E agora? 4 pontos-chave para entender a polêmica sobre a Constituinte na Venezuela

Ativistas

Crédito, RONALDO SCHEMIDT/AFP/Getty Images

Legenda da foto, Ativistas da oposição rejeitam eleição em Caracas

A Venezuela entra nesta segunda-feira em uma nova fase política. A população que compareceu aos locais de votação no domingo elegeu uma Assembleia Constituinte com poderes ilimitados, duração desconhecida e com a missão de redigir uma nova Constituição e reformar o Estado.

No domingo, foram eleitos 545 membros da Constituinte, que darão início a uma nova era no país após 18 anos da aprovação da Carta Magna venezuelana, promulgada em 1999, no primeiro ano de governo do então presidente Hugo Chávez.

Legenda do vídeo, Explosões e mortes: o violento dia de votação da Assembleia Constituinte venezuelana

Desta vez, o governo enfrenta uma grave crise econômica e um conflito político que se traduziu em quatro meses de protestos, com quase 120 mortos e um enfrentamento direto com a oposição.

Os opositores, aliás, dizem que 88% dos eleitores se abstiveram de ir às urnas no domingo, enquanto dados oficiais dizem que 41,5% compareceram à votação.

A oposição, que vê a Constituinte como uma estratégia do governo para aumentar o poder e abafar vozes críticas, boicotou a eleição; para o governo, o processo é a chave para o diálogo e a paz.

E, nesta segunda-feira, os Estados Unidos anunciaram sanções contra o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, chamado de "ditador" pelo Tesouro americano. As sanções proíbem empresas americanas de fazer negócios com Maduro e congela eventuais bens que ele tenha nos EUA.

"As eleições ilegítimas de ontem (domingo) confirmam que Maduro é um ditador que despreza a vontade do povo venezuelano", afirmou o secretário do Tesouro americano, Steven Mnuchin. "Ao sancionar Maduro, os Estados Unidos deixam clara nossa oposição às políticas de seu regime e nosso apoio ao povo da Venezuela, que quer o retorno de seu país a uma democracia plena e próspera."

Maduro é um de apenas quatro líderes globais a serem sancionados pelos EUA nesses termos, afirmou Mnuchin. Os demais são Bashar al-Assad, presidente da Síria, Kim Jong-un, líder da Coreia do Norte, e Robert Mugabe, presidente do Zimbábue.

Maduro respondeu chamando as sanções de "ilegais, insolentes e sem precedentes".

"Quem esses imperialistas dos EUA pensam que são? O governo do mundo?", questionou.

A Venezuela entra um período de incertezas e a BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC, aponta quatro incógnitas sobre o momento político.

Protesto

Crédito, JUAN BARRETO/AFP/Getty Images

Legenda da foto, Houve confrontos entre a polícia e manifestantes de oposição

1. Quando e onde será instalada?

Espera-se que a Assembleia Constituinte seja inaugurada em até três dias da eleição, segundo seu regulamento e declarações de Nicolás Maduro.

Ela será instalada no Salão Oval do Palácio Legislativo, no mesmo edifício e em frente ao plenário da Assembleia Nacional (o Parlamento), composta em maioria por deputados da oposição.

"Será uma disputa visual forte", comentou o analista americano especialista em Venezuela David Smilde, sobre um possível antagonismo entre as duas casas.

Nos últimos dez meses, simpatizantes do governo invadiram por duas vezes o Palácio Legislativo em protestos contra a bancada opositora da Assembleia.

"Será um sinal de dois governos", disse a BBC Mundo o deputado da oposição Richard Blanco sobre a duplicidade de instituições.

Em março, o Tribunal Supremo de Justiça do país assumiu os poderes legislativos da Assembleia Nacional, o que foi considerado um golpe pela oposição. A atual Constituinte pode dissolver o Parlamento, mas também coabitar com ele.

O Salão Oval tem um grande valor simbólico e artístico. Alguns o chamam de Capela Sistina da Venezuela. A cúpula de 26 metros de largura tem uma representação da Batalha de Carabobo, do pintor Martín Tovar y Tovar.

