Fidel Castro: a morte de um símbolo revolucionário

Fidel Castro

Crédito, AFP

Legenda da foto, A morte de Fidel Castro, em 2016, encerrou uma história de revolução e autoritarismo no continente americano
Tempo de leitura: 18 min

O noticiário da BBC News, na manhã de domingo, 27 de novembro de 2016, trazia duas realidades opostas. Na primeira, "muitos tinham os olhos cheios de lágrimas, genuinamente emocionados com a perda de um homem que eles consideravam ter libertado o seu país do controle de Washington". Em outra, "pela segunda noite consecutiva, o clima em Miami era de festa e celebração com a notícia de sua morte". Duas comunidades, em Havana e na Flórida, reagiam de formas completamente diferentes à notícia da morte do líder comunista cubano Fidel Castro, aos 90 anos, na noite da sexta-feira, 25 de novembro.

Eram reações esperadas dada a maneira como dois mundos diferentes, em Cuba e nos Estados Unidos, viam um dos mais famosos e influentes revolucionários do século 20. Em 2016, Castro já não mais comandava pessoalmente seu país havia quase nove anos, tendo transferido a Presidência para seu irmão, Raúl, em 2008. A morte de Fidel Castro, no entanto, lembrava a todos a distância política que ainda havia entre a ilha caribenha e seu poderoso vizinho do norte, ao mesmo tempo que sinalizava o fim de uma era. Um símbolo das divisões do século 20 finalmente entregava o século 21 às novas gerações, marcadas, de uma forma ou de outra, por seus ideais revolucionários, lutas e autoritarismo.

Começo do fim da guerra

Ao longo dos anos 1990, as hostilidades entre os Estados Unidos, a maior superpotência do planeta, e Cuba, um pequeno país de 11 milhões de habitantes, foram consideradas uma relíquia da Guerra Fria. Na virada de 1999 para o ano 2000, porém, elas ganharam renovada relevância. Não por meio de armas, mas nos tribunais.

Em março de 2000, um juiz federal do Estado americano da Flórida decidiu que o menino cubano Elián González, de 6 anos de idade, deveria ser entregue a seu pai, Juan Miguel González Quintana, que vivia em Cuba. Cinco meses antes, Elián sobrevivera a um naufrágio de uma embarcação de um grupo de cubanos que tentavam emigrar para os Estados Unidos. Entre eles, sua mãe, Elizabeth Brotons Rodriguez, morta durante a travessia. A decisão representava uma derrota para parentes de Elián moradores de Miami, com quem o menino vivia desde a tragédia, e para a comunidade anticastrista da região.

Em abril, o menino foi retirado à força pela polícia da casa dos parentes e entregue a González Quintana, que fora aos Estados Unidos para lutar pela guarda da criança. Em junho, após novas disputas na Justiça americana que reafirmaram o direito de González Quintana, pai e filho voltaram para Havana, onde foram recebidos como heróis. O drama envolvendo a família deu uma face humana a uma disputa política internacional que já durava quatro décadas, desde que Fidel Castro, seu irmão Raúl, Ernesto Guevara e suas forças revolucionárias tomaram o poder em Cuba, em 1959. O caso obrigou políticos americanos a falar sobre o conflito com a ilha comunista com referências a relações humanas.

Elián González

Crédito, ADALBERTO ROQUE/Getty Images

Legenda da foto, A disputa pela guarda do menino cubano Elián González terminou com uma vitória do regime castrista

"Se ele e seu pai decidissem que queriam ficar aqui, tudo bem por mim. Mas acho que o mais importante é que ele era um bom pai, um pai amoroso, comprometido com o bem-estar de seu filho", disse o então presidente americano, o democrata Bill Clinton. "Meus pensamentos e orações estão com toda a família González, e espero que um dia Elián possa viver numa Cuba livre e seja capaz de escolher por ele mesmo se quer voltar à América", disse o então governador do Texas e candidato republicano à Presidência, George W. Bush.

