do que levantar", analisa Francisco.












