Eleições nos EUA: os mitos sobre o 'voto latino' derrubados neste ano

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- Author, Patricia Sulbarán Lovera
- Role, BBC News Mundo
- Tempo de leitura: 7 min
*Texto atualizado às 14:20 do dia 7 de novembro
O que Guillermo, um encanador em Milwaukee (Wisconsin), Paulina, um estudante e residente de uma parte rica de Miami, e Rogelio, um trabalhador do petróleo em uma cidade fria de Dakota do Norte têm em comum?
Praticamente nada, exceto que os três são jovens americanos cujos pais emigraram da América Latina para os Estados Unidos.
No entanto, apesar de suas grandes diferenças, os três estão incluídos (não necessariamente de forma voluntária) no chamado "voto latino", conceito que agrupa cerca de 32 milhões de pessoas.
Na medida em que começavam a surgir os resultados das eleições gerais dos EUA na noite de terça-feira (03/11), muitos ficaram surpresos com o aumento no apoio que o presidente Donald Trump conquistou com o eleitorado hispânico em comparação com 2016.
E isso ocorreu mesmo que Trump tenha feito um mandato marcado por um endurecimento das políticas de imigração.
O republicano superou em muito as expectativas de seu desempenho na Flórida. Os hispânicos que o apoiaram em Miami, um reduto democrata, são apontados como fundamentais para sedimentar sua vitória em um Estado que ele não podia perder.
Mas isso não foi tudo. No Arizona, um Estado tradicionalmente republicano, os hispânicos são creditados por uma transformação política que provocou uma batalha.
Com 97% das urnas apuradas neste sábado (07/11), Biden estava na frente por uma pequena margem de 20 mil votos.
Com a apuração praticamente concluída na maioria dos Estados-chave, o democrata conseguiu alcançar 273 dos 538 votos do Colégio Eleitoral, segundo projeção da BBC, e se tornou o novo presidente eleito do país.

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No Texas, por outro lado, que desta vez bateu o recorde de comparecimento eleitoral com centenas de milhares de novos eleitores latinos, Trump perdeu 3 pontos da liderança que havia alcançado em 2016.
A narrativa do "voto latino" volta em todos os ciclos eleitorais há décadas, mas especialistas apontam que o termo abarca mitos que foram claramente desmantelados nesta eleição.
Mito 1: é um bloco uniforme e garantido para os democratas
"É ridículo que, em 2020, este país ainda deva ser lembrado que os latinos não são um monolito e que o tal voto latino é uma miragem", afirma a jornalista salvadorenho-americana do LA Times, Esperanza Bermúdez.
Sua reação foi amplamente divulgada e serviu de base para outros jornalistas latinos criticarem a abordagem das campanhas políticas aos eleitores hispânicos.
"Falar sobre o 'voto latino' como algo único significa que é um grupo de pessoas que compartilham os mesmos pontos de vista e, embora haja coincidências, nem todos pensam da mesma forma", disse Mark López, Diretor de Migração Global e Pesquisa Demográfica do Pew Research Center, com sede em Washington, em entrevista à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC, algumas semanas atrás.
Do total de latinos com direito a voto no país, 59% são mexicanos ou mexicano-americanos, 14% são portorriquenhos, 5% de origem cubana e 22% de outras origens hispânicas, segundo dados do Pew de 2016.

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Como nos casos de Paulina, Guillermo e Rogelio, as experiências dos latinos nos Estados Unidos são vastas e muito diversas, dependendo de fatores como nível educacional, status socioeconômico e localização geográfica.
Apesar de laços fortes e comuns, como o uso da língua espanhola, as definições de identidade também variam de acordo com outros elementos, como religião e formação familiar.
Dado que todos esses fatores formam opiniões e posições políticas, é normal que os latinos apoiem candidatos de ambos os partidos.
Trump recebeu 32% do apoio deste grupo em todo o país, de acordo com pesquisas divulgadas na terça-feira. Quatro pontos percentuais a mais do que em 2016.
E vale lembrar que, em 2004, o republicano George W. Bush alcançou um apoio recorde de 40% entre os latinos.
"Os latinos republicanos sempre existiram e a campanha de Trump dedicou recursos significativos para ganhar mais seguidores na comunidade hispânica durante este ciclo eleitoral", escreveu o jornalista Christian Paz em um artigo recente na The Atlantic.
A abordagem do Partido Republicano em relação ao papel menos dirigente do Estado nos assuntos da sociedade e a crença em valores conservadores e religiosos são alguns dos elementos que atraem os eleitores latinos, apontam os especialistas.
Um exemplo muito ilustrativo é dado por Gabriel Montalvo, um jovem americano de família equatoriana que, apesar de ter crescido na liberal cidade de Nova York, especificamente no bairro do Bronx, é um fiel seguidor de Trump.
"Eu cresci no gueto e vi a cultura da ignorância, de pessoas que odeiam o governo, mas ainda recebem cheques dele. Essa expansão do Estado de bem-estar afetou negativamente muitos hispânicos", disse ele à BBC News Mundo há alguns meses.
Como líder do partido, Trump também apontou os democratas como parte de uma "esquerda radical" com uma agenda socialista, um discurso que penetrou comunidades com histórias de exílio de países com governos socialistas ou comunistas.
Não sem razão, o presidente obteve 55% do apoio dos cubanos na Flórida, ante 25%, por exemplo, dos portorriquenhos, segundo pesquisa da firma Latino Decisions.

