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‘Minha procura pelo menino que aparecia em vídeo de abuso sexual’
- Author, Lucy Proctor
- Role, BBC Stories
- Tempo de leitura: 18 min
Um dia, logo depois que deixei meu filho na escola, recebi um vídeo horrível no WhatsApp. Isso me fez questionar como imagens e vídeos de abuso sexual infantil são criados e como eles podem circular abertamente pela internet. E, acima de tudo, eu queria uma resposta: o que aconteceu com o garoto que aparecia no vídeo?
Pode parecer estranho, mas a mulher que me enviou o vídeo era uma mãe que eu conhecia dos portões da escola. Tínhamos montado um grupo no WhatsApp para discutir calendário da escola, uniformes, doenças.
Então, certa manhã, do nada, uma dessas mães enviou um vídeo para o grupo com dois emojis de rosto chorando embaixo.
Aparecia apenas uma imagem preta, sem thumbnail, e todas pressionamos o play sem pensar. Talvez fosse um meme ou uma notícia. Talvez um dos vídeos de alerta que algumas mães começaram a compartilhar.
O vídeo começa com uma foto de um homem e um bebê, com cerca de 18 meses, sentados em um sofá. O bebê sorri para o homem.
Não consigo descrever o resto.
Se eu contar o que vi nos 10 segundos necessários para entender o que estava acontecendo e pausar o vídeo, você verá a imagem na sua cabeça também. E você não quer ver isso. É um vídeo de abuso sexual infantil. Dura nove minutos.
Eu gritei e joguei meu telefone do outro lado da sala. Estava cheio de mensagens de membros do grupo que ficaram perturbados.
Levei meu celular para a delegacia, em Londres, e disse a eles o que tinha acontecido. Eu disse que acreditava que a mulher havia nos enviado como um alerta e que esperava que eles investigassem a origem do vídeo — era um novo vídeo ou um que eles já haviam encontrado? Este menino ainda estava em perigo? Essa evidência poderia ajudar a salvá-lo ou encontrar o agressor?
A polícia ficou com meu celular por duas semanas. Descobri no dia seguinte que eles prenderam a mulher que o enviou e visitaram outros membros do grupo. Depois, não ouvi mais nada sobre isso.
Mas uma pergunta permaneceu comigo: o que aconteceu com o menino do vídeo? E assim, alguns meses depois, depois que consegui ler para os meus filhos uma história para dormir sem pensar naquele vídeo e a vida voltar ao normal, comecei a procurar respostas.
Comecei tentando falar com o policial que estava investigando o vídeo no meu telefone. Mas, toda vez que eu ligava, diziam que ele tinha acabado de sair.
Ele não queria saber de mim.
Eu falei com Alan Collins, um advogado especializado em casos de abuso sexual de crianças, para ver se alguma das coisas que eu normalmente faria para rastrear as pessoas funcionaria. Eu poderia, por exemplo, enviar uma cópia do vídeo a ex-policiais para ver se eles o reconheceriam?
"Você pode estar diante de uma sentença de 10 anos de prisão", ele me disse. O mesmo vale para tirar uma foto e enviá-la. Apenas possuir uma imagem como essa no meu telefone poderia me levar à prisão.
Então liguei para um amigo de um amigo que já tinha trabalhado para a polícia. Ele me disse que a delegacia teria enviado meu telefone para um dos laboratórios forenses digitais espalhados pela cidade. Os laboratórios listam todo o conteúdo ilegal e, quando se trata de abuso sexual de crianças, eles o classificam: categoria A para os mais graves, além de B e C. Este vídeo do WhatsApp era categoria A.
Em seguida, o arquivo vai para a identificação da vítima, e meu caso foi encaminhado ao Comando de Exploração Sexual e Abuso de Crianças da Polícia. Um policial de lá, o sargento Lindsay Dick, concordou em conversar comigo, mas não quis falar muito sobre as técnicas usadas para o caso de ajudar os infratores a descobrir como evitar a captura.