A breve humanização das relações entre Estados Unidos e Cuba foi positiva para o regime comunista. Fidel Castro encabeçara uma campanha nacional pelo retorno do menino ao país assim que chegou a notícia de seu naufrágio, num caso em que as leis e o bom senso estavam do lado de Havana. O fato de um cubano, que foi de avião a Miami para lutar pela guarda do filho, não ter sido atraído pelas maravilhas do capitalismo americano também permitiu que uma ditatura de décadas se apresentasse como um regime querido pelo povo. Em Cuba, o menino foi levado a Fidel Castro, que celebrou a vitória com a família. O século 21, ao começar com o sorriso de um garoto em vez de tentativas de invasão, sugeria que o estado de guerra entre Washington e Havana caminhava para o fim. A caminhada, porém, seria lenta e tortuosa, em meio ao forte e antigo ressentimento de ambas as partes.

Conflito histórico

Desde a Revolução Cubana de 1959, que derrubou o ditador Fulgencio Batista, apoiado pelos Estados Unidos, milhares deixaram o país. Seu destino principal foi o Estado da Flórida, a apenas 160 quilômetros da ilha, e especialmente Miami, o que deu origem a Little Havana, bairro da cidade com maior concentração de cubanos. Estes eram exilados fugindo de uma nova ditadura, comunista, que nacionalizou interesses americanos, estabeleceu um sistema de partido único e prendeu e executou dissidentes. Nas palavras da entidade de defesa de direitos humanos Human Rights Watch, "durante o regime de Castro, milhares de cubanos foram encarcerados em prisões terríveis, outros milhares foram perseguidos e intimidados, e liberdades políticas básicas foram negadas a gerações inteiras". Segundo a entidade Anistia Internacional, "ao estabelecer seu governo provisório em 1959, Castro organizou julgamentos de membros do governo anterior que resultaram em centenas de execuções sumárias".

O outro lado do regime cubano, focado em avanços sociais, também foi regularmente destacado por especialistas. Segundo a Anistia, "o acesso a serviços públicos, como saúde e educação para os cubanos, foi substancialmente melhorado pela Revolução Cubana, e por isso sua liderança deve ser aplaudida". No âmbito da educação, uma conquista do regime castrista frequentemente citada era a erradicação do analfabetismo, relativamente contestada por alguns críticos. Segundo dados reunidos pelo site Our World in Data, a alfabetização em Cuba aumentou de 79%, em 1960, para 89% em 1970, chegando a 98% em 1981 e atingindo 100% em 2002. A curva de longo prazo, porém, já era de crescimento desde o início do século 20, com a taxa indo de 46% em 1900 para 76% em 1940. A tendência histórica também era muito semelhante à de outro país da região com bons resultados, a Costa Rica, que só atingiu, porém, 95% em 2000.

Guevara e Fidel Castro

Crédito, AFP/Getty Images

Legenda da foto, Os revolucionários Ernesto Guevara e Fidel Castro instalaram um regime comunista na ilha após derrubar o ditador Batista

Para o bem ou para o mal, a chegada de Fidel Castro ao poder mudou as regras do jogo em Cuba, o que gerou punições de Washington. A primeira veio na forma de um bloqueio econômico. Iniciado logo em 1960 e ampliado em 1962, o embargo econômico contra Havana elevou a pobreza na ilha e favoreceu a aproximação entre Castro e a União Soviética. Uma retaliação militar também foi tentada, com a fracassada invasão da Baía dos Porcos, em abril de 1961, por exilados cubanos com apoio da CIA, a agência de inteligência dos Estados Unidos. Mais grave ainda, a constante tensão entre os dois países quase levou o mundo a uma Terceira Guerra Mundial - que seria travada, possivelmente, com armas nucleares.

Em outubro de 1962, imagens aéreas feias pela espionagem americana confirmou suas suspeitas de que a União Soviética estava instalando mísseis balísticos em Cuba. Os armamentos, trazidos a pedido de Havana, eram vistos pelo regime cubano como forma de proteger a ilha de uma possível invasão do vizinho inimigo. Para Moscou, a medida funcionaria para capacitar o país a lançar mísseis nucleares sobre os Estados Unidos - na época a União Soviética só tinha capacidade o Alasca, numa suposta guerra nuclear. No dia 22 de outubro, o presidente John F. Kennedy falou à nação pela televisão anunciando a descoberta dos mísseis e um bloqueio naval a Cuba. Segundo Kennedy, qualquer ataque nuclear ao Ocidente saído de Cuba seria considerado um ataque aos EUA e levaria a uma retaliação nuclear contra a União Soviética. A crise foi solucionada em pouco mais de um mês, com um acordo entre Washington e Moscou que levou à retirada dos mísseis e a um compromisso americano de não invadir a ilha caribenha.