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Os especialistas insistem, no entanto, em se distanciar da crença de que apenas os cubanos apoiam o Partido Republicano entre os eleitores latinos.
Sua presença é mais perceptível em parte porque, em geral, as empresas que fazem esse tipo de pesquisa concentram-se em eleitores de nacionalidade cubana, mexicana e portorriquenha e em grupos de eleitores de origem sul-americana, por exemplo, em setores mais gerais.
Embora os democratas tradicionalmente atraiam mais eleitores latinos do que os republicanos, isso não significa que haja garantias para os primeiros.
Apesar de uma pandemia que afetou desproporcionalmente latinos e negros e de uma recessão econômica que deixou muitos latinos sem empregos, Joe Biden obteve um ponto a menos de apoio (65%) neste grupo do que sua antecessora democrata, Hillary Clinton.
"Alguns políticos presumem que os latinos são democratas, como se o eleitor tivesse nascido com um DNA fixo", diz Clarissa Martínez de Castro, vice-presidente da organização apartidária UnidosUS.
Mito 2: latinos só se preocupam com questões de imigração
Os latinos representam 18% da população total dos EUA, e nove em cada dez latinos com menos de 18 anos nascem nos Estados Unidos.
Essas estatísticas servem para ilustrar que, como todos os americanos, há uma grande variedade de questões que os preocupam.

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A imigração, pelo menos de acordo com uma pesquisa conduzida pela Pew, não é uma das primeiras preocupações entre os eleitores hispânicos.
A economia está no topo da lista de prioridades, seguida pela saúde e pela pandemia do coronavírus.
Embora as políticas de imigração afetem principalmente os latinos, nem todos têm uma experiência semelhante com o assunto. Há mexicanos-americanos que estão no país há gerações, por exemplo.
"O desafio para os democratas não é rotular automaticamente os eleitores latinos como mexicanos ou imigrantes", disse a cientista política Melissa Michelson há algumas semanas.
Mito 3: eles só importam em Estados como Califórnia e Flórida
Os hispânicos vêm promovendo uma transformação demográfica nas últimas três décadas em Estados onde sua presença não era comum.
O sul dos EUA, por exemplo, é a região com a população hispânica de crescimento mais rápido, principalmente do México e da América Central.
Até certo ponto, o aumento de eleitores hispânicos de tendência democrata em Estados como a Geórgia desafia o status de reduto republicano que o território mantém desde 1996.

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Os resultados apertados desta eleição naquele Estado mostram que não é mais um terreno seguro para os republicanos.
É cedo para se dizer, mas também se fala que os hispânicos poderiam contribuir para uma vitória democrata em Estados altamente contestados, como a Pensilvânia.
Um caso mais claro é o do condado de Maricopa, no Arizona (sudoeste dos Estados Unidos), que há uma década representava o domínio conservador e que nesta eleição complicou a vida de Trump.
A implementação de medidas duras que facilitaram a detenção de imigrantes indocumentados alimentou um movimento de ativismo hispânico que eles apontam como responsável por promover a participação política e eleitoral que favorece os democratas.

Miami, um caso à parte
(Por Luis Fajardo, de Miami)
Um dos eventos políticos notáveis desta eleição foi o apoio massivo que os latinos de Miami deram a Donald Trump.
Alguns estudos preliminares sugerem que os cubano-americanos, que representam cerca de 30% da população do Condado de Miami, preferiram o candidato republicano ao democrata por uma proporção de dois para um.
Isso representa uma mudança gigantesca em relação à tendência recente, em que os democratas conseguiram seduzir uma parte importante desse bloco eleitoral.
Por exemplo, nas eleições de 2012, cerca de 50% dos cubanos votaram no então candidato democrata Barack Obama.
Em 2020, o impacto do voto cubano, e em menor medida dos venezuelanos, colombianos, nicaraguenses e outros latinos em Miami, foi devastador.
A cidade, que era o grande reduto democrata no Estado da Flórida, deu a Joe Biden apenas uma pequena vantagem, que não poderia compensar o enorme domínio republicano no norte rural do estado.
Os latinos de Miami foram os grandes arquitetos da vitória de Trump na Flórida, indispensável para manter vivas as esperanças de reeleição do presidente.
Também ficou claro que o voto latino de Miami é diferente do voto do resto da população hispânica.
Ao contrário da maioria dos mexicanos da comunidade latina no oeste do país, aqui predominam cubanos e sul-americanos, muitos dos quais fugiram de governos socialistas.
Isso ajuda a explicar por que eles tendem a ser mais conservadores e por que também foram os mais entusiasmados em aceitar a mensagem de Trump, chamando os democratas de esquerda radical e até de "Castro-Chavistas".
Miami é um caso especial, em grande parte, porque os cubanos têm uma influência política aqui como em nenhum outro lugar do país, embora representem apenas 5% do eleitorado latino em todo o país.

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