- Estima-se que 100 mil homens no Reino Unido assistem regularmente a abuso sexual infantil
- A polícia prende entre 400 e 450 pessoas por mês, principalmente homens, por visualizar ou baixar esses arquivos
- O WhatsApp destrói 250 mil contas por mês suspeitas de espalhar material de abuso sexual infantil, com base nos nomes de grupos e fotos de perfil
Ele me contou sobre um caso em que um policial pegou um telefone com imagens de um garoto sendo abusado, juntamente com imagens do mesmo garoto sem estar sendo abusado. Em uma delas, ele está parado em um ponto de ônibus com uniforme escolar. Um policial reconheceu a região do ponto de ônibus e fez uma ligação para a equipe local. Eles reconheceram o uniforme da escola. O garoto foi identificado, seus pais, presos e os serviços sociais assumiram os cuidados da criança. A polícia responsável pela identificação de vítimas em todo o mundo depende de pequenas pistas como essa.
Lindsay Dick não discutiu os detalhes do que eu tinha enviado, embora ele tenha investigado o caso. Então, quando perguntei a ele sobre uma sugestão de um editor para tirar uma foto do rosto do agressor, para ajudar a identificá-lo, comecei a ficar nervosa.
"Você ainda tem uma cópia desse vídeo?", ele me perguntou severamente. "Não", respondi. Mas ele ainda estava em algum lugar no servidor do WhatsApp e, como eu ainda era membro do grupo, ainda estava aparecendo no meu telefone. Mesmo que eu não tivesse feito nada errado, percebi o quanto a polícia levava esse tipo de coisa a sério.
No fim do ano passado, uma policial de Londres, Novlett Robyn Williams, foi condenada a cumprir 200 horas de trabalho comunitário não remunerado por não ter denunciado um vídeo de abuso sexual infantil que sua irmã enviou no WhatsApp. (A policial agora está apelando contra a condenação.)
A Polícia de Londres se recusou a me ajudar mais na minha busca pelo garoto no vídeo. A certa altura, eles até disseram a oficiais em outra parte do país, incorretamente, que eu tinha sido advertida por compartilhar o vídeo.
Mais tarde, descobri pela mulher que me enviou o vídeo que ela tinha sido condenada a três anos no registro de criminosos sexuais. No Reino Unido, o registro de agressores sexuais contém as informações de pessoas condenadas, advertidas ou libertadas da prisão por crime sexual.
Mas os investigadores locais não levaram o caso adiante — eles não prenderam a amiga que tinha enviado o vídeo a ela e nem sequer tentaram descobrir quem tinha enviado para a amiga dela. Seguindo-se este rastro, possivelmente seriam encontradas pessoas perigosas, talvez até um abusador. Mas nada foi feito para rastrear a origem do vídeo.
A Polícia de Londres disse que "a escala de abuso infantil e exploração sexual online aumentou nos últimos anos. Esse aumento demanda da polícia, juntamente com a necessidade de acompanhar o avanço da tecnologia e adaptar nossos métodos para detectar e identificar criminosos. No entanto, continuamos comprometidos em levar à Justiça aqueles que cometem crimes de abuso infantil online e em proteger vítimas e jovens em risco".
"Incentivamos qualquer pessoa preocupada com uma criança em risco de abuso ou possível vítima a entrar em contato com a polícia imediatamente. Qualquer pessoa que receber uma mensagem não solicitada que contém abuso infantil deve denunciá-la à polícia imediatamente para que sejam tomadas medidas. Imagens dessa natureza não devem ser compartilhadas sob quaisquer circunstâncias."
Eu precisava de alguém que não estivesse envolvido no caso para me dar mais algumas dicas de onde poderia ter vindo aquele arquivo. Então comecei a pesquisar e me deparei com notícias sobre uma equipe em Queensland, na Austrália, com reputação de se infiltrar em sites de compartilhamento de vídeos de abuso infantil.
O chefe de identificação das vítimas, o ex-detetive da polícia de Manchester Paul Griffiths, me disse que o arquivo que eu havia recebido provavelmente tinha surgido em um desses sites.
