Minoria étnica perseguida teme aproximação da China e do Talebã

Crédito, AFP
- Author, Joel Gunter
- Role, BBC News
- Tempo de leitura: 6 min
No início desta semana, após a tomada do poder pelo Talebã no Afeganistão, um pequeno grupo se reuniu discretamente em uma casa na cidade de Mazar-i-Sharif, no norte do país. Os convidados chegaram sozinhos ou em duplas, evitando chamar atenção.
Eles eram anciãos da comunidade uigur da cidade, que se reuniram para tratar de um único tema: a fuga. Os uigures são um grupo étnico muçulmano cuja língua é próxima do turco e que está fortemente presente na China e em países da Ásia Central.
Naquele encontro, um homem de meia-idade começou a ligar para ativistas na Turquia, em busca de ajuda. Uma dessas pessoas não respondeu; outra atendeu e disse que faria tudo o que pudesse por eles, embora naquele momento não houvesse soluções reais.
O grupo fez ainda mais ligações, mas as tentativas foram desanimadoras e sem resultados. Com o anoitecer, os convidados foram embora — com o mesmo cuidado da chegada, mas ainda mais desanimados do que antes.
"Não há ninguém para nos ajudar agora", disse um dos participantes da reunião à BBC. "Estamos apavorados. Todo mundo está apavorado."
Como milhões de outros afegãos, os uigures do país tiveram a vida virada de cabeça para baixo na última semana, colocando à frente um futuro incerto e possivelmente pior sob o Talebã. Mas este grupo étnico teme ainda mais uma coisa: a aproximação da China do Afeganistão e, particularmente, do Talebã.
Existem cerca de 12 milhões de uigures na China, concentrados na província de Xinjiang, no noroeste do país — fazendo fronteira com o Afeganistão e o Paquistão.
Desde 2017, esta e outras minorias muçulmanas foram submetidas na China a uma campanha estatal de detenção em massa, vigilância, campos de trabalho forçado e, de acordo com alguns relatos, esterilização, tortura e estupro. A China nega todas as acusações de abusos dos direitos humanos em Xinjiang e diz que seus campos são centros vocacionais projetados para combater o extremismo.
Muitos dos estimados 2 mil uigures vivendo no Afeganistão são imigrantes de segunda geração cujos pais fugiram da China há muitas décadas, muito antes do início da atual repressão estatal por Pequim.
Mas suas carteiras de identidade afegãs ainda têm as anotações "uigur" ou "refugiado chinês", e eles temem que, se a China se aproveitar do vácuo de poder deixado pelos Estados Unidos no Afeganistão, eles possam ficar ainda mais vulneráveis.

