'Invasão da Ucrânia pela Rússia é tão irracional que vai além da Guerra Fria', diz historiador

James Hershberg

Crédito, James Hershberg

Legenda da foto, Historiador James Hershberg é especialista em assuntos relacionados à Guerra Fria
    • Author, Gerardo Lissardy
    • Role, BBC News Mundo
  • Tempo de leitura: 8 min

O historiador americano James Hershberg observa várias semelhanças entre a Guerra Fria (1947-1989) e o que ocorre atualmente na invasão russa na Ucrânia. Mas também enxerga diferenças importantes.

Por isso, o professor de História e Relações Internacionais da Universidade George Washington, nos Estados Unidos, alerta que o conflito atual pode ser mais perigoso que o do passado.

"A ação do (presidente russo Vladimir) Putin é tão irracional e sua ameaça nuclear é tão provocativa que vai além do que aconteceu durante a Guerra Fria", diz Hershberg, que também é autor de várias publicações sobre a corrida armamentista nuclear.

Na entrevista a seguir, ele explica por que, "de certa forma, estamos em meio a uma segunda crise dos mísseis de Cuba", em alusão ao evento de 1962, o mais tenso da Guerra Fria, em que Estados Unidos e Rússia quase iniciaram uma guerra nuclear.

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BBC News Mundo - Estamos assistindo ao início de uma nova Guerra Fria?

James Hershberg - Claramente em alguns aspectos. Há importantes semelhanças, mas também há diferenças entre o que está começando e a antiga Guerra Fria.

Sobre as semelhanças, não há dúvidas de que a agressividade de Putin e da Rússia ao invadir a Ucrânia está estimulando uma reação do restante do mundo, em especial do Ocidente. Ou seja, da Europa e da América do Norte, muito comparável ao que ocorreu após a Segunda Guerra Mundial em resposta à agressividade soviética no Leste Europeu e no Oriente Médio.

Isso, combinado com o bloqueio de Berlin por Stalin (Joseph Stalin, ex-líder russo), foi o que estimulou a criação da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, aliança militar ocidental) em 1949. E como escrevi no artigo na revista Foreign Affairs, a ação de Putin está criando uma Otan mais forte, mais unificada e provavelmente maior que se aproximará de suas fronteiras.

Agora, uma diferença importante da Guerra Fria é que a União Soviética após a Segunda Guerra Mundial supostamente adotou uma ideologia do marxismo, leninismo, socialismo e comunismo, enquanto Putin defende nada além do poder russo. Portanto, não há apelo nas ideias que a Rússia representa além da própria Rússia.

E, claro, também existem outras diferenças (entre o conflito do passado e o atual).

BBC News Mundo - Alguns estudiosos argumentam que o novo enfrentamento entre Moscou e o Ocidente pode ser ainda mais perigoso e imprevisível que a Guerra Fria. Isso é possível?

Hershberg - É muito possível. Putin está fazendo até com que (o ex-líder soviético) Nikita Khrushchev pareça relativamente estável e racional quando comparado a ele. A ação de Putin é tão irracional e sua ameaça nuclear é tão provocativa que vai além do que aconteceu durante a Guerra Fria.

Além disso, a tecnologia oferece mais oportunidades de ação internacional e até global ao alcance de Moscou, sobretudo por meio da internet.

Até Stalin foi relativamente cauteloso. Ele cometeu erros como autorizar o bloqueio de Berlim (quando os soviéticos impediram o envio de suprimentos à cidade, que se localizava na parte da Alemanha dominada pela URSS, antes da construção do muro, entre 1948 e 1949) ou autorizar que a Coreia do Norte atacasse a Coreia do Sul, mas tomou muito cuidado para não provocar uma guerra com o Ocidente, em especial com os Estados Unidos, que têm uma inegável superioridade nuclear.

Não está claro o quanto Putin ficará desesperado. Porque ele não vai admitir a derrota, que seria uma completa humilhação para ele, por isso é muito possível que ele possa intensificar (o conflito).

Vladimir Putin, presidente da Rússia

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Vladimir Putin repete velhos erros da União Soviética, afirma Hershberg

BBC News Mundo - O Sr. é um especialista na crise dos mísseis de Cuba (quando mísseis nucleares foram colocados na ilha pela União Soviética por temor de uma invasão americana). E acabou de mencionar Khrushchev. O Sr. acredita que as tensões entre Washington e Moscou atualmente estão em seu nível mais alto desde aquela época, em 1962?