"O que costuma acontecer é que, quando um arquivo é produzido dessa maneira, ele geralmente fica oculto,, circulando por uma rede pequena e estreita. Muitas vezes, as pessoas sabem que precisam mantê-lo escondido e não distribuí-lo amplamente", disse ele.
Essas redes de pedófilos usam a chamada dark web, uma parte da internet que não é indexada prontamente por mecanismos de busca como o Google. Eles acessam sites por meio de uma conexão chamada TOR ou roteador cebola (em camadas). Eles usam um endereço IP falso, conectado a vários outros servidores espalhados pelo mundo, o que torna sua localização não rastreável.
Os integrantes dos sites na dark web são como colecionadores de selos doentes — publicam miniaturas do que têm em fóruns online sobre o tema e procuram concluir séries, geralmente de uma criança em particular.
Alguns deles são "produtores" — abusam das crianças ou as filmam sendo abusadas.
Há alguns anos, a equipe de Paul Griffiths acompanhava um site chamado Child's Play. Eles tinham informações de que dois dos líderes do site estavam se encontrando nos EUA. Os policiais os interceptaram, prenderam e pegaram suas senhas.
A partir disso, podiam ver cada vídeo e tentar encontrar crianças e abusadores. Eles fizeram centenas de prisões em todo o mundo e 200 crianças foram salvas até agora.
"É coisa de Sherlock Holmes, é seguir pequenas pistas e ver o que você pode juntar para tentar encontrar uma agulha no palheiro", diz Griffiths.
A grande preocupação agora é a transmissão ao vivo desse tipo de imagem, em que os adultos podem pagar para assistir às crianças sendo abusadas em tempo real. É ainda mais difícil de detectar, porque nenhum arquivo contendo pistas circula e as plataformas são todas criptografadas. Ao mesmo tempo em que a polícia e a tecnologia melhoram para encontrar vítimas em fotos ou vídeos, surgem outras ameaças.
"Há uma história famosa e muitas vezes é contada em relação a essa área do crime. É a figura da jovem caminhando em uma praia cheia de estrelas-do-mar. Ela pega as estrelas-do-mar e as joga de volta no mar, e o cara diz a ela: ´Menina, o que você está fazendo? Você nunca vai ser capaz de salvar todas essas estrelas-do-mar´. E ela diz: 'Não, mas eu vou salvar essa.' E é exatamente isso que estamos fazendo", diz Griffiths.
"Estamos salvando os que conseguimos salvar. E se alguma solução mágica aparecer em algum ponto do futuro que salvará todos eles, para impedir que isso aconteça, será maravilhoso. Mas enquanto isso, não podemos simplesmente nos sentar e ignorar o que sabemos que está acontecendo."
Paul Griffiths faz parte de uma pequena rede de pessoas que viajam pelo mundo para reuniões e conferências sobre o que fazer com o grande número de vídeos e imagens que circulam online.
Ele me disse para entrar em contato com Maggie Brennan, professora de psicologia clínica forense da Universidade de Plymouth, que estuda material de abuso sexual infantil há anos. Entre 2016 e 2018, ela vasculhou as imagens de abuso infantil em um banco de dados da Interpol, para criar um perfil de vítimas.
Ela encontrou um padrão assustador que sugeria que a idade do garoto no vídeo que eu vi não é tão incomum.
"Existe uma proporção substancial — pequena, mas importante — de imagens que retratam bebês e crianças pequenas. E encontramos um resultado significativo em termos de associação entre formas muito extremas de violência sexual e crianças muito pequenas".
Como o garoto no vídeo que recebi, a maioria das crianças no banco de dados é branca — provavelmente um reflexo do fato de que as forças policiais que contribuem com esse banco de dados são de países majoritariamente brancos.
Brennan diz que há uma pressão constante para quantificar o número de imagens ou vídeos existentes e o número de vítimas que estão sendo exploradas sexualmente. Mas é impossível. Os bancos de dados contêm apenas as imagens encontradas por meio de batidas policiais ou relatórios. Quem sabe quantos estão circulando por aí?
