Europa lembra 20 anos de piquenique 'que derrubou Cortina de Ferro'

Húngaros, austríacos e alemães lembram, nesta quarta-feira, o 20º aniversário do evento conhecido como "Piquenique Pan-europeu", considerado um marco na abertura da chamada "Cortina de Ferro", que dividia os blocos comunista e capitalista na Europa.
A manifestação, que ocorreu na fronteira entre a Áustria e a Hungria, em 19 de agosto de 1989, abriu o caminho para a queda do Muro de Berlim, que aconteceu três meses depois.
Na ocasião, autoridades da Hungria comunista e da Áustria decidiram abrir simbolicamente a fronteira entre os dois países por algumas horas, para que os cidadãos pudessem realizar um piquenique conjunto.
Centenas de alemães orientais aproveitaram o momento para cruzar a fronteira em direção à Áustria, sem que os guardas húngaros oferecessem qualquer resistência.
A chanceler alemã, Angela Merkel, que cresceu na Alemanha Oriental, faz uma visita oficial à Hungria nesta quarta-feira para lembrar a data.
Merkel afirmou que, com a visita, quer agradecer os húngaros por sua “coragem e perspicácia”.
Consequências
Apesar das consequências que o evento teve para a política europeia e para a queda do bloco comunista, Laszlo Nagy, um dos organizadores do piquenique, afirmou que eles queriam apenas chamar a atenção para a divisão entre o leste e o ocidente, e que os resultados excederam suas expectativas.
“O bloco soviético era como um balão de ar sob pressão que precisava de apenas uma furada de agulha (para explodir), e nós estávamos segurando esta agulha”, disse.
“Honestamente, se não tivéssemos organizado o piquenique, algo teria acontecido duas semanas, três semanas depois, porque os políticos precisavam de um gatilho (para a abertura)”.
Abrindo os portões
O sistema soviético já havia começado a desmoronar à época do piquenique.
A Polônia havia acabado de eleger o primeiro premiê não-comunista em 40 anos e o primeiro-ministro reformista da Hungria, Miklos Nemeth, havia começado a desmantelar, meses antes, a cerca de segurança ao longo da fronteira com a Áustria devido a seus custos elevados.
A fronteira acabaria por ser aberta completamente em 11 de setembro, permitindo que cerca de 60 mil refugiados da Alemanha Oriental a cruzassem em direção ao ocidente.
Nada disso teria sido possível, no entanto, sem a aprovação tácita do líder da União Soviética, Mikhail Gorbachev.
Em março de 1989, quando Nemeth disse a Gorbachev que planejava destruir a cerca de arame farpado na fronteira com a Áustria, o líder soviético reagiu de maneira calma e disse que a segurança da fronteira não era problema dele.
Nemeth afirma que entendeu a declaração como um sinal verde para a abertura da fronteira, disse ele à BBC.
Um dos alemães orientais que cruzaram a fronteira foi Robert Breitner. Em uma entrevista à BBC, ele afirmou que aqueles eventos em 1989 mudaram sua vida.
“Esta terra (a Hungria) me trouxe a liberdade. De uma maneira simbólica, este país abriu as portas da liberdade, e por isso eu serei grato aos húngaros pelo resto da minha vida”, disse.