Kennedy fala à nação em 1962

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Kennedy anunciou, em outubro de 1962, um bloqueio naval após descoberta de mísseis soviéticos em Cuba

Fidel Castro, entretanto, em uma carta ao líder soviético, Nikita Khrushchev, de 26 de outubro de 1962, expôs uma polêmica opinião sobre o confronto. Ao comentar a possibilidade de uma invasão seguida de ocupação de Cuba pelos Estados Unidos, Fidel disse que "esse seria o momento de eliminar esse perigo para sempre, num ato da mais legítima autodefesa. Por mais dura e terrível essa solução, não haveria outra". Diante da aparente sugestão de que os soviéticos deveriam realizar um ataque nuclear contra os EUA, em caso de ocupação da ilha, Khrushchev a rebateu, em carta de 30 de outubro. "Caro camarada Fidel Castro, eu acho que sua proposta é errada, embora eu entenda seus motivos." Em 2010, numa entrevista a Jeffrey Goldberg, da revista The Atlantic, Fidel diria ter se arrependido da sugestão que fizera ao líder soviético. "Depois de ter visto o que eu vi, e sabendo o que eu sei agora, não valeria a pena."

O líder cubano, que após seu sucesso militar em Cuba se tornara um símbolo do socialismo revolucionário no mundo todo, também foi alvo de inúmeras tentativas de assassinato - segundo ele, em mais de 600 oportunidades. Uma delas envolveu a colaboração entre a CIA e um grupo de mafiosos, no início dos anos 1960. Em outra, diz a lenda, a agência americana considerou matá-lo com um charuto explosivo.

A última tentativa foi exatamente no ano 2000. Meses depois do drama envolvendo Elián Gonzalez, Fidel Castro denunciou uma trama para assassiná-lo na Cidade de Panamá, durante o Encontro Ibero-Americano. Segundo ele, o chefe do plano, que envolvia o uso de explosivos no lugar onde Castro faria seu discurso, era o exilado cubano Luís Posada Carriles. Juntamente com outros três cubanos, Posada Carriles foi preso na cidade no mesmo dia. Os quatro foram posteriormente condenados à prisão, onde ficaram por quase quatro anos, após receberem um perdão presidencial do Panamá em 2004.

Bush e Chávez

Durante 20 anos, entre 1996 e 2016, nenhum presidente americano foi eleito sem vencer a disputa na Flórida, cuja demografia foi significativamente afetada pela imigração latina, particularmente cubana. A sabedoria local dizia ser muito difícil vencer na Flórida sem o apoio da comunidade cubana anticastrista. Em 2000, o Estado foi decisivo: deu a vitória a George W. Bush contra o vice-presidente Al Gore por apenas 537 votos, sendo que seus 25 votos no Colégio Eleitoral mudariam o resultado de 271 para Bush contra 266 para Gore. O resultado e a simpatia dos conservadores republicanos pelos exilados cubanos fizeram com que EUA e Cuba se mantivessem distantes durante os oito anos de Bush na Casa Branca.

Jornais noticiam vitória de Bush

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Legenda da foto, A vitória de Bush em 2000, garantida pelo Estado da Flórida, aumentou a pressçao americana sobre o regime cubano

O presidente americano aumentou as sanções contra Cuba, como restrições a viagens ao país, e intensificou a pressão por reformas na ilha. Em um discurso na Casa Branca, em 2002, ele disse: "É importante para os americanos entenderem: sem reforma política, sem reforma econômica, comércio com Cuba vai apenas enriquecer Fidel Castro e seus companheiros." Numa fala na Assembleia Nacional, em Havana, em 2005, o líder cubano comparou Bush com o ex-presidente Richard Nixon, que renunciou em 1974. "Nixon não era pior que Bush. Comparado a Bush, Nixon era um santo. Bush é um fascista, um nazi-fascista, genocida." Em 2007, Bush afirmou: "Um dia, o bom Senhor levará Fidel Castro embora".