Paul Griffiths diz que é preciso apenas uma pessoa para trazer um vídeo das profundezas da dark web e divulgá-lo na população em geral.
"Cedo ou tarde, chega a alguém que não sabe como mantê-lo seguro e oculto, ou não se importa. E eles o espalham mais amplamente. Pode levar algumas horas e está por toda a internet."
Falei com um homem que cumpriu sete meses de prisão por visualizar imagens de abuso infantil. Ele recebeu os arquivos pelo Skype durante um encontro sexual online adulto. Ele abriu o primeiro arquivo, viu que era de uma criança — e continuou abrindo todos os 20. Depois, tentou compartilhá-los com outra pessoa. Finalmente, o homem que tinha lhe enviado os arquivos também os mandou a alguém que denunciou à polícia. Mas é um exemplo revelador da facilidade com que arquivos como aquele que recebi se espalham, das profundezas da dark web, para plataformas como o Skype e depois para os telefones das pessoas.
Apesar da falta de providências tomadas no meu caso, a reação policial do Reino Unido às imagens de abuso sexual infantil é uma das mais enérgicas do mundo.
O banco de dados de imagens de abuso infantil (CAID, na sigla em inglês) registrou um enorme investimento nos últimos cinco anos. Quando detetives recebem o telefone ou laptop de um suspeito, podem executar imagens nele, através de um software de ponta que verifica se as imagens são novas ou já conhecidas pela polícia. Todas as forças policiais estão ligadas e o banco de dados se comunica com outros ao redor do mundo.
Nos anos 1990, o Ministério do Interior britânico realizou um estudo sobre a proliferação de imagens impróprias de crianças. Havia menos de 10 mil imagens em circulação na época. Hoje, são quase 14 milhões de imagens no banco de dados do Reino Unido.
Os níveis de depravação em vídeos e imagens estão piorando, diz o chefe de polícia Simon Bailey. Ele é o líder do Conselho Nacional de Polícia Nacional nas investigações de proteção e abuso infantil há cinco anos.
Espero uma pessoa pouco amigável quando vou entrevistá-lo em seu QG. O que encontro é um homem exausto.
"Continua crescendo, crescendo e crescendo", diz ele. "E há um elemento de 'esses números são tão grandes que simplesmente não podem estar certos.' Bem, confie em mim, estão certos. E se tenho um grande arrependimento em relação à minha liderança e à nossa reação a isso é que tivemos dificuldades de mostrar ao público a verdadeira escala do que enfrentamos, os horrores disso. Imagino que a maioria das pessoas ficaria horrorizada com esse tipo de abuso."
No ano passado, Simon Bailey pediu um boicote a empresas de tecnologia, como Google e Facebook, até investirem em tecnologia para filtrar e bloquear essas imagens e vídeos. O público, inclusive eu, prestou pouca atenção a isso.
No ano passado, os robôs que o Facebook implementou para examinar seu serviço Messenger relataram 12 milhões de postagens contendo imagens de abuso infantil ao Centro Nacional de Crianças Desaparecidas e Exploradas, que administra o banco de dados dos EUA.
Por isso, ativistas por proteção infantil criticam a decisão do Facebook de começar a criptografar o Messenger nos próximos meses, porque isso significa que a plataforma ficará efetivamente "obscura" e os agressores poderão compartilhar material com impunidade.
Ele se tornará mais parecido com o WhatsApp, onde criptografia de ponta a ponta significa que ninguém, exceto o remetente e o destinatário, sabe qualquer coisa sobre o conteúdo da mensagem.
A criptografia do WhatsApp funciona porque seu telefone e o telefone da pessoa para quem você está enviando mensagens geram os códigos e as chaves de criptografia. Quando a mensagem sai do seu telefone, ela viaja pelos servidores do WhatsApp — mas eles não têm as chaves para descriptografar. A única maneira de robôs ou inteligência artificial poderem rastrear a mensagem seria se ela fosse criptografada depois de sair do telefone. Mas daria a policiais ou as próprias empresas de tecnologia uma janela para nossas mensagens. O WhatsApp pensa que perderia usuários como resultado.