A própria Ata da Independência está ali, guardada em um cofre que é aberto apenas uma vez por ano.

2. Quanto irá durar?

Ainda não se sabe a duração da Constituinte, uma vez que ela própria irá definir seu prazo.

O precedente mais próximo é a Constituinte de 1999. Na época, os 131 membros concluíram a nova Constituição em três meses e meio. Ela foi aprovada em seguida por um referendo.

"Pelo que se tem dito, há a tese de que dure um ano", disse em uma entrevista recente à BBC Mundo Hermann Escarrá, um dos idealizadores do processo convocado pelo governo.

"São hipóteses. Mas na realidade, isto será decidido pela Assembleia Constituinte", disse Escarrá, que lembrou que a Constituinte redigirá não apenas uma nova Carta Magna, mas "leis constitucionais", de cumprimento obrigatório.

Nicolás Maduro

Crédito, RONALDO SCHEMIDT/AFP/Getty Images

Legenda da foto, Nicolás Maduro espera que a nova Constituinte seja instalada em um prazo de até três dias

3. O que ela fará?

A Constituinte tem poderes ilimitados e está acima de qualquer outra instituição estatal, incluindo o próprio presidente.

Por isso, é importante saber quem a presidirá: seja a esposa de Maduro, Cilia Flores, ou Diosdado Cabello, que embora governista, possa querer impor sua visão à do chefe de Estado.

O artigo 349 da atual Constituição estabelece que os poderes constituídos "não poderão de forma alguma impedir as decisões da Assembleia Nacional Constituinte" e que o presidente não poderá fazer objeção à nova Constituição.

Maduro não considerou necessária uma consulta popular prévia para avaliar se os venezuelanos queriam uma Constituinte, como ocorreu em 1999. Mas propõe um referendo para aprovar a nova Carta Magna, o que, mais uma vez, está nas mãos da Constituinte.

As funções já declaradas da Constituinte são reformar a justiça - para combater com mais força o "terrorismo", termo que o governo usa para classificar ações da oposição - e o sistema econômico, hoje completamente dependente do petróleo, uma fonte de receitas que já não gera as divisas de antes.

Maduro e outros líderes governistas que estarão na Constituinte já anunciaram uma possível dissolução do Parlamento, controlado pela oposição, e a reforma do Ministério Público.

Capriles

Crédito, FEDERICO PARRA/AFP/Getty Images

Legenda da foto, Henrique Capriles, líder da oposição, convoca para novos protestos após Constituinte

4. O que fará a oposição?

"Rua, rua e mais rua", disse à BBC Mundo neste domingo o deputado da oposição Richard Blanco.

Os opositores continuarão exigindo a convocação de eleições diretas antecipadas e o fim do atual governo; eles acreditam que Maduro é responsável pela grave crise econômica e por transformar o sistema político do país em uma ditadura.

A oposição não reconhece a Constituinte, nem participou da eleição no domingo. Mas agora precisa apaziguar suas próprias diferenças: a Mesa da Unidade Democrática (MUD), a coalizão de partidos da oposição, é composta de grupos com visões diferentes sofre como enfrentar o governo e a atual crise política.

Na próxima semana, entre 7 e 9 de agosto, será aberto o prazo de inscrição para candidatos às eleições regionais, previstas para o dia 10 de dezembro.

Haverá uma resposta uníssona ou fragmentada? Tentarão influenciar o processo de formulação ou mesmo o referendo da nova Constituição de alguma forma ou seguirão em desobediência civil e não reconhecendo os atuais poderes da Constituinte?

Além da oposição, vários países, entre eles Brasil, Estados Unidos, México, Colômbia, Peru, Argentina, Chile e Panamá, disseram não reconhecer a Constituinte.

Com isso, a oposição poderia proclamar suas próprias instituições, como ocorreu ao nomear magistrados do Tribunal Supremo de Justiça na última semana. Isto levaria a Venezuela a ter um Estado paralelo, o que aprofundaria ainda mais a divisão do país.