Crédito, Getty
'Somos mortos-vivos'
"Esse é o maior medo dos uigures no Afeganistão hoje", disse um homem vivendo na capital afegã, Cabul, onde ele e sua família não saíram de casa desde que o Talebã tomou o poder. "Tememos que o Talebã ajude a China a controlar nossos passos ou que nos prenda e nos entregue à China."
Todos os uigures no Afeganistão que falaram com a BBC disseram que estão ficando em casa e comunicando-se apenas ocasionalmente por telefone.
"Somos como mortos-vivos agora", disse outro uigur em Cabul. "Com muito medo até de sair."
Um pai que vive em Mazar-i-Sharif descreveu como está sendo se esconder em casa com sua esposa, filhos e parentes.
"Já se passaram 10 dias que estamos presos em casa, nossas vidas estão em suspenso", disse ele. "Está escrito claramente em nossas carteiras de identidade que somos uigures."
Nos últimos anos, o Estado chinês ampliou sua repressão aos uigures para além de suas fronteiras, usando táticas agressivas para silenciar pessoas ou, em alguns casos, prendê-las e levá-las de volta a Xinjiang.
Dados publicados em junho pelo Projeto Direitos Humanos Uigur (Uyghur Human Rights Project) sugerem que pelo menos 395 uigures foram deportados, extraditados ou processados desde 1997. Mas na realidade, acredita-se que este número seja muito maior.
"A China investiu pesado e estabeleceu relações diplomáticas estreitas com Estados da Ásia central. O resultado é que os uigures nesses países estão sendo alvos da polícia local e de agentes chineses", diz Mehmet Tohti, um conhecido ativista uigur no Canadá. "Sabemos, por esses exemplos anteriores, que laços diplomáticos estreitos com a China resultam na perseguição aos uigures."
A China pode estar considerando uma estratégia semelhante com o Talebã.
Em alguns aspectos, essa aliança é improvável: o Talebã tem algumas conexões históricas com militantes uigures.
Mas o Talebã também tem um histórico de cooperação com a China, que compartilha uma pequena fronteira terrestre com o Afeganistão. Para analistas, a capacidade de Pequim fornecer tecnologia e infraestrutura — e conceder legitimidade — a um novo regime do Talebã provavelmente superaria qualquer tipo de solidariedade com os uigures.
"O projeto chinês Um cinturão, uma rota ("Belt and Road Initiative", grande projeto de infraestrutura que inclui maior conectividade entre países da região, como com a construção de estradas) deu a Pequim uma grande vantagem econômica sobre os países com os quais coopera e, em troca, os uigures costumam ser o bode expiatório", explica Bradley Jardine, analista que estudou a presença política e econômica da China no exterior.
"O Talebã terá a expectativa de concessões econômicas e investimentos muito necessários vindos da China. Os uigures do Afeganistão podem — colocando de forma crua — acabar como moeda de troca."
Em julho, a China convidou uma delegação sênior do Talebã para ir a Tianjin, onde o ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, disse esperar que o grupo "desempenhe um papel importante no processo de paz, reconciliação e reconstrução" do Afeganistão. O Talebã prometeu "não permitir que ninguém use o solo afegão contra a China".
Os uigures do Afeganistão sabem deste encontro — notícias da aproximação entre os dois lados se espalharam pelas comunidades do grupo étnico em todo o país.
"Todos nós sabemos sobre a relação do Talebã com a China, e tememos que eles venham atrás primeiro das pessoas que fugiram (da China)", disse uma mulher uigur em Mazar-i-Sharif que cresceu em Xinjiang.

Crédito, Reuters
"Paramos de fazer compras ou de sair de casa", ela conta. "Estamos vivendo com medo. Precisamos de ajuda. Por favor, ajudem."
Comunidade sem representação oficial
Diferente de alguns outros grupos potencialmente em maior risco no Afeganistão, os uigures não têm um aliado estatal para trabalhar em seu nome — um fato que pode torná-los mais vulneráveis sob o domínio do Talebã.
"Esta é uma comunidade sem representação estatal de qualquer tipo", diz Sean Roberts, professor da Universidade George Washington, nos EUA, e autor do livro The War on the Uyghurs ("A guerra contra os uigures"). "Eles estão vendo outros países ajudarem na evacuação de cidadãos ou pessoas com algum tipo de conexão étnica — cazaques, quirguizes, etc. Mas os uigures, eu acho, devem sentir que ninguém fala por eles."
Grupos não governamentais estão tentando tirar os uigures do Afeganistão, mas esbarram em barreiras enfrentadas por todos os outros que tentam escampar.
Abdulaziz Naseri, um refugiado uigur que vive na Turquia, disse à BBC que juntou uma lista de nomes de pessoas que poderiam ser retiradas do Afeganistão, e pretende enviar o documento a representantes do governo dos Estados Unidos, Reino Unido e Turquia.
"Estamos fazendo o nosso melhor para retirá-los", afirma Naseri.
Mas em Mazar-i-Sharif, a muitos quilômetros de Cabul, todas essas possibilidades parecem um tiro no escuro. Mesmo no cenário improvável de uma família receber passagens para voar saindo de Cabul, seria necessário fazer uma viagem de dois dias de carro até lá — e, no caminho, há vários postos de controle do Talebã, para quem os uigures precisariam mostrar suas identidades.
"Como muçulmano, dizemos que não ter esperança é uma mentalidade do diabo", disse o pai que entrevistamos. "Mas desde que nasci no Afeganistão, tudo que me lembro é guerra. Quarenta anos de guerra, uma após a outra."
"Não me preocupo mais comigo mesmo, apenas com meus filhos, especialmente minhas filhas. Eu esperava que eles fossem escolarizados e se tornassem médicos."
Nenhum membro da família dele pôs os pés na China — apenas leram sobre os campos de detenção e as acusações de abusos em Xinjiang. O pai teme a vida sob o Talebã porque consegue se lembrar dela.
"Mas tememos mais a China", ele diz, "porque não podemos imaginar como é."

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