A solução é fazer o rastreamento em nossos telefones.
Uma maneira de fazer isso seria fazer o download de um software com uma lista de todos os códigos exclusivos de todas as imagens e vídeos de abuso infantil conhecidos. Mas isso ainda suscitaria preocupações com privacidade. As empresas de tecnologia poderiam mexer na lista de códigos para incluir outros itens que não fossem imagens de abuso infantil — censura, em outras palavras.
Portanto, seria melhor se os telefones pudessem executar um algoritmo para gerar os próprios códigos, de forma completamente independente de qualquer governo ou empresa de tecnologia. Esta é a parte complicada, no entanto. Ninguém inventou esse algoritmo ainda.
Um especialista com quem falei disse o seguinte: "Eu não chamaria isso de impossível, diria que hoje não sabemos como fazer". Seria necessário uma quantidade enorme de pesquisa e desenvolvimento — mas provavelmente poderia ser feito.
O fracasso das chamadas Big Tech, as grandes empresas de tecnologia, em investir nisso irrita Simon Bailey.
"Eles detêm a chave de muito disso. Eles têm o dever de proteger crianças, penso eu, e se eximiram completamente disso."
"A reação é sempre: 'bem, estamos fazendo o melhor que podemos.' Não, não estão. Precisam fazer mais. Vocês lucram bilhões de libras. Invistam."
Existem grandes esperanças em relação ao White Harms Online do governo britânico publicado em abril de 2019 — uma proposta radical de legislação que levaria as empresas de tecnologia a serem responsáveis pelos danos que provocam. O documento propõe um novo órgão regulador, e ativistas esperam que o projeto de lei inclua relatórios obrigatórios de qualquer abuso sexual infantil. Os resultados de uma consulta pública sobre a proposta devem ser conhecidos em breve.
No momento, as empresas de tecnologia decidem o que querem nos dizer. Ninguém sabe, por exemplo, quanto Facebook ou WhatsApp gastam em proteção infantil. O Facebook diz que possui a melhor inteligência artificial do mercado, para bloquear e filtrar mensagens. Mas a empresa não revela como ela funciona ou quanto custa.
John Carr, que assessora governos sobre segurança infantil online, diz que essa falta de transparência deve acabar.
"Eu trabalho com pessoas nessas empresas o tempo todo, elas concordam comigo na maioria das coisas, se preocupam apaixonadamente em proteger as crianças, mas não tomam as decisões. São seus chefes, normalmente na Califórnia, que decidem o que acontece. Pessoas em altos cargos nessas empresas precisam se sentir pressionados, precisam sentir que seus pés estão perto do fogo ".
Pedi, claro, para falar com o WhatsApp. Eles não quiseram.
Em um dia de verão, finalmente consegui avançar na minha busca pelo garoto no vídeo. O assistente de Simon Bailey me pôs em contato com um policial graduado, o que me abre algumas portas, e recebo uma ligação.
Disseram que o garoto está vivo. Ele é parte da minoria sortuda que é identificada e resgatada.
O vídeo que recebi é antigo, dos EUA. Já existem três versões no banco de dados CAID do Reino Unido — quatro, com a minha versão. A polícia não pode me dizer onde ele está ou qual é o nome dele. Mas eles me dizem que o agressor cumpre uma longa pena de prisão. É a notícia que eu queria ouvir.
Deixo as coisas neste ponto. Uma palavra que ficou na minha cabeça ao longo dos meses, ao tentar descobrir mais sobre esse caso: "revitimização". Cada vez que alguém assiste ou compartilha um vídeo de uma criança sendo abusada, ela é revitimizada. E à medida que me aproximo de encontrar o garoto, percebo que poderia acabar fazendo uma ligação telefônica para dizer a ele, do nada, que vi o vídeo dele. Ele seria lembrado do horror. Ele seria humilhado. Eu deveria apenas deixá-lo em paz.
