Manifestantes ucranianos nomeiam governo interino

Crédito, AP
O novo governo interino da Ucrânia foi anunciado nessa quarta-feira em Kiev, após a deposição do presidente Viktor Yanukovych, na semana passada.
A nomeação foi feita pelos opositores que vinham protestando no país: o chamado comitê de Maidan, principal acampamento dos protestos na capital ucraniana, nomeou Arseniy Yatsenyuk como primeiro-ministro. O gabinete inclui ainda vários líderes ativistas.
A escolha do novo premiê ocorre horas após grupos de manifestantes pró e contra a influência de Moscou entrarem em confronto na frente do Parlamento de Simferopol, capital administrativa da Crimeia, no sul do país.
Milhares de pessoas foram para a frente do edifício por conta de rumores de que a separação da região seria discutida na sessão desta quarta-feira. Durante o confronto, manifestantes anti-Rússia chegaram a invadir o Parlamento.
'Bem-vindo ao inferno'
O conselho de Maidan - formado por grupos de manifestantes e ativistas - propôs também que Arseniy Yatsenyuk, líder do Partido Fatherland, comande o gabinete até as eleições presidenciais, marcadas para 25 de maio.
Yatsenyuk, ex-presidente do Parlamento e ex-chanceler, foi um dos principais nomes da oposição durante os protestos de rua que eclodiram em novembro passado.
"Teremos de tomar passos extremamente impopulares, já que o governo prévio era tão corrupto que o país está em uma situação financeira de desespero", disse Yatsenyuk ao serviço ucraniano da BBC. "Estamos à beira do desastre, e este governo é de suicidas políticos. Então, bem-vindo ao inferno!"
Lista de procurados
Em meio a temores de uma moratória na Ucrânia, os EUA ofereceram garantias de empréstimos de até US$ 1 bilhão ao país.
O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, disse que as garantias ajudariam a estabilizar a economia ucraniana. E advertiu a Rússia de que seria um "grave erro" promover algum tipo de intervenção militar na Ucrânia.
Também na quarta-feira, a Rússia ordenou que suas tropas nas áreas central e oriental do país, próximas da fronteira da Ucrânia, fizessem treinamentos para testar se estão prontas para eventual combate.
Ao mesmo tempo, o presidente destituído Yanukovych, que fugiu do país, foi colocado em uma lista internacional de procurados.
Seu paradeiro é incerto. Ele é acusado de estar por trás das mortes de mais de cem manifestantes em confrontos com a polícia, durante protestos na semana passada em Kiev.
Crimeia
Milhares de pessoas se envolveram nos embates desta quarta em Simferopol, que ocorreram antes de uma sessão legislativa na qual a situação da Crimeia seria discutida.
No entanto, o presidente do Parlamento, Volodymir Konstantinov, disse depois que uma eventual separação da Crimeia, que hoje tem autonomia em relação à Ucrânia, não estaria em debate.
Tártaros da Crimeia entoavam "Glória à Ucrânia!", enquanto os manifestantes pró-Moscou respondiam gritando "Rússia!".
O corpo de um idoso foi encontrado em meio à multidão, segundo comunicado do ministro da Saúde da Crimeia. Como o homem não identificado não tinha sinais de ferimentos, acredita-se que ele tenha morrido de ataque cardíaco.
A Crimeia, onde grupos étnicos russos são maioria, foi transferida da Rússia para a Ucrânia em 1954.
Membros de grupos étnicos ucranianos leais a Kiev e tártaros muçulmanos, cuja animosidade em relação à Rússia vem desde as deportações promovidas por Joseph Stálin durante a Segunda Guerra Mundial, formaram uma aliança para se opor a qualquer movimento de devolução da região a Moscou.
'Séria ameaça'
O governo interino da Ucrânia expressou preocupação com o que chamou de "série ameaça" separatista gerada pela deposição de Yanukovych.
A Rússia vem considerando essa deposição uma violenta tomada de poder pela oposição do país, enquanto a maioria dos países da União Europeia apoia a mudança de governo.
Segundo o jornalista da BBC presente em Simferopol, Daniel Sandford, a violência na cidade ilustra a complexidade da situação da região, que piorou diante do vácuo de poder.
"Os crimenianos russos temem que o novo governo em Kiev represente uma ameaça a seus laços com a Rússia", afirmou Sandford.












