Covid-19: o colapso de saúde que levou multidões às ruas e ameaça presidente do Paraguai

pessoas com máscaras e cartazes protestam na ruas

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Manifestantes incluem profissionais de saúde e familiares de vítimas de covid
    • Author, Marcia Carmo
    • Role, De Buenos Aires para a BBC News Brasil
  • Tempo de leitura: 6 min

Os paraguaios completaram na segunda-feira (08/03) quatro dias seguidos de protestos contra a falta de medicamentos e de insumos para o atendimento às vítimas de coronavírus e contra o governo do presidente Mario Abdo Benítez. A crise dos últimos dias já derrubou o ministro da Saúde e deu início a movimentações de congressistas paraguaios para realizar o impeachment do presidente.

Abdo Benítez, que tomou posse em 2018 e no ano seguinte quase perdeu o cargo, voltou a estar na mira da oposição, de sua própria sigla (o Partido Colorado) e das ruas.

Deputados do opositor Partido Liberal Radical Autentico (PLRA) anunciaram que entrarão, nesta terça-feira, na Câmara dos Deputados, com pedido de julgamento político do presidente para que ele seja afastado.

A nova crise política ocorre quando o país registra uma escalada de casos de coronavírus. Dos menos de cem casos diários que chegou a registrar, o vizinho do Brasil passou a ter cerca de 1,5 mil notificações da doença. A situação do sistema de saúde nesta etapa da pandemia, um ano após o registro do primeiro caso de covid-19, foi a "gota d'água", dizem analistas paraguaios, para a insatisfação popular.

As manifestações incluem pessoal de saúde, familiares de vítimas de covid-19 e opositores do governo.

País com pouco mais de sete milhões de habitantes, o Paraguai tem um dos sistemas de saúde mais frágeis da América do Sul, segundo levantamentos internacionais.

Com mais de 70% da população dependente do carente sistema público, o governo fechou suas fronteiras, incluindo com o Brasil, nos primeiros meses da pandemia e vinha sendo elogiado por setores paraguaios por evitar a calamidade vista em outros países da região, como no Peru, na Bolívia e em cidades brasileiras, como Manaus.

O quadro mudou, quando surgiram os primeiros escândalos de corrupção, na pandemia, e quando as medidas restritivas para evitar a expansão do vírus passaram a ser relaxadas. Além disso, o agora ex-ministro da Saúde, que é amigo de infância do presidente foi acusado por opositores de não realizar uma gestão eficiente na pandemia.

"No Paraguai, faltam hospitais, postos de saúde, insumos, e, inclusive, médicos. A situação do sistema de saúde já era assim antes da pandemia. Num primeiro momento, o governo tomou todas as medidas para evitar um colapso maior do sistema de saúde com o coronavírus.

Como era emergência, fez compras da China sem licitação, surgiram denúncias de irregularidades, as licitações foram retomadas e a lentidão na chegada dos insumos aumentou", disse à BBC News Brasil o analista político e econômico Fernando Masi, do Centro de Análise e Difusão da Economia Paraguaia (Cadep). O Paraguai dedica somente 3% do Produto Interno Bruto (PIB) ao sistema de saúde, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS), recomenda 6%, observou Masi.

Na sexta-feira, no primeiro dia de manifestações, o ministro da Saúde, Julio Mazzoleni, deixou o cargo, e, no dia seguinte, o presidente anunciou a saída de três outros ministros, além de informar, através de sua assessoria, que todos os ministros deveriam colocar o cargo à disposição.

"Sou uma pessoa de diálogo e não de confrontação, e meu compromisso é ouvir a todos, prestando atenção em todas as críticas. Sou consciente que as pessoas esperam mudanças e vou fazê-las", disse o presidente, no fim de semana. Depois de seu discurso, no sábado, as manifestações prosseguiram.

Nesta segunda-feira, durante a transmissão da posse de dois novos assessores da Presidência, através das redes sociais, os internautas escreviam 'Fuera Marito (como é conhecido o presidente)', 'Fuera inútiles' ('Fora Marito' e 'Fora inúteis') 'Fuerza presidente' (Força presidente), refletindo o ambiente social e político do vizinho do Brasil.

Nos quatro dias de protestos, os manifestantes saíram às ruas com cartazes que diziam "governo corrupto" e pedindo a renúncia de Abdo Benítez. A onda de protestos começou na sexta-feira no centro de Assunção, a capital paraguaia, quando a polícia reprimiu violentamente, deixando vinte e uma pessoas feridas e um homem, Alejandro Daniel Florentín, de 32 anos, morto, segundo a imprensa local.