Mas eu ouvi sobre um grupo de campanha nos EUA composto por vítimas (pessoas filmadas por agressores) que querem ser encontradas e ouvidas.
James Marsh, advogado que representa vítimas de abuso sexual de crianças há 14 anos, liderou recentemente uma mudança na lei nos Estados Unidos que dá às vítimas o direito a uma indenização mínima de US$ 3 mil de todos os condenados por assistir ou compartilhar um vídeo de seus abusos.
Chama-se Lei de Assistência às Vítimas de Pornografia Infantil Amy, Vicky e Andy de 2018, Leva o nome de três jovens vítimas que a apoiaram escrevendo declarações para os tribunais.
"Só muito recentemente as vítimas ganharam o poder para recuperar esse espaço, tentando realmente afirmar que este não é um crime sem vítimas, que essas não são fotos inofensivas e que eles têm vozes que precisam ser ouvidas", ele diz.
Princípios voluntários
Um conjunto de "princípios voluntários" para a indústria de tecnologia, criado para combater a exploração e abuso sexual infantil online, foi publicado pelos governos do Reino Unido, EUA, Austrália, Canadá e Nova Zelândia, após consultas com seis empresas líderes de tecnologia.
Uma carta anexa reconheceu os esforços do setor, mas disse que "havia muito mais a ser feito para fortalecer os esforços existentes". Acrescentou que a iniciativa visa a "impulsionar a ação coletiva".
Os princípios incluem a prevenção da disseminação de material sobre abuso sexual infantil.
Recentemente, uma jornalista experiente ligou para Marsh querendo saber o que aconteceu com um de seus clientes. Ela achava que iria ouvir que o abuso tinha sido a divulgação de fotos de nudez. Quando o advogado revelou o real conteúdo do crime — o estupro de uma criança pequena — ela ficou horrorizada e não publicou os detalhes.
"Acho que, como jornalista, perde seus leitores com descrições gráficas. No entanto, de que outra forma você pode relatar com precisão o que está acontecendo para provocar mudanças significativas?"
Ele diz que seus clientes, à medida que envelhecem, ficam frustrados com esse tipo de escrúpulos. "Esta é a nossa experiência vivida", dizem eles. "Enfrentem isso."
Pergunto-lhe se ele acha que o jovem Andy (do Amy, Vicky e Andy Act) estaria disposto a conversar comigo. Ele concorda em nos conectar pelo Facebook Messenger.
E, com isso, encontrei um garoto em um vídeo. Alguém que sofreu o mesmo destino terrível que o garoto no vídeo que recebi.
O que quer que eu queira perguntar a esse garoto, posso perguntar a Andy. Ele tinha um lugar seguro para dormir à noite? Ele conseguiu se sentir em segurança?
Andy tem uma voz amistosa. Ele quer muito conversar, é sincero e extremamente agradável. É estranho, mas nossa conversa não é terrivelmente triste.
Ele me diz que está com 20 e poucos anos. Fora da prisão há seis meses, o período mais longo que conseguiu desde criança. Brigas, principalmente, e roubo. Quando era mais jovem, usava drogas: metanfetamina, heroína e maconha. Hoje em dia, largou as drogas e tem dois filhos, que ele adora.
Mas vive em uma espécie de prisão.
"Sou uma pessoa monótona. Realmente não saio muito, fico em casa, moro apenas com meus filhos, e é isso."
Andy vive com medo constante de que alguém o reconheça a partir de de um dos vídeos que o agressor fez, já que os abusos continuaram até os 13 anos. Se alguém o olha na rua, ele se preocupa.
Sua história começa com o divórcio de seus pais. Sua mãe queria uma figura masculina em sua vida e, assim, quando Andy tinha cerca de sete anos, ela o enviou para um programa para jovens. O "mentor" alocado pela organização preparou Andy e sua família por alguns meses e levou Andy a Las Vegas, nos EUA.