Hershberg - Sim. Quero dizer, estamos em meio a uma segunda crise de mísseis de Cuba, de certa forma.

Agora, uma coisa importante é que Joe Biden (presidente dos Estados Unidos) e a Otan deixaram muito claro que não vão participar diretamente de ações militares na Ucrânia.

Mas também está claro que eles vão fornecer e estão fornecendo armas ao governo legítimo da Ucrânia.

Se Putin ficar desesperado e fracassar em uma guerra prolongada, ninguém pode dizer se ele usará a força, por exemplo, ao longo da fronteira entre a Ucrânia e países da Otan, como Polônia e Romênia, por onde as armas podem ser infiltradas.

Sobre 1962, embora Khrushchev tenha cometido um erro claro de provocação ao enviar armas nucleares a Cuba, ele agiu de forma mais ou menos coerente, quando as armas foram descobertas, para tentar reduzir os riscos e evitar uma guerra nuclear, embora o perigo de uma escalada acidental para uma guerra nuclear tenha existido na crise dos mísseis.

BBC News Mundo - Do ponto de vista da Rússia, a expansão da Otan para o Leste Europeu após o fim da Guerra Fria prejudicou a relação de Moscou com o Ocidente. Isso poderia ser evitado?

Hershberg - É difícil dizer. Curiosamente, no começo dos anos 2000, logo após se tornar líder da Rússia, substituindo Boris Yeltsin, Putin fez uma série de comentários nos quais aceitava a expansão da Otan como legítima. Ele até disse que caberia à Ucrânia decidir se queria se juntar à Otan.

É difícil fazer um julgamento completamente negativo, porque a Hungria e a antiga Tchecoslováquia haviam sido invadidas pela União Soviética. A Polônia havia sido ameaçada de invasão e a União Soviética pressionou o governo comunista em Varsóvia para suprimir o movimento sindical Solidariedade em 1981.

E os países bálticos foram incorporados à força na União Soviética em 1940, após o pacto Hitler-Stalin.

Os russos têm razão quando dizem que George H.W. Bush prometeu a Mikhail Gorbachev em 1990 que a Otan não se expandiria para o Leste. Mas também é correto afirmar que os países que pediram para entrar na Otan tinham razões históricas para que se sentissem ameaçados por terem a Rússia como vizinha.

Então, era uma escolha difícil em qualquer direção. Você provoca a Rússia ou nega proteção aos países que foram vítimas de Moscou durante os tempos soviéticos? Trata-se de um dilema difícil.

Nikita Khrushchev

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Ex-dirigente soviético Nikita Khrushchev poderia parecer "ator racional" comparado a Putin, avalia Hershberg

BBC News Mundo - Em seu artigo na revista Foreign Affairs, o Sr. argumenta que Putin agora repete os erros soviéticos. Por quê?

Hershberg - Não está claro. Menciono Putin dizendo que em 2000 admitiu que a invasão soviética da Hungria em 1956 e da Tchecoslováquia em 1968 foram erros graves que contribuíram para o crescimento da "russofobia" no Leste da Europa.

E ele tem de estar ciente de que sua ação contra a Ucrânia vai aprofundar a "russofobia" em todo o Leste da Europa, assim como na periferia russa.

Por isso há quem suspeite que o verdadeiro objetivo de Putin poderia não ter tanto a ver com a Otan, mas com a Ucrânia voltando sua orientação social, cultural e econômica para o Oeste, para a Europa, e se afastando da Rússia desde 2014 com a Revolução de Maidan; Putin, por seu legado, queria envolver a Ucrânia como parte do Império Russo.

Não está claro quanto o seu motivo é defensivo e quanto agressivo, querendo que o retorno do Império Russo, incorporando Belarus, a Ucrânia e possivelmente mais países.

É nesse ponto que a coisa se torna muito perigosa, porque há minorias russas em muitos dos países que faziam parte da União Soviética, que agora são países independentes que cercam a Rússia, não apenas nos países bálticos, mas também Ásia Central, Moldávia e Cáucaso.