Mulher com máscara, jaleco e proteção no cabelo participa de protesto

Crédito, EPA

Legenda da foto, Profissionais de saúde foram às ruas protestar pela falta de insumos

Impeachment

Com 29 votos, os oposicionistas não têm os votos suficientes para o afastamento do presidente, já que são necessários 53 votos para seu impeachment. Analistas indicam que a iniciativa do PLRA contribui para a pressão contra o presidente, mas "sem que ele caia, até o momento".

O setor mais amplo, decisivo e influente do Partido Colorado, que é o Honor Colorado, ligado ao ex-presidente Horacio Cartes, antecessor de Abdo Benítez, já teria decidido não apoiar o julgamento político do presidente.

Político influente na legenda, Cartes é empresário de diferentes ramos, incluindo cigarros e futebol, e com acusações de irregularidades. A porta da casa do ex-presidente tem sido um dos endereços das manifestações em Assunção, assim como o Congresso Nacional. Com sua influência no partido, em 2019, foi a postura de Cartes que respaldou e, depois, evitou o impeachment de Abdo Benítez, evidenciando as disputas internas do partido, segundo analistas locais.

Naquele processo de impeachment, que envolvia também o vice-presidente, o motivo foi um acordo assinado com o Brasil que renegociava a compra de energia da usina hidrelétrica binacional de Itaipu e que foi vista como "secreta" e "prejudicial" ao Paraguai.

Após horas de tensão e de expectativas, o acordo foi engavetado e Abdo Benítez permaneceu no cargo, depois do respaldo do Partido Colorado. Abdo Benítez foi eleito para mandato até 2023 e, desta vez, segundo publicou o jornal ABC Color, de Assunção, os 'cartistas', ligados ao ex-presidente, apoiam a continuidade do atual presidente, mas com a maior presença no governo, através de cargos.

"Co-governo de Marito e Cartes", publicou o diário na sua capa.

Profissional de saúde leva paciente com covid em maca

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Diversos hospitais estão com 100% de lotação

'Máscaras de ouro'

Um dos primeiros escândalos apontando irregularidades foi o que ficou conhecido como 'Tapabocas de oro' ('Máscaras de ouro'), quando surgiram denúncias de compras superfaturadas da proteção contra o coronavírus. As denúncias, que acabaram na Justiça, incluíram também a compra de leitos e outros insumos da China e levaram à destituição do diretor da Aeronáutica Civil.

Para tentar amenizar a falta de recursos para a pandemia, no ano passado, o governo de Abdo Benítez conseguiu empréstimos com organismos internacionais e emitiu títulos no mercado financeiro, destinando US$ 600 milhões ao sistema de saúde.

Mas a aceleração dos casos e a dependência do sistema de saúde público, agora melhor preparado para a atenção às vítimas de coronavírus, levou que até quem tem plano de saúde recorra aos hospitais públicos para atenção contra a doença, de acordo com diretores de hospitais. Existem casos onde a ocupação de leitos chega a 100%, num dos momentos mais dramáticos da pandemia no país que registra, nos últimos dias, 1,5 milcasos de coronavírus por dia, com um total superior a 165 mil infectados e mais de três mil óbitos.

Nas manifestações, familiares das vítimas da doença contaram que, em muitos casos, elas mesmas devem comprar os medicamentos indicados e que não saem barato, informou a imprensa local.

Doações do Chile

Com poucos recursos em caixa e com problemas de dívidas com a indústria farmacêutica local, como contaram fontes paraguaias, o Paraguai recebeu apenas quatro mil doses da vacina russa Sputnik V para o pessoal de saúde e prometeu a chegada de quatro milhões de doses pelo consórcio Covax Facility, ainda sem data exata para o desembarque.

Neste ambiente de incertezas, o Chile informou que enviará vinte mil doses de vacinas para os paraguaios.

País com cerca de dezessete milhões de habitantes, o Chile comprou, antecipadamente, no ano passado, imunizantes dos vários fabricantes, para vacinar a toda a sua população - e até mais. Até o mês passado, cálculos apontavam a aquisição de 35 milhões de doses de vacinas contra covid. A meta do governo chileno é vacinar a toda a população de risco ainda no primeiro semestre deste ano.

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