Andy não contou a ninguém quando o abuso sexual começou, porque ele não queria incomodar sua mãe.
"Eu não sabia como minha mãe reagiria. Eu não queria que ela se envergonhasse porque algo tinha acontecido comigo. Eu não sabia se isso era normal. Ele fez a situação parecer normal."
Como buscar ajuda
No Brasil, quem perceber alguma atitude suspeita de abuso infantil pode fazer uma denúncia pelo Disque 100 ou acionar diretamente a polícia pelo 190.
A Secretaria Municipal da Educação de São Paulo criou o site do Núcleo de Apoio e Acompanhamento para a Aprendizagem que oferece atendimento psicológico à distância para estudantes durante a quarentena. O portal é interativo e o aluno poderá ter acesso, gratuitamente, a informações e até conversar com psicólogos e psicopedagogos de diversas escolas da cidade.
Dependendo da conversa com os especialistas, o estudante poderá inclusive ser encaminhado para outras áreas e até mesmo fazer denúncias.
Quando Andy cresceu o suficiente, ele confrontou seu agressor, que fugiu para o México em seguida. Então, um dia, o FBI apareceu na escola de Andy e bateu na porta da sala de aula. O agressor enviara um vídeo para alguém que não conhecia, que o denunciou. "Aí, eles me dizem que existem centenas de milhares de vídeos e fotos minhas na web."
Até aquele momento, Andy não fazia ideia de que seu abuso fora compartilhado, muito menos com milhares de pessoas. Mas, apesar das notícias chocantes e da dificuldade de dizer a verdade à mãe, Andy concordou em ajudar o FBI a atrair seu agressor de volta à fronteira.
"Nós o convencemos a voltar com uma festa de aniversário minha. Foram três meses inteiros, até o meu aniversário. Conversei com ele por telefone, como se nada estivesse errado. Ele me enviou alguns pacotes."
Os oficiais do FBI mostraram a Andy o caminho que eles achavam que o agressor seguiria e o local da prisão planejada.
"Foi muito legal. Eles o pegaram a alguns quarteirões da casa da minha avó, o puxaram e o prenderam."
Foi um dos melhores momentos da vida de Andy.
Como outras vítimas identificadas nos EUA, Andy recebe uma carta toda vez que alguém é condenado por assistir ou compartilhar um vídeo dele. Ele tem milhares delas.
Ele está fazendo o possível para reconstruir sua vida. Quando ele pode pagar uma terapia, as coisas melhoram. Seus advogados trabalham em alguns casos grandes, o que deve lhe trazer mais indenizações. Mas é difícil.
"Trabalhar é realmente difícil para mim. E não é porque seja preguiçoso ou coisa assim. É principalmente a mentalidade de não poder confiar em ninguém. Então, sou realmente antissocial."
Andy, como todas as vítimas, teve o azar de cair nas mãos de um agressor. Se não tivesse acontecido isso, ele imagina que já seria o CEO dos negócios de seu pai.
Ele encontra propósito e consolo em seu envolvimento com a lei de Amy, Vicky e Andy. Os três jovens ativistas esperam encontrar-se pessoalmente em breve. No futuro, Andy quer desistir do anonimato e frequentar escolas para ensinar crianças a permanecerem seguras e como contar a alguém se não se sentirem em segurança. Ele sente a obrigação de fazer isso. "Sabe, eu quero que as pessoas conheçam minha história."
Eu nunca vou falar com o outro garoto que apareceu no vídeo. Espero que esteja bem. Espero que possa reconstruir sua vida, ainda que lenta e imperfeitamente, como Andy.
Consegui lhe dar um final feliz. Andy e o garotinho no vídeo que recebi foram identificados e seus agressores estão na prisão.
Mas isso não acontece sempre. A maioria dos meninos e meninas nos vídeos não será resgatada. E sem uma reforma radical na maneira como gerenciamos a tecnologia e a privacidade, vídeos como o que eu vi continuarão circulando e novas crianças serão abusadas para alimentar essa demanda.
Ilustrações de Hello Emma
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