Rússia

Crédito, AFP

BBC News Mundo - O Sr. também mencionou momentos da Guerra Fria que considera que foram erros soviéticos, como a invasão da Coreia do Sul pela Coreia do Norte, levando o Ocidente a aceitar que a Alemanha Ocidental se armasse. Ou a invasão da Hungria em 1956, que "lembrou à aliança (Otan) por que ela existia". Ou a guerra no Afeganistão, que enfraqueceu a União Soviética. O Sr. vê resultados semelhantes agora?

Hershberg - É muito cedo para prever resultados semelhantes. Mas há algumas dinâmicas comparáveis, porque a invasão da Ucrânia fortaleceu a Otan quando ela estava muito enfraquecida após o seu fracasso no Afeganistão e o impacto da presidência de quatro anos de Donald Trump nos Estados Unidos, que odiava a Otan.

Putin tornou a Otan muito mais eficaz em suas ações e provavelmente fará com que ela cresça, já que pelo menos um ou mais países neutros desde o fim da Segunda Guerra Mundial agora podem se sentir suficientemente ameaçados a ponto de ingressar na Otan. A Finlândia é o exemplo mais importante disso.

De muitas maneiras, isso seria uma represália perfeita para demonstrar à Rússia o quanto a ação de Putin foi contraproducente.

Quanto ao Afeganistão, se essa guerra se transformar em uma ocupação russa da Ucrânia, certamente haverá uma insurgência ucraniana que pode durar anos.

E assim como a maior operação da história da CIA (agência de inteligência dos EUA) foi enviar armas e infiltrar combatentes mujahideen no Afeganistão, com a ajuda de outros países, essa poderia ser a dinâmica da infiltração de combatentes e armas pelos países da Otan que fazem fronteira com a Ucrânia, como Polônia e Romênia.

O incrível espírito de resistência que os ucranianos estão demonstrando indica que a missão russa de derrotar a Ucrânia militarmente é extremamente difícil.

BBC Mundo - A Guerra Fria certamente foi muito intensa em lugares como a América Latina, onde houve confrontos armados entre forças apoiadas por ambos os lados…

Hershberg - Essa é uma diferença interessante, porque Putin não defende nada além do poder da Rússia, enquanto durante a Guerra Fria, a União Soviética, e depois a República Popular da China de Mao Tse Tung, apoiaram a causa da revolução, enviaram armas aos movimentos anti-imperialistas e anticolonialistas na África, Ásia e, mesmo que em um grau limitado, tentaram fazer isso na América Latina.

Não vai haver movimentos pró-Putin ou pró-russos que busquem o poder em nenhum outro lugar do mundo. Pode haver algumas circunstâncias limitadas como na Coreia do Norte ou no Irã, onde a Rússia tem um relacionamento baseado em realidades de poder, mas não há dimensão ideológica nisso.

Portanto, não vejo a dinâmica da Guerra Fria surgindo agora em conflitos menores em diferentes continentes, como nos quais Estados Unidos e a União Soviética apoiavam lados opostos.

Rússia

Crédito, Getty Images

BBC Mundo - Qual será o papel da China em tudo isso?

Hershberg - Essa é uma pergunta muito interessante porque a China está tentando um equilíbrio: não quer apoiar abertamente a invasão e enfrentar os países da Europa e da América do Norte a ponto de colocar em perigo seu comércio com eles, mas também não está disposta a se opor diretamente à invasão de Putin ou a apoiar as sanções contra a Rússia (que têm sido aplicadas por diversos países).

Então, eles tentam ficar dos dois lados. Mas, de certa forma, e isso é mais especulativo, muitas pessoas suspeitam que se Putin for capaz de invadir e tomar a Ucrânia, isso poderia de alguma maneira animar o (presidente chinês) Xi Jinping e os chineses a invadir e finalmente tomar Taiwan.

Mas, inversamente, a ferocidade da resistência ucraniana e a intensidade das sanções contra a Rússia pelo restante do mundo podem ter um efeito desestimulante em Pequim.

Se os chineses estavam pensando seriamente em usar a força para tentar conquistar ou reconquistar Taiwan, creio que agora é menos provável que façam isso porque estão vendo como a aventura de Putin se tornou custosa.

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