Apesar de Bush, o início de um novo milênio não foi de todo ruim para o regime em Havana. Em dezembro de 2000, Cuba experimentou algo que não vivia desde os tempos do Muro de Berlim: a visita de um líder russo. Vladimir Putin, então o novo homem forte no Kremlin, esteve na ilha por quatro dias, algo que seu antecessor, Boris Yeltsin, nunca havia feito. A viagem foi uma clara sinalização de Putin de que gostaria de reaproximar Moscou de Havana e reparar parte dos danos causados pelo abandono de Cuba no colapso da União Soviética. Desde então, Putin manteve crescente contato com Fidel e seu irmão Raúl, e as relações políticas e comerciais entre Cuba e Rússia aumentariam significativamente nas duas décadas seguintes.

Além de uma Rússia mais próxima, durante os anos de Bush na Casa Branca o líder cubano contou com crescente apoio regional. Na Venezuela, a chegada ao poder de Hugo Chávez, que implantou seu movimento socialista batizado de "bolivarianismo", reforçou a influência do regime de Cuba nas Américas. Era também uma época em que partidos e líderes de esquerda chegaram ao poder em nações importantes do continente. Em 2005, além da Venezuela, a esquerda era governo no Brasil, na Argentina, no Chile e no Uruguai - e em dezembro daquele ano venceria as eleições bolivianas, com Evo Morales. Fidel Castro, que em tempos de regimes militares era mal visto nesses países, era agora respeitado e admirado por presidentes como o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e o argentino Néstor Kirchner. A relação mais próxima do cubano, no entanto, ocorreu com Hugo Chávez. Enquanto em Washington Bush pedia por democracia e impunha sanções, Castro e Chávez forjaram uma aliança nunca antes vista na região.

Chávez, Fidel e Morales

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Fidel Castro formou alianças importantes com líderes sul-americanos, como Chávez e Morales

O cubano passaria a considerar o venezuelano o "melhor amigo" de Cuba. A parceria entre os dois envolveria uma grande proximidade política e benefícios econômicos. A troca de petróleo por médicos, com a Venezuela fornecendo o combustível e Cuba lhe oferecendo profissionais de saúde, foi o principal símbolo da aliança. Segundo muitos analistas e o próprio governo americano, o regime em Havana também aproveitou a aliança para influenciar politicamente a Venezuela e impedir avanços democráticos no país. Após sua morte em 2013, Chávez foi substituído pelo vice, Nicolás Maduro, que presidiu um país em crescente colapso econômico e caos político, com violência nas ruas, a prisão de opositores e posteriormente a escolha de um governo paralelo reconhecido pelos Estados Unidos e outras nações - liderado por Juan Guaidó. Para os críticos do regime em Havana, a grave situação gerada na Venezuela era em parte responsabilidade do comunismo cubano. Admiradores de Cuba culpavam a interferência dos EUA na região.

Renúncia e Obama

A referência de Bush à inevitável morte de Fidel Castro baseava-se no fato de que, perto dos seus 80 anos, o cubano começava a demonstrar problemas físicos. Após anos de especulação sobre seu estado de saúde, em 2004 Castro sofreu uma queda diante de uma multidão - e da câmera da televisão cubana. Após concluir um discurso num evento na cidade de Santa Clara, ele desceu do palco e tropeçou num dos degraus. Quebrou o joelho esquerdo e o braço direito e foi hospitalizado. Dois anos depois, o problema foi mais sério. Em 31 de julho, duas semanas antes de completar 80 anos, ele foi internado para uma cirurgia devido a problemas estomacais. Pela primeira vez, Castro deixou de comandar o país, ao transferir os poderes da Presidência para seu irmão, Raúl, então ministro da Defesa. O gesto marcaria o início do fim da era de Fidel Castro à frente de Cuba.

No dia seguinte à operação, uma declaração de Castro foi lida na televisão. Ele dizia estar "perfeitamente bem". Três dias depois, o presidente George W. Bush voltou a pedir uma mudança de regime em Cuba, afirmando que Washington apoiaria aqueles que buscassem "um governo transitório em Cuba comprometido com a democracia". Seu desejo não foi atendido. Não houve mudança de regime, mas sim uma lenta transferência de poder de Fidel para Raúl. Em 19 de fevereiro de 2008, o comandante da Revolução Cubana, à frente dos destinos do seu país por longos 49 anos, anunciou sua renúncia definitiva à Presidência.

