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Como crise da Groenlândia faz Europa endurecer sua postura com Trump
- Author, Katya Adler*
- Role, Editora de Europa, BBC News
- Tempo de leitura: 11 min
Algo na Europa se rompeu.
Na segunda-feira (19/1) à noite, o presidente americano Donald Trump defendeu novamente que os Estados Unidos "precisam ter" a Groenlândia, por razões de segurança nacional.
Trump previu que os líderes europeus não "irão reagir muito". Mas não era o que eles tinham em mente para quando cruzassem com o presidente dos Estados Unidos durante a reunião anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça.
A Groenlândia é um território semiautônomo da Dinamarca — que, por sua vez, é membro da União Europeia e da Otan.
Donald Trump vem exercendo forte pressão sobre os aliados da Dinamarca nas duas organizações para que abandonem Copenhague e deixem que Washington assuma o controle da Groenlândia. O presidente americano chegou a anunciar tarifas punitivas sobre todas as suas exportações para os Estados Unidos, mas voltou atrás após dizer ter alcançado "um possível acordo".
As tarifas seriam um cenário de terror para as economias europeias, que já estão estagnadas — especialmente as que dependem das exportações para os EUA, como a indústria automobilística da Alemanha e o mercado de produtos de luxo da Itália.
Na segunda-feira, o ministro das Finanças da Alemanha, Lars Klingbeil, declarou que não se deixaria chantagear, após uma reunião de emergência com seu homólogo francês, em preparação para o Fórum Econômico Mundial.
As ameaças de Trump foram recebidas como um tapa no rosto dos governos europeus, que haviam acabado de firmar (separadamente, no caso da UE e do Reino Unido) acordos de tarifas com o presidente americano no ano passado.
"Estamos atravessando territórios não mapeados", declarou o ministro das Finanças da França, Roland Lescure, após as ameaças sobre as tarifas.
"Nunca vimos isso antes. Um aliado, um amigo de 250 anos, considerando usar tarifas... como arma geopolítica."
Klingbeil acrescentou que "foi cruzada uma linha".
"Você irá compreender que, hoje, não estou dizendo exatamente o que irá ocorrer. Mas um ponto precisa ficar claro: a Europa deve se preparar."
Subitamente, a atitude complacente em relação a Donald Trump, claramente adotada pelos líderes europeus desde que ele voltou para seu segundo mandato na Casa Branca, parece ter passado da sua data de validade.
E apesar da questão ter sido aparentemente resolvida com o anúncio do cancelamento das tarifas, a crise não será facilmente esquecida pela Europa, avalia Paul Adams, correspondente diplomático da BBC News.
"Não demorará muito para que os detalhes do acordo venham à tona. Mas o fato de Donald Trump ter desencadeado duas semanas de grande tensão e uma sensação de crise existencial dentro da Otan para chegar a este ponto não será facilmente esquecido", afirma.
'Policial bom, policial mau'
Na quarta-feira (21/1), após um encontro com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, realizado durante o Fórum Econômico Global, Trump anunciou que um acordo sobre a Groenlândia está próximo e cancelou as tarifas de importação contra países da União Europeia que entrariam em vigor em 1° de fevereiro.
Ainda não é o momento da extrema-unção das relações transatlânticas.
Mas a União Europeia, pelo menos, ainda espera abordar o presidente dos Estados Unidos "falando suavemente, mas carregando um grande porrete", parafraseando um ex-presidente americano.
Theodore "Teddy" Roosevelt (1858-1919) acreditava que, para atingir seus objetivos, é preciso ter diplomacia, respaldada por um poder respeitável. E a Europa parece estar adotando agora a técnica do policial bom, policial mau.
Os líderes europeus dizem ao presidente Trump que irão ajudá-lo a priorizar a segurança do Ártico e que, por isso, não é preciso que ele se dirija sozinho à Groenlândia.
Paralelamente, diplomatas europeus divulgaram a possível imposição de 93 bilhões de euros (cerca de R$ 586 bilhões) em tarifas de importação sobre produtos americanos ou até mesmo a restrição de acesso de empresas dos Estados Unidos ao enorme mercado comum do bloco, possivelmente incluindo bancos e empresas de tecnologia.
Tudo isso, se Trump tivesse mantido suas "tarifas da Groenlândia", como ficaram conhecidas.
Estas medidas retaliatórias, muito provavelmente, também causariam um efeito em cadeia para os consumidores americanos.
Os investidores da União Europeia mantêm presença massiva em quase todos os 50 Estados americanos. Calcula-se que eles sejam responsáveis por 3,4 milhões de empregos nos Estados Unidos.
A voz da União Europeia é fraca no cenário da diplomacia internacional. O bloco é composto por 27 países que vivem discutindo com frequência.
Mas a UE tem enorme influência sobre o comércio e a economia global, setores em que a maior parte das decisões é tomada pela Comissão Europeia, em nome dos membros isolados do bloco.
A União Europeia é o maior comerciante de bens e serviços do mundo. Ela representou cerca de 16% do comércio mundial em 2024. Por isso, Bruxelas manteve os dedos cruzados para que o presidente Trump descesse da sua posição maximalista para negociar uma solução intermediária.
Afinal, ele poderia ganhar uma ilha (a Groenlândia), mas provavelmente à custa de aliados próximos (a Europa). E ainda poderia ser considerado responsável pelo aumento dos custos para o consumidor nos Estados Unidos, se fossem efetivadas as tarifas retaliatórias da UE.
"Nossa prioridade é atrair, não intensificar", declarou na segunda-feira (19/1) o vice-porta-voz da Comissão Europeia, Olof Gill.
"Trump está forçando os europeus a criar coragem", afirma o economista Niclas Poitiers, especialista em comércio internacional do centro de estudos Bruegel, com sede em Bruxelas, na Bélgica.
"Os danos causados pelas tarifas de Trump seriam bem administráveis para a Europa... mas a questão maior aqui não é sobre economia, mas sobre segurança e política externa."
"A União Europeia não pode deixar de reagir", destaca ele.
Confiança nas garantias de segurança dos EUA
Na segunda-feira (19/1), o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, pareceu pouco impressionado. Falando em Davos, ele pintou o quadro de um presidente americano decidido.
"O presidente considera a Groenlândia um ativo estratégico para os Estados Unidos", segundo Bessent. "Não iremos terceirizar a segurança do nosso hemisfério para ninguém."
Ele alertou que eventuais tarifas retaliatórias europeias seriam "insensatas".
E, aqui, a Europa se sentiu travada. Condenada se tomar medidas. Condenada se não fizer nada.
Alguns na Europa temiam que, se confrontassem Trump, correriam o risco de alienar os Estados Unidos ainda mais.
E a verdade brutal é que a Europa precisa de Washington para garantir um acordo de paz sustentável para a Ucrânia e para a própria segurança do continente. Isso porque, mesmo prometendo gastar mais com a defesa, a Europa ainda depende muito dos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo em que reiterava seu apoio à soberania da Dinamarca e da Groenlândia, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, enfrentou dificuldades para deixar claro este ponto na segunda-feira.
Ele afirmou que, no "interesse nacional do Reino Unido, continuamos a trabalhar com os americanos em assuntos de defesa, segurança e inteligência".
"Nossa dissuasão nuclear é a nossa principal arma. Essa dissuasão, para garantir a segurança de todos no Reino Unido, é minha tarefa fundamental e exige um bom relacionamento com os Estados Unidos."
Mas, se a Europa continuar a tentar "administrar" Trump, em vez de confrontá-lo em um momento em que ele ameaça a soberania de um dos seus aliados na Otan (a Dinamarca), o continente correrá o risco de parecer seriamente enfraquecido.
No X (antigo Twitter), a principal diplomata da União Europeia, Kaja Kallas, escreveu: "Não temos interesse em comprar uma briga, mas iremos nos defender."
Como ex-primeira-ministra da Estônia (um país que teme a sombra iminente da Rússia expansionista), ela se empenha para demonstrar a Moscou que a Europa pode e irá mostrar os dentes, se for necessário.
"Os europeus não podem mais se esconder", segundo Tara Varma, especialista em segurança e geopolítica do centro de estudos Fundo Marshall Alemão dos Estados Unidos.
"Eles tentaram apenas a diplomacia pessoal com Donald Trump no ano passado, para vincular o presidente americano à defesa coletiva da Europa e garantir a segurança da Ucrânia após um cessar-fogo com a Rússia", explica ela.
Mas, se ele virar as costas novamente, mencionando razões econômicas e de segurança e ameaçando a Otan se não conseguir o que quer sobre uma questão específica, Varma pergunta: "Em última análise, qual confiança a Europa pode depositar nas garantias de segurança dos Estados Unidos com base neste governo?"
Putin e o Conselho de Paz
Quem assiste a tudo isso de camarote, além da Rússia, é a China.
Aos olhos dos dois países, o Ocidente (tradicionalmente, com os Estados Unidos e a Europa coesos no seu núcleo e dominando a política global há décadas) está, agora, se desfazendo.
O mundo é cada vez mais dominado por uma série de grandes potências. Elas incluem a Rússia e a China, mas também a Índia, a Arábia Saudita e, até certo ponto, o Brasil.
A China espera que a aparente inconstância de Donald Trump junto aos seus aliados possa fazer Pequim parecer um parceiro mais estável e confiável, atraindo uma parcela maior do comércio internacional.
O Canadá — que o presidente Trump ameaçou transformar no 51° Estado americano — acaba de firmar um acordo comercial limitado com Pequim. Ottawa está tentando reduzir sua exposição a Washington.
O presidente americano também manifesta pouco interesse pelas instituições multilaterais, como a Otan e a ONU, criadas pelas potências ocidentais após a Segunda Guerra Mundial, (1939-1945) para gerenciar a ordem global.
Alguns fazem referência ao Conselho de Paz sendo formado por Donald Trump e à cerimônia de assinatura, que ele supostamente deseja realizar na quinta-feira (22/1), em Davos. Muitos líderes mundiais e figuras importantes do mundo dos negócios estarão presentes à conferência.
O Conselho é ostensivamente projetado para administrar a reconstrução da Faixa de Gaza, após a devastadora ofensiva israelense dos últimos dois anos, com o objetivo de destruir o Hamas depois do seu ataque a Israel, em 7 de outubro de 2023.
Mas o estatuto do Conselho convoca "um organismo internacional de construção da paz mais ágil e eficaz", o que sugere que sua missão será muito mais ampla, possivelmente competindo com a ONU.
É assim que o presidente da França vê o Conselho.
Uma fonte próxima a Emmanuel Macron emitiu uma declaração na segunda-feira, afirmando que a França não pretende aceitar o convite recebido, "ao lado de muitos países", para fazer parte do Conselho de Paz.
"O estatuto do Conselho levanta questões importantes, principalmente em relação ao respeito aos princípios e à estrutura das Nações Unidas, o que não pode ser colocado em questão sob nenhuma circunstância", diz a declaração.
O Kremlin afirmou na segunda-feira que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, também foi convidado a fazer parte do Conselho.
O convite indica que Trump está disposto a manter suas relações com o presidente russo, mesmo com a invasão da Ucrânia por Moscou, que já dura quatro anos, e com a sua recusa, até o momento, em aceitar um plano de paz apoiado pelos Estados Unidos.
Também foram levantadas questões sobre o papel dominante de Trump no Conselho e sua exigência de que os líderes mundiais paguem US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,4 bilhões) por sua participação permanente.
Mas Tara Varma defende que o Conselho de Paz não trata da paz. "Como poderia tratar, se líderes como Putin foram convidados a fazer parte dele?"
"Trump quer ser visto como um pacificador", explica ela.
"Ele quer as manchetes, mas sem desenvolver o árduo trabalho de estabelecer as bases necessárias para que a paz seja duradoura. Sua estratégia é mais de bater e correr."
Para Varma, "ele não pode substituir instituições multilaterais, como as Nações Unidas, que existem há 80 anos."
Relações tensas, mas não rompidas
Mas o presidente Trump, com seu desprezo às normas internacionais existentes há décadas, talvez agite um pouco essas instituições multilaterais, impulsionando ou até forçando para que elas se modernizem e se tornem mais relevantes.
A participação no Conselho de Segurança da ONU, por exemplo, deveria ser menos centralizada no Ocidente e representar melhor as mudanças ocorridas na estrutura global de poder.
Os membros europeus da Otan também reconheceram que devem pagar mais pela sua própria defesa. Trump não é o primeiro presidente americano a afirmar isso, mas ele é muito mais incisivo.
Foi depois que ele ameaçou fazer com que os Estados Unidos deixem de defender nações que não pagam a sua parte que todos os membros da Otan, exceto a Espanha, concordaram em aumentar drasticamente seus gastos com segurança.
Voltando à Groenlândia, as pesquisas indicam que 55% dos americanos não querem comprar a ilha e 86% se opõem à sua tomada militar pelos Estados Unidos.
A Dinamarca e outras potências europeias vêm fazendo lobby junto aos legisladores no Capitólio, para convencê-los a proteger a soberania dinamarquesa.
As relações transatlânticas não foram rompidas, mas ficaram abaladas.
Donald Trump continua pegando o telefone para falar com sua parceira, a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, com Starmer e com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte. Ou seja, as linhas de comunicação ainda estão abertas.
Mas, em última análise, se os europeus quiserem enfrentar Trump, precisarão se manter coesos. E não apenas os Estados membros da UE isoladamente, nem só a Otan: mas todos os países, juntos.
E o Reino Unido, que mantém relacionamento mais próximo com os EUA, será fundamental neste ponto.
Ocorre que os líderes europeus estão divididos entre fazer o que eles acreditam ser o certo no cenário internacional e suas próprias preocupações domésticas. Afinal, se for deflagrada uma guerra comercial transatlântica, seus eleitores serão prejudicados.
Será difícil manter todos cantando no mesmo tom em relação à Groenlândia por muito tempo.
*Com Paul Adams, correspondente diplomático da BBC News