O que é o 'backstop', a polêmica cláusula que tem impedido 'divórcio amistoso' entre Reino Unido e União Europeia

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Crédito, AFP

Legenda da foto, Grupos contrários ao Brexit fizeram manifestações na fronteira da Irlanda com placas e fantasias militares
Tempo de leitura: 5 min

Durante toda a negociação com a União Europeia liderada pela primeira-ministra britânica, Theresa May, objetivando um divórcio amigável entre o Reino Unido e o bloco, o futuro da fronteira entre a Irlanda (república independente que integra a UE), e a Irlanda do Norte (território que, junto com Escócia, País de Gales e Inglaterra, forma o Reino Unido) tem sido um dos grandes obstáculos.

O desafio para o governo britânico é evitar que o Brexit produza uma fronteira "rígida" entre Irlanda e Irlanda do Norte, com controle aduaneiro - de passaportes e mercadorias -, o que contraria um dos pilares do acordo de paz para a Irlanda do Norte, firmado entre o governo britânico e o governo irlandês na década de 90.

A solução proposta por Theresa May, conhecida como "salvaguarda irlandesa" (ou "backstop", em inglês), tenta contornar a complexidade do tema, agravada pelo fato de a Irlanda do Norte e a República da Irlanda, dividirem a ilha de mesmo nome.

Atualmente, tanto a República da Irlanda como o Reino Unido são membros da União Europeia, não havendo portanto na ilha, qualquer fronteira física ou barreira, e mercadorias e pessoas circulam livremente de um país para o outro.

Mas, a partir do momento em que a saída do Reino Unido do bloco europeu estiver consolidada, haverá controle de produtos e de passaportes na fronteira o que contraria os termos do chamado Acordo de Belfast, assinado em 1998 e que encerrou anos de animosidade e violência entre católicos e protestantes irlandeses.

O que é o 'backstop'

Definido por alguns como uma espécie de "apólice de seguro", o "backstop" é um dispositivo que visa a garantir que não haverá a temida fronteira rígida entre as duas Irlandas, mesmo que UE e Reino Unido não alcancem um acordo em temas comerciais e de segurança.

Basicamente implicaria, como último recurso, manter temporariamente a Irlanda do Norte dentro da união aduaneira e do mercado comum europeu, enquanto o restante do território britânico passaria a seguir novas regras.

Essa salvaguarda só deve entrar em vigor se, até dezembro de 2020, não houver acordo comercial entre Reino Unido e UE.

De acordo com esse modelo, a Irlanda do Norte ficaria incorporada às regras de mercado da UE. Alguns parlamentares temem que isso perdure por tempo indeterminado.

Theresa May

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Theresa May lamentou que o Parlamento tenha derrubado o que chamou de 'melhor e único acordo possível'

Esses parlamentares querem introduzir um limite temporal para o backstop, algo que a UE já descartou.

Os líderes europeus dizem que o acordo ao qual chegaram com May - derrubado na terça pelo Parlamento - é "o melhor e único possível". E que não estão dispostos a continuar negociando.

A primeira-ministra dizia o mesmo. A primeira versão da proposta foi derrubada em janeiro por 432 votos contra e 202 a favor. Embora tenham sido feitas pequenas mudanças, o governo não conseguiu convencer a Câmara dos Comuns a aprovar o texto na votação de terça.

Por que a fronteira rígida entre as Irlandas é tão polêmica?

A Irlanda do Norte foi palco de um sangrento conflito, de 1968 a 1998, entre unionistas, de religião protestante, partidários de manter os laços com o Reino Unido, e os republicanos, em sua maioria católicos, que defendiam a independência da região e sua integração à República da Irlanda.

O Acordo de Belfast, firmado na capital da Irlanda do Norte em 1998, pôs fim à violência armada, mas incluiu como condição a ausência de uma fronteira rígida entre os dois territórios, ou seja, o trânsito de pessoas e bens entre uma parte e outra é livre.

Além disso, a venda de bens e serviços ocorre com poucas restrições, já que Irlanda do Norte e Irlanda pertencem ao mercado comum europeu.

Esse é outro ponto de controvérsia: muitos especialistas alertam que restrições na fronteira tornariam mais lento e ineficiente o intercâmbio comercial entre as duas partes, produzindo prejuízos aos produtores.

Para os defensores do Brexit, por outro lado, é preciso garantir uma forma de reduzir uma eventual "invasão" de produtos da União Europeia.

Qual foi a origem do 'backstop'?

Com o Brexit, a linha que separa Irlanda do Norte da Irlanda passaria a ser a única fronteira terrestre da Grã-Bretanha com a UE.

A proposta do "backstop" nasce, portanto, como uma iniciativa para evitar a divisão da ilha, a imposição de controles para o trânsito de pessoas e à compra e venda de mercadorias.

May chegou a propor, em junho do ano passado, manter, temporariamente, todo o Reino Unido na união aduaneira do bloco europeu, mas saindo do mercado comum.

Isso significaria que o Reino Unido manteria as mesmas tarifas de importação e exportação da UE, mas sem se comprometer com o livre trânsito de pessoas entre os países-membros do bloco.

A UE rejeitou essa proposta. No final de 2018, May apresentou, então, a ideia do "backstop", além de uma proposta que previa um período de 21 meses de transição, após a data do Brexit, para que Reino Unido e UE negociassem acordos comerciais.

Essa proposta foi aprovada em 25 de novembro pelos líderes europeus, em Bruxelas. Mas o Parlamento britânico rejeitou o texto.

Quais as consequências econômicas do 'backstop'?

Tanto Reino Unido quanto Irlanda são, atualmente, parte do mercado comum e da união aduaneira - seus produtos não precisam ser inspecionados nas fronteiras e sofrem poucas restrições para serem comercializados.

Mas, depois do Brexit, Irlanda do Norte e Reino Unido passariam a ser regulados por regras comerciais diferentes.

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Crédito, AFP

Legenda da foto, Atualmente não há uma fronteira rígida, com controle de mercadorias e passaportes, na fronteira entre Irlanda do Norte e República da Irlanda

Isso significa que os produtos e bens que chegarem à Irlanda do Norte, vindos do restante do território do Reino Unido, deverão ser inspecionados para verificar se cumprem as regras normativas da União Europeia - e vice-versa.

May defende o "backstop" por considerar, entre outros argumentos, que este é o "último recurso" para proteger o Acordo de Paz de Belfast.

Embora tanto Londres quanto Bruxelas tenham concordado, desde o início das negociações sobre o Brexit, que não deveria haver uma fronteira rígida entre as Irlandas, a forma de implementar esse entendimento está longe de encontrar consenso.

O impasse tem impedido um "divórcio sem traumas" entre Reino Unido e UE e deu ímpeto a duas propostas antagônicas: a de um novo referendo que possa revogar o Brexit e a de uma ruptura radical com o bloco europeu.

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