"Aos meus queridos compatriotas, que nos últimos dias me deram a imensa honra de me eleger como membro do Parlamento. Eu comunico a vocês que eu não vou aspirar ou aceitar - repito, não aspirar ou aceitar - as posições de Presidente do Conselho de Estado e de comandante-chefe", disse o líder cubano em um comunicado à nação publicado no jornal oficial, Granma. "Este não é o meu adeus. Eu devo continuar a escrever sob o título 'Reflexões do Camarada Fidel'. Talvez minha voz seja ouvida." Fidel Castro continuaria como primeiro-secretário do Partido Comunista. Os Estados Unidos pediram eleições livres em Cuba e afirmaram que o embargo econômico contra a ilha estava mantido. Em Cuba, um dos principais dissidentes no país, Oswaldo Payá, também tinha esperanças de que algo mudaria. "Este é um momento crucial. Cuba quer mudança, o povo quer mudança."

Fidel Castro em 2010

Crédito, Sven Creutzmann/Mambo Photo

Legenda da foto, Depois de renunciar, Fidel continuou escrevendo artigos, além de fazer algumas aparições públicas

A transferência de poder em Cuba não seria a única naquele ano. Nos Estados Unidos, haveria nova eleição presidencial em novembro de 2008, mas, diferentemente de Cuba, a oposição poderia vencer. O candidato de Bush, senador John McCain, tinha um discurso semelhante ao que havia vencido as eleições anteriores na Flórida: apoio à comunidade de exilados cubanos no Estado. Em fevereiro de 2008, McCain disse que os Estados Unidos só deveriam aliviar a pressão econômica sobre o regime castrista após mudanças concretas rumo à democracia. "Nós precisamos estar absolutamente confiantes de que a transição para uma democracia livre e aberta está sendo feita antes que nós forneçamos ajuda e assistência adicionais."

Seus eleitores na Flórida concordavam. Muitos diziam temer o socialismo nos Estados Unidos caso o oponente de McCain, o senador democrata Barack Obama, saísse vencedor. O filho de emigrantes Michael García disse ao jornal britânico The Guardian temer as ideias de mais distribuição de renda por meio de impostos, propostas por Obama. "As coisas que Obama diz me assustam porque isso é tudo o que Fidel dizia. Essas coisas estão associadas na minha cabeça com cair no caminho do comunismo."

Obama não defendia socialismo ou comunismo, mas pregava a melhoria das relações com Cuba, com mais engajamento com o regime, agora sob o comando de Raúl Castro. "É o momento de termos mais do que um discurso duro que nunca traz resultados. É hora de uma nova estratégia", dizia o senador democrata, que prometia liberar por completo viagens e envio de dinheiro para Cuba, eliminando restrições impostas por Bush.

Obama em campanha na Flórida

Crédito, Joe Raedle/Getty Images

Legenda da foto, Em 2008, Barack Obama venceu a disputa na Flórida com um discurso de melhores relações com Cuba

Segundo pesquisa da Florida International University divulgada na época, 65% dos cubanos nos EUA apoiavam a proposta de mais diálogo com Raúl Castro. O grupo cubano Mulheres em Branco, de esposas de dissidentes presos, também via com bons olhos as ideias de Obama e lhe escreveu oferecendo seu apoio. No dia da eleição, em novembro de 2008, Fidel Castro escreveu no Granma que Obama era "sem dúvida mais inteligente, culto e calmo que seu adversário republicano". Barack Obama venceu a disputa na Flórida e foi eleito presidente americano.

Tempo de mudanças

Desde 2007, quando já comandava o país, embora ainda interinamente, Raúl Castro iniciou um processo de reformas. No começo, falando em "racionalidade" e "eficiência", Raúl introduziu sistemas de gerenciamento mais modernos nas empresas estatais. A partir de 2008, quando se tornou presidente efetivo, o irmão mais novo de Fidel intensificou suas reformas que foram desde a descentralização na agricultura, no transporte de cargas e na construção civil ao acesso da população a equipamentos eletrônicos - computadores, telefones celulares, aparelhos de DVDs.

Esse ambiente de lenta, mas constante, mudança em Cuba permitiu que Barack Obama cumprisse suas promessas de campanha em relação à ilha. Em abril de 2009, o novo presidente dos EUA anunciou a liberação de viagens ilimitadas a Cuba por cubanos-americanos e o fim de limites ao envio de dinheiro para familiares no país caribenho, revertendo sanções impostas por Bush. O anúncio marcou o início de negociações entre Washington e Havana nos anos seguintes, visando uma nova relação entre os dois países. O resultado veio em 14 de dezembro. Nesse dia, o americano Alan Gross, que estava preso em Cuba havia cinco anos, condenado a 15 anos de prisão por importar tecnologia proibida ao país e estabelecer uma rede clandestina de internet para judeus cubanos, foi libertado. Cuba libertou um agente americano que mantinha detido, enquanto Washington soltou três agentes cubanos. Horas depois, Barack Obama falou aos americanos. "Hoje os Estados Unidos da América estão mudando sua relação com o povo de Cuba." O presidente anunciou que Washington e Havana reestabeleceriam relações diplomáticas, o que incluiria a abertura de uma embaixada em Havana.

Barack Obama

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Obama visitou Cuba em 2016, numa visita histórica que controu com momentos descontraídos com Raúl

Em abril de 2015, num momento histórico, Obama e Raúl Castro encontraram-se no Panamá, diante das câmeras, durante a Cúpula das Américas - os dois já haviam estado juntos, informalmente, em 2013, no funeral do sul-africano Nelson Mandela. Foi o primeiro encontro de alto escalão entre os dois países desde que Fidel Castro esteve com o então vice-presidente Richard Nixon, nos EUA, em 1959.

O chamado "descongelamento" das relações entre Washington e Havana continuaria até que Obama deu um passo ainda mais significativo: em março de 2016, o presidente americano fez uma visita oficial a Cuba, selando anos de sua política de reaproximação com a ilha - o primeiro presidente americano em solo cubano em 88 anos. No país, Obama elogiou os avanços feitos por Raúl, mas cobrou progressos concretos na área de direitos humanos. O líder cubano, respondendo a jornalistas, rebateu: "Quantos países com todos os 61 direitos humanos? Você sabe? Eu sei. Nenhum. Nenhum", disse Castro, referindo-se a resoluções das Nações Unidas sobre o tema.

Fidel Castro assistiu a todo esse processo sem aparentemente interferir, mas muitas vezes afirmando uma postura crítica ao processo e ao líder americano. Em janeiro de 2009, logo após a posse de Obama na Presidência, Castro escreveu que não duvidava da "honestidade" do novo ocupante da Casa Branca. "Mas, apesar de suas nobres intenções, ainda existem muitas questões que precisam ser respondidas." Em setembro de 2011, o ex-líder cubano chamou de "enrolação" um recente discurso de Obama na ONU e chamou o bombardeio da Líbia por potências ocidentais de "crime monstruoso". Logo após a visita de Obama a Cuba, no fim de março de 2016, o comandante escreveu que as palavras do americano eram um "xarope" e que Cuba não precisava de nenhum presidente do "império".

Morte de uma lenda

A crítica a Obama foi uma das últimas intervenções do comandante sobre os novos rumos que seu país tomava. Meses depois, em 25 de novembro de 2016, Fidel Castro morreu, aos 90 anos de idade. Um dos maiores nomes do século 20, cujas ações e ideias influenciaram diferentes gerações no mundo todo, saía definitivamente de cena em meio às transformações do século 21. Enquanto cubanos em seu país choravam a perda do líder que os acompanhara por mais de seis décadas e cubanos em Miami celebravam nas ruas, Barack Obama dizia que "a história julgará o enorme impacto" de Fidel Castro, em seu país e no mundo.

Fila para prestar homenagem a Fidel em Havana

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Cubanos demonstraram tristeza com a morte de seu histórico líder e prestaram homenagens em Havana

A morte do comandante foi anunciada por Raúl Castro, num pronunciamento na televisão do país. "Querido povo de Cuba, com profunda dor, compareço para informar ao nosso povo e aos amigos de nossa América e do mundo que hoje, 25 de novembro de 2016, às 10 horas e 29 da noite, faleceu o comandante-chefe da Revolução Cubana, Fidel Castro Ruz." Ele anunciou que, segundo a vontade de seu irmão, os restos mortais seriam cremados no dia seguinte e repetiu o slogan revolucionário: "Até a vitória! Sempre!".

Três dias depois, uma segunda-feira, milhares de pessoas faziam fila para prestar sua última homenagem ao ex-líder. O correspondente da BBC News, Will Grant, relatou o clima no local. "Médicos vestindo jalecos brancos, enfermeiras uniformizadas, soldados, estudantes e professores, todos falando no mesmo tom baixo, tomando cuidado para se comportar de forma digna sob os olhos atentos dos oficiais de segurança do Estado." Um deles, o engenheiro civil Javier Morales, disse a Grant: "Se você o amava ou o odiava, seja em Havana ou em Miami, todo mundo está sendo afetado hoje". A enfermeira Angela Suarez Narajo estava emocionada. "Ele me deu tudo o que eu tinha. Ele era como um pai para nós."

Comemoração em Miami

Crédito, RHONA WISE

Legenda da foto, A morte de Fidel Castro foi celebrada em Little Havana, bairro da comunidade cubana em Miami

A 368 quilômetros dali, em Miami, a morte de Fidel Castro foi celebrada nas ruas como se fosse um título de Copa do Mundo. "Olê, olê, olê, olê! Se fue! Se fue!" (Foi embora! Foi embora!), cantavam os integrantes da comunidade cubano-americana. Um deles disse: "O motivo pelo qual estamos dançando, cantando e tocando instrumentos é que, se estivéssemos em Cuba, nós não poderíamos celebrar, não teríamos a liberdade de expressão, a liberdade de se reunir, não teríamos essa liberdade que temos aqui para celebrar o que estamos sentindo". Elián González, o menino cuja custódia levou a disputa entre Estados Unidos de volta ao noticiário, tinha 22 anos quando Fidel Castro morreu. Em entrevista à televisão cubana, ele reagiu à perda do comandante de forma emocionada, tentando conter as lágrimas. "Fidel começou sendo um pai e se tornou um amigo. Esse pai era como meu papai, para quem eu queria mostrar a ele tudo o que eu fazia, queria que ele se sentisse orgulhoso de mim. E assim também era com Fidel."

Como se não bastassem a visita de Obama a Havana e a morte de Fidel Castro, 2016 ainda traria outro fato significativo nas relações entre Estados Unidos e Cuba. Em novembro, o magnata populista conservador Donald Trump venceu a senadora democrata Hillary Clinton e recolocou o Partido Republicano na Casa Branca. Na Presidência, Trump retomou a política de adoção de novas sanções contra o regime comunista, como novas restrições a viagens e limitação a investimentos americanos na ilha. Em setembro de 2020, o presidente proibiu que americanos em visita a Cuba trouxessem do país charutos ou garrafas de rum, medida que Trump acreditava pudesse ajudá-lo na disputa eleitoral na Flórida. Ajudou: o presidente venceu a batalha pelo Estado que durante 20 anos sempre acabara nas mãos do candidato eleito. Trump, no entanto, perdeu a guerra. Apesar de vencer na Flórida, o presidente foi derrotado em nível nacional pelo senador democrata Joe Biden.

Fidel Castro

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Fidel Castro foi uma figura política central do século 20 que continuou influente no início do novo milênio

Em Cuba, dois anos após a morte de Fidel Castro, foi a vez de seu irmão passar o bastão a uma nova geração. Em abril de 2018, Raúl entregou a Presidência ao seu então vice, Miguel Díaz-Canel, escolha confirmada pela Assembléia-Nacional. Era a primeira vez em 59 anos que a ilha caribenha não era governada por um integrante da família Castro. Para muitos, as reformas adotadas por Raúl foram tímidas, já que a essência do regime continuava a mesma. Mesmo sem Fidel presente e agora sem nenhum Castro no comando, a Revolução Cubana seguia no controle da ilha ainda comunista. Fidel Castro, porém, era passado. O presente continuava repleto de desafios e perguntas sem respostas, e o futuro de Cuba estava apenas começando a ser escrito.

Este artigo é parte da série especial "21 Histórias que Marcaram o Século 21", da BBC News